CRÔNICAS

Euler e os marajás

Em: 10 de Novembro de 1995 Visualizações: 854
Euler e os marajás

O deputado federal Euler Ribeiro (PMDB vixe vixe) é um ex-quase-futuro ministro da Saúde. Durante as mudanças de governo – Sarney, Collor e Itamar – assim como nas crises ministeriais, em todas elas, Euler aproveitava para desovar notícias nos jornais de Manaus, anunciando o seu nome como “cotadíssimo para o Ministério da Saúde”, sugerindo aos leitores locais que ele é “um nome nacional”.

Este recalcitrante e eterno autocandidato a ministro acaba de acrescentar mais um ponto ao seu controvertido currículo. Ele é o relator – ninguém sabe como nem o porquê – da Reforma da Previdência e tem o prazo até o dia 27 do corrente mês para apresentar seu relatório na Comissão Especial de Mérito da Câmara.

Euler já adiantou alguns pontos do relatório, que mereceram a manchete principal do Jornal do Brasil de quarta-feira: “Relator tenta impedir fim dos marajás”, além do editorial de ontem “O defensor dos marajás”, que trata “o obscuro deputado Euler Ribeiro” como “impetuoso oportunista”.

O JB entrevistou Euler, que confirmou: vai mesmo defender as aposentadorias e pensões dos marajás do funcionalismo, aqueles mesmos que a Reforma Administrativa do Governo pretende extinguir.

- “Temos que manter o valor atual dos salários. Não vou mexer em direito adquirido que está na Constituição” – declarou o deputado amazonense. Atualmente existem mais de 2.000 servidores federais que recebem vencimentos superiores a R$8.500,00 mensais – teto estabelecido pela proposta governamental.

Euler advoga assim o “extra teto” para aqueles apadrinhados, que recebem aposentadorias milionárias, ou seja, defende a manutenção dos privilégios dos marajás. Ele não está defendendo a ordem constitucional, como alega, nem muito menos as conquistas dos servidores que ralam. Em outras ocasiões, ele próprio já se manifestou favorável a mudanças na Constituição para tentar abolir as conquistas e os direitos adquiridos dos povos indígenas na demarcação de suas terras.

Segundo o JB de ontem, “é óbvio que Euler Ribeiro e os eleitoreiros em geral querem tão somente preservar suas bases eleitorais” em ano que antecede as eleições municipais. Ou seja, não mexer com amigos, protegidos, cabo eleitorais e esquemas de financiamento de campanha. Todo esse lero-lero sobre “direito adquiridos” serve apenas para esconder “uma cínica defesa de privilégios inaceitáveis, como o de aposentados de terceiro escalão receberem salários de até R$ 30 mil”.

Quando secretário estadual de Saúde, Euler Ribeiro teve sua gestão questionada no que diz respeito à probidade na aplicação das verbas públicas. Agora, aceita a reforma administrativa, desde que as novas regras para a aposentadoria só atinjam as pessoas que entrarem no mercado de trabalho depois da promulgação da emenda da Previdência, o que significa que só entrarão em vigor daqui a 40 anos. Tudo isso para preservar os “extra tetos”.

O ministro da Previdência Social, Reinhold Stephanes, que também não é flor que se cheire, classificou de “ridículo” o relatório de Euler, acusando-o de estar “montando um circo” com as audiências públicas para discutir a reforma, com objetivos eleitoreiros. Ofendido, Euler teria reagido por telefone, retrucando ao ministro: “Quem monta circo é palhaço”. Vai ver, tanto o ministro como o deputado, na questão circense, estão cobertos de razão.

Em um país onde um professor das redes municipal e estadual de ensino tem que trabalhar 35 anos para receber aquilo que um marajá ganha em apenas um mês, a defesa que Euler faz dos marajás é condenável por contrariar interesses populares. Mas é coerente com a trajetória de vida deste parlamentar.

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