CRÔNICAS

O ICE e a Ditadura do Normal

Em: 02 de Fevereiro de 2026 Visualizações: 439
O ICE e a Ditadura do Normal

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

— Eu perco o foco às vezes. Mas o povo sempre perde o sentido. Quem é que precisa de laudo?

— Verdade, maninha. A diferença é que o nosso vem com diagnóstico. O deles vem com crachá.

(Conversa entre duas amigas neurodivergentes do meu ambiente de trabalho)

 

Caboco, o Estado moderno tem uma obsessão antiga: previsibilidade. Ele gosta de saber quem você é, onde você está, como você pensa e, sobretudo, se você vai dar trabalho. Quer planilha, formulário, histórico. Quando não consegue prever, ele controla. Quando não entende, ele normatiza. Quando não cabe, ele empurra para fora e, às vezes, com violência explícita; às vezes, com a delicadeza burocrática de quem apenas “cumpre procedimentos”.

É assim nas fronteiras internacionais e é assim nas fronteiras invisíveis do cotidiano, aquelas que não aparecem no mapa, mas atravessam salas de aula, repartições públicas, empresas e reuniões de condomínio.

A diferença é que, em um caso, há muros, armas, algemas e uniformes. No outro, há olhares atravessados, relatórios pedagógicos, laudos mal explicados, reuniões de “alinhamento” e uma cobrança permanente para “se ajustar”. O tom muda; o mecanismo é o mesmo.

Imigrantes e neurodivergentes recebem a mesma política de boas-vindas: “Pode ficar, sim. Só não complique o sistema.”

E complicar, aqui, significa cometer um crime gravíssimo: existir fora do padrão esperado.

A lei: instrumento de medo

Nos Estados Unidos, o ICE nasce oficialmente em 2003, herdeiro direto do trauma do 11 de Setembro. A lógica era simples, eficiente e politicamente rentável: misturar imigração com terrorismo, deslocamento humano com ameaça. Desde então, a fronteira deixou de ser um espaço de passagem regulada e virou um campo permanente de suspeição, onde o erro administrativo é tratado como falha moral.

Legalmente, o ICE opera dentro da lei. Esse é sempre o primeiro argumento. Ele localiza, detém, processa e deporta pessoas sem status migratório regular. Administra centros de detenção que não se chamam prisões — embora tenham grades, horários rígidos e corredores longos, onde o tempo parece parar. Coordena operações com polícias locais, cruza bancos de dados, faz batidas em locais de trabalho, bairros pobres e comunidades historicamente racializadas, muitas vezes ao amanhecer, quando o susto é maior que a resistência.

Tudo com base na lei feita pelo Estado, que não representa o conjunto da população, mas a parcela que detém o poder econômico e político. Tudo dentro do procedimento.

O problema é que a lei, quando aplicada sem critério humano, vira tecnologia de crueldade. O ICE não avalia contexto social, histórico familiar ou vulnerabilidade psicológica como prioridade, muito menos o caráter do indivíduo. Avalia status. A pergunta central nunca é “quem é essa pessoa?”, mas “ela tem carteira e documentos válidos?”. O resto vira detalhe administrativo.

O resultado é conhecido e repetido: mães deportadas enquanto os filhos, cidadãos americanos, esperam na saída da escola; trabalhadores algemados em ações midiáticas para “dar exemplo”; pessoas mantidas por meses em detenção administrativa, sem acusação criminal, sem sentença, sem horizonte. A fronteira, nesse modelo, não organiza — ela intimida, “educa” pelo medo.

O discurso político chama isso de segurança. Mas segurança para quem, caboco? Certamente não para quem atravessa o sistema com medo no corpo, língua quebrada na boca e direitos fragmentados no bolso.

Se o ICE realmente fosse eficiente e cumprisse os objetivos apregoados pela lei, Eduardo Bolsonaro, Paulo Figueiredo e Allan dos Santos, entre outros, ainda estariam por lá?

Normalidade como política pública

Se o ICE administra corpos considerados irregulares, a sociedade administra cérebros considerados inconvenientes.

A vida cotidiana de uma pessoa neurodivergente é atravessar fronteiras o tempo todo. Acordar já é um esforço. Organizar o dia exige cálculo. Uma sala de aula barulhenta, uma reunião cheia de subentendidos, um prazo definido sem critério claro — tudo isso funciona como um posto de controle invisível. Decifrar sinais sociais, lidar com ruídos, ironias, mudanças repentinas e expectativas não ditas consome uma energia que o mundo simplesmente não contabiliza.

A pessoa com dislexia, como este que vos fala, enfrenta textos como quem atravessa um rio de correnteza forte. Letras trocam de lugar, palavras escapam, frases precisam ser revisitadas. A inteligência está ali, firme, mas o sistema insiste em medir capacidade pela velocidade da leitura. Provas cronometradas, relatórios extensos, leitura em voz alta diante da turma. A dificuldade vira suspeita de preguiça ou desleixo. O erro vira exposição, nunca – é claro – como os cometidos pelos policiais da Escola de Caçapava cívico-militar no Vale do Paraíba, que escreveram no quadro “descançar” e “continência”.

O autista habita um mundo excessivamente barulhento — não apenas no som, mas na ambiguidade. Regras que ninguém explica, ironias lançadas como teste, mudanças de plano sem aviso. Em uma reunião, enquanto todos “sentem o clima”, ele tenta decifrar o manual invisível. O esforço para parecer “normal” é exaustivo. Quando falha, o rótulo vem rápido: frieza, inadequação, falta de empatia. Pouco importa o cansaço acumulado.

O TDAH vive num paradoxo permanente. É acusado de não prestar atenção, mas consegue focar por horas no que faz sentido. Em sala, recebe advertência. No trabalho, feedbacks genéricos sobre “falta de organização”. O problema não é déficit; é incompatibilidade entre um cérebro que funciona por interesse e um mundo que exige atenção contínua a tarefas desinteressantes. O resultado é uma sequência de rótulos, punições sutis e fracassos escolares que não medem potencial — medem obediência.

E a superdotação, que o senso comum imagina como privilégio, cobra seu próprio pedágio. Pensamento acelerado, questionamento constante, intensidade emocional. A escola pede silêncio. O trabalho pede repetição. A sociedade pede moderação. Quando o ritmo interno transborda, o excesso vira problema de comportamento, nunca sinal de inadequação do ambiente.

Em todos os casos, a adaptação é exigida unilateralmente. O ambiente raramente muda. O cérebro é que precisa se explicar, se justificar, se laudar. É o ICE da normalidade: você pode ficar, desde que prove, repetidamente, que não vai desorganizar o sistema.

Controle não é cuidado

O paralelo é desconfortável, mas inevitável. Tanto na política migratória quanto no trato com as neurodiversidades, o Estado e suas instituições operam com a mesma lógica: reduzir a complexidade humana a categorias administráveis, fáceis de vigiar e difíceis de questionar.

O ICE chama de enforcement. A escola chama de disciplina. A empresa chama de perfil adequado. O nome muda; o efeito é sempre o mesmo: transformar diferença em risco e vulnerabilidade em incômodo.

Regras são necessárias, ninguém discute isso. Mas, quando regras se tornam mais importantes do que pessoas, elas deixam de organizar a vida coletiva e passam a selecionar quem merece permanecer inteiro e quem precisa ser corrigido, ajustado ou descartado.

Numa calçada qualquer da infância, quatro crianças neurodivergentes sabiam — sem decreto, sem política pública — que o jogo só funcionava porque ninguém pensava igual. Um corria mais, outro inventava regras, outro errava sempre, outro questionava tudo. A tentativa de padronizar vinha depois e, quase sempre, estragava a brincadeira.

Talvez seja isso que ainda falte ao mundo adulto: entender que diversidade não é concessão moral nem favor institucional. É condição básica da vida. Sistemas que não sabem lidar com ela acabam produzindo exatamente o que dizem combater: caos, exclusão e uma violência silenciosa que se disfarça de normalidade.

Entre a fronteira vigiada e o cérebro diverso, fica a pergunta que o poder evita formular em voz alta: quem está realmente fora da ordem — quem chega diferente ou quem insiste em um sistema que só funciona eliminando diferenças?

Porque, no fim das contas, caboco, ninguém é ilegal. Ninguém é defeituoso.
O que existe são instituições treinadas demais para controlar e perigosamente pouco dispostas a cuidar.

Referências

https://revistaforum.com.br/brasil/escola-civico-militar-professor-escreve-descancar-e-cotinecia-veja-video/

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário