CRÔNICAS

As jararacas e a filiação de Jones Manoel

Em: 09 de Fevereiro de 2026 Visualizações: 613
As jararacas e a filiação de Jones Manoel

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons."

(Martin Luther King Jr)

Tem gente que aprende política em livro, tem gente que aprende em partido — e tem quem aprenda na mesa do almoço de domingo, entre um café requentado e uma discussão sobre quem não respondeu no grupo. Eu, caboco, tive formação completa: graduação em família grande brasileira, especialização em grupo de WhatsApp, mestrado em solidariedade e doutorado em bem comum.

Porque, antes de ser ideologia, a política é convivência. É aprender a discordar sem expulsar, a brigar sem romper, a regular a participação, a decidir quem fala, quem vota e quem só reclama. É sobre tempo, regra, pertencimento e, principalmente, sobre como continuar existindo junto apesar das diferenças. Parece teoria do Estado, mas às vezes é só uma família tentando organizar a própria bagunça afetiva.

E foi olhando para essa pequena república doméstica — cheia de fé, fofoca e regimento interno informal — que eu percebi uma coisa: o Brasil não é complicado só nas instituições. Ele já nasce complicado dentro de casa. E entender isso ajuda a entender por que, na política grande, tanta gente precisa fazer malabarismo entre o que acredita, o que é possível e o que a regra deixa passar.

Anos depois, eu veria essa mesma lógica reaparecer num debate público envolvendo um historiador pernambucano chamado Jones Manoel. Mas antes, preciso falar das jararacas.

Jararacas e JaraKids: herança ideológica

Minha vó é de um tempo em que não tinha televisão. O resultado histórico disso são 12 filhos. A tecnologia chegou tarde, mas chegou com força: hoje temos 11 vivos, entre 63 e 84 anos, sendo 8 mulheres e 3 homens — um experimento sociológico ambulante sobre longevidade, fé, teimosia e a absoluta incapacidade de guardar um segredo. São todos praticantes dedicados à arte milenar da fofoca, patrimônio imaterial da família.

Com a modernidade, organizaram-se politicamente. Criaram um grupo no Zap chamado “Jararacas” — nome escolhido por eles mesmos, o que já diz muita coisa. Com o tempo, a intimidade institucional encurtou a sigla: viraram só “Jaras”, quase um partido tradicional, desses que sobrevivem mais pelo vínculo histórico do que pelo programa.

O grupo funciona diariamente. Oficialmente, é para rezar. Na prática, virou uma espécie de terapia coletiva permanente, onde se alternam risos, choros, conselhos, broncas, apoio, memória e aquele amor meio ranzinza que só família grande sabe produzir. Eles aprenderam uma coisa importante: não se deve divergir de pessoas, mas de ideias. O fato é que, na maior parte do tempo, as ideias também convergem — o que não impede discussões longas, dramáticas e absolutamente desnecessárias sobre os mais diversos assuntos, que vão desde como se comportar nas próximas eleições presidenciais até reflexões a respeito da vida eterna.

Como toda boa assembleia, volta e meia dá briga. Mas aí entra o fator decisivo: o tempo. Eles sabem — com a lucidez que só a idade traz — que o tempo restante já não é promessa, é contagem regressiva. E essa percepção opera milagres políticos. A raiva perde força, o orgulho encolhe, o mal-estar vira luxo caro demais. Em um ou dois dias, estão se falando como se nada tivesse acontecido. Reconciliação por urgência existencial.

E tem mais: para participar dos rituais, cada um tem sua carteirinha de filiação — sem ela, não há voz nem voto nas decisões espirituais e logísticas do grupo. A democracia dos Jaras é inclusiva, mas regulamentada. Quer participar? Regularize sua situação.

Essa pedagogia do tempo foi tão forte que nós, filhos dos filhos, criamos nosso próprio núcleo político-geracional: o “JaraKids” — homenagem tanto à tradição familiar quanto ao delicioso peixe amazônico. Somos de outra geração, com outra linguagem e outra visão de mundo. Não somos adversários dos Jaras, nem pensamos o oposto deles. Seguimos outra linha — com os mesmos valores de fundo, só que com menos novena e mais notificação.

Essa lição dos Jaras — a de que pertencer e atuar requer uma forma, uma 'carteirinha', mesmo que o coração bata em outro lugar — é a mesma que rege o jogo pesado da política nacional.

Jones no PSOL: convergência ideológica

Caboco, gosto de pensar que Jones Manoel é gente como a gente. Historiador, militante comunista, conhecido pelo seu canal de You Tube Farol Brasil, oriundo  da periferia do Recife, ele esbarra justamente nesse limite entre existir socialmente e existir eleitoralmente.

Sua filiação ao PSOL é a operação prática para resolver a equação: como levar uma base sólida e uma voz potente para dentro da arena onde as regras são definidas por carimbos e registros?

Jones cresceu nas redes em ritmo acelerado, enfrentando debates públicos, confrontando liberais, conservadores e representantes da direita em formatos que viralizam. Isso lhe deu alcance, visibilidade e uma base que já o reconhece como liderança política. Mas base social não vira candidatura sozinha.

Então surge o arranjo da chamada filiação democrática. Que, traduzindo para o português claro, é o seguinte: “Eu continuo sendo quem sou politicamente, mas uso a legenda de quem pode me levar até a urna.” Não é conversão ideológica. É engenharia institucional. É o jeitinho brasileiro diante das urnas.

Jones e PSOL são como duas retas paralelas, daquelas que andam lado a lado, quase de mãos dadas, mas que só se cruzam no infinito.

Isso é incoerência? Depende de onde você olha. Para quem vê partido como identidade fechada, parece contradição: “Como alguém é de um partido, mas disputa por outro?” Para quem enxerga a política como disputa de espaço real — inclusive digital — é outra lógica: ou você entra na arena com as regras que existem, ou fica do lado de fora com toda a razão do mundo — e zero voto. A esquerda brasileira já fez isso outras vezes na história. Grupos sem registro se abrigaram em legendas maiores para existir eleitoralmente. Não é romance ideológico; é sobrevivência política.

Essa filiação fala menos sobre Jones e mais sobre o sistema. Mostra que, no Brasil, nem toda força política que existe socialmente consegue existir eleitoralmente. A democracia tem porta de entrada — e essa porta é regulamentada.

Quando uma corrente precisa pegar carona na legenda de outra para aparecer na urna, isso diz algo sobre o funil institucional, não só sobre a escolha do candidato. Ideias podem ser livres. Candidaturas precisam de autorização.

Acredito que, nessa história, os favorecidos serão os eleitores de Pernambuco. Eu fico aqui me remoendo de inveja, tendo que engolir a seco candidaturas como a do prefeito David Almeida e a do Governador Wilson Lima.

A tal filiação democrática, nesse caso, é a gambiarra legal que resolve um problema estrutural.

No fim das contas...

As Jaras aprenderam que, sem regra, o grupo vira barulho; mas, só com regra, fica dura igual a ouriço de castanha. Então equilibram: criam carteirinha, organizam rituais, mas deixam o afeto corrigir o excesso de dureza. Brigam, mas o tempo os obriga a voltar. A vida é curta demais para transformar divergência em exílio.

Na política, a lógica é parecida, só que menos carinhosa. O sistema eleitoral também distribui carteirinhas, controla quem fala, quem entra, quem pode virar nome na urna. A diferença é que ali o tempo não amolece corações — só fecha portas. Quem não se adapta à forma jurídica corre o risco de existir socialmente, mas não existir politicamente.

É por isso que a tal filiação democrática não é romance, nem traição, nem jogada genial isolada. É sintoma. Sintoma de um país onde a energia política transborda da sociedade, mas precisa passar por um funil institucional estreito para virar candidatura. Onde ideias são livres, mas a disputa pelo poder tem porteiro.

Os puristas torcem o nariz. Os pragmáticos respiram fundo e assinam a ficha. Entre a coerência absoluta e a possibilidade real de agir, muita gente escolhe a segunda — não por falta de convicção, mas por excesso de realidade.

Talvez a política brasileira fosse menos histérica se aprendesse um pouco com as grandes famílias amazônidas: discordar sem expulsar, regulamentar sem desumanizar, entender que ninguém é só a posição que ocupa numa discussão.

E, sobretudo, lembrar do que os Jaras sabem melhor que qualquer cientista político: o tempo não espera a gente organizar a teoria.

Seja num grupo de WhatsApp ou no sistema eleitoral, a pergunta é a mesma: quem consegue continuar junto o bastante para ainda ter voz quando a decisão acontece?

MARIA LUÍZA UGARTE PINHEIRO 

P.S. A coluna Taquiprati e a História do Amazonas estão de luto com o falecimento da professora da UFAM, Maria Luiza Ugarte Pinheiro, do bairro de Aparecida, ocorrido nessa sexta-feira, dia 6 de fevereiro.  Mestra, doutora e pós-doutora em História pela PUC-SP, coordenou o Laboratório da Imprensa no Amazonas de 2007 a 2019. Historiadora respeitada nacionalmente, pesquisou a imprensa operária, as lutas e a organização dos trabalhadores em nosso estado. Consultou fontes até então desconhecidas e realizou uma análise fina e acurada dos dados, além de abrir largas avenidas para serem trilhadas por futuros estudos.

Autora de vários livros, entre os quais sua tese de doutorado “Folhas do Norte: letramento e periodismo no Amazonas (1880-1920)” na qual discute o lugar da mulher no jornalismo amazonense, sua imagem na imprensa e o surgimento da imprensa feminina. “Chega a ser inquietante – escreve – “o descaso com o tema da presença feminina sequer mencionada pela historiografia local”.

Sua dissertação de mestrado, aprovada também com louvor e recomendação para publicação, virou livro: “A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de Manaus (1899-1925). O titular desta coluna, José R. Bessa Freire, profundamente abalado com a notícia do falecimento repentino da Luíza, manifesta que ela foi uma aluna brilhante, uma das poucas considerada como uma filha e que compartilha a dor do historiador Luis Balkar Pinheiro, seu esposo e de Luis Felipe, seu filho. Uma aluna morrer antes do professor é tão doloroso como uma filha morrer antes do pai.

Referência

https://www.taquiprati.com.br/cronica/1132-a-mulher-nos-jornais-do-amazonas-quem-era-a-ia

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2 Comentário(s)

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Douglas Pôrto comentou:
09/02/2026
Apesar de grupos como os Jaras ou 'jarakids' seguirem alguma orientação de organização política ou social próxima daquilo que vivemos, sem dúvida alguma haveria, entre esses grupos, representações efetivas, legítimas e extremamente comprometidas com suas sociedades — e não pessoas oportunistas, representadas por processos espúrios ou interesses econômicos, como temos visto ao longo do tempo." PS. Um minuto de silêncio pelas perdas inestimáveis que temos, na luta pela produção de conhecimento científico, que nos retarda, machuca- os, mas deixa estímulo a continuar a caminhada por mundo mais justo e pleno para todos. Um abraço amazônico de condolências a todos nós, pois apesar de não ser pessoa próxima, não deixamos de sentir a perda dos que nos ajudam a melhorar diante das dificuldades da vida.
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Regina Nakamura comentou:
09/02/2026
Muuuiiitttooo interessante e lúcida essa crônica
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