Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Só contratemo quem num sabe nem chutá, / Parecemos muié de malandro,
Só sabemo é apanhá”. (Demônios da Garoa “Time Perna de Pau”. 1969)
Caboco, é fevereiro. E já dizia Jorge Ben Jor: em fevereiro, tem carnaval. Mais uma vez o Brasil respira em coro — uma pulsação coletiva que faz desconhecidos se reconhecerem no mesmo compasso. As ruas viram praça pública de emoções, o sério vira riso, o alto desce e o baixo sobe. O carnaval é esse espelho deformado que a sociedade segura diante de si mesma para enxergar, com ironia e purpurina, as próprias formas.
É o tempo da crítica fantasiada, da inversão simbólica, do “e se fosse o contrário?”. O pobre vira rei, o quieto vira cantor, o anônimo vira estandarte. E o conservador, bem… às vezes continua conservador — só que fantasiado de si mesmo, sem perceber a sátira.
Foi pensando nessa tradição carnavalesca de expor contradições com alegria que resolvi criar o mais novo bloco das ruas: Bloco do Túlio Maravilha — “O Gol Contra”, que desfila amanhã com o enredo: “Eu poso nu, mas minha filha não entra na pública”. Vai ter confete, serpentina e, claro, muito VAR.
♫ Cá estou eu, cá estou eu
Hoje a máscara cai — é na avenida ♫
Bloco 1: carnaval como linguagem social
No Brasil, o carnaval nunca é só festa. É tese de doutorado com glitter. É tratado sociológico com serpentina. Durante alguns dias, o país faz um experimento coletivo: relaxa as normas, solta o corpo e observa o que acontece quando a fantasia parece mais sincera do que certos discursos proferidos o ano inteiro.
A rua vira laboratório — e o laboratório não tem jaleco, tem abadá. O que é proibido vira piada; o que anda separado se mistura; o que era cochicho vira refrão. De repente, o chefe dança atrás do estagiário, o sisudo aprende a sambar e o guardião dos bons costumes descobre que a fantasia também tem memória.
Do ponto de vista sociológico (sim, caboco, porque até a farra tem teoria), o carnaval é um ritual de suspensão temporária da ordem cotidiana. A hierarquia não desaparece; ela fica fluorescente. Quando o anônimo vira protagonista e o rígido vira brincante, o que aparece não é o caos — é o teatro que sempre esteve ali, ensaiado com seriedade fora da avenida.
A antropologia chama esse momento de limiar: um intervalo entre o que se é e o que se pode ser. Eu prefiro chamar de “zona franca da performance”. Ali, identidades ficam porosas. O executivo vira pirata, a influencer vira passista, o moralista vira… bem, o moralista continua moralista, mas agora com glitter na testa — e microfone na mão.
E é aí que o carnaval ensina algo perigoso: pertencimento sem roteiro. Gente que nunca se viu canta junto, ri junto, transpira junto, o suor é coletivo. A multidão deixa de ser estatística e vira experiência compartilhada. É quase pedagógico — só que sem banca examinadora para validar discurso.
Tem também o corpo. Durante o ano, ele anda domesticado: horário, postura, produtividade. No carnaval, ele pede independência. Dança, ocupa a rua, atravessa o espaço público como se dissesse: “também sou linguagem”. O que não encontra palco vira refrão. E o que não resiste ao ritmo… desafina.
Porque o carnaval não é fuga da realidade; é comentário em voz alta. A sátira não esconde o mundo, ela sublinha. A fantasia não nega a sociedade, ela amplia seus traços até que a gente perceba onde o discurso termina e começa o personagem.
Mas há uma inversão que nem a purpurina consegue produzir sozinha: a da coerência. A festa permite experimentar papéis — não permite apagar biografias. A máscara pode cair às quatro da manhã; a memória coletiva, essa acorda cedo e costuma assistir ao replay.
Quando a bateria cresce, a pose perde o compasso. Quando o coletivo pulsa, o discurso isolado soa como microfone chiando. E é nessa fricção — entre o que se encena e o que se sustenta — que a avenida deixa de ser só palco e vira espelho.
E espelho, caboco, não inventa rosto. Só reflete.
Se o carnaval amplia traços e ilumina performances, então a pergunta deixa de ser teórica: o que acontece quando o personagem público entra em conflito com a narrativa moral que o sustenta? Quando a encenação já não acompanha o discurso?
A avenida não cria a contradição, apenas a destaca em carro alegórico. E é nesse momento que o argumento sai da abstração e ganha nome, microfone e histórico de gols.
É aqui que o enredo deixa a teoria e entra em campo.
♫ Cá estou eu, cá estou eu
Hoje a máscara cai — é na avenida ♫
Bloco 2: a arte de fazer gol contra
Túlio Maravilha sempre foi um homem de gols. Muitos gols. Tantos que, em certo momento, a matemática pediu ajuda do VAR. No campo, centroavante. Fora dele, personagem fixo do folclore brasileiro — desses que veem um microfone e já aquecem a panturrilha.
Houve a celebridade, a performance midiática, os episódios que alimentaram o folclore. Mas, entre todos os capítulos, um pesa de modo diferente no debate público: a polêmica envolvendo uma ex-jornalista da TV Globo, que veio a público relatar episódio controverso ligado ao jogador — um caso amplamente noticiado e discutido, com versões, repercussões e questionamentos sobre consentimento e responsabilidade.
Não se trata de reconstituir processos nem de substituir instâncias formais. Trata-se de observar o contraste entre discurso moralizante e controvérsia pública. Quando alguém se apresenta como guardião de valores rígidos, a régua social sobe. A cobrança não nasce do escândalo em si, mas da incoerência percebida entre a narrativa proclamada e os episódios que a tensionam.
Nesse contexto, episódios performáticos tornam-se secundários. O ponto central é outro: como se constrói autoridade moral no espaço público e o que acontece quando essa autoridade convive com controvérsias que pedem explicação, empatia e responsabilidade.
E então veio a nova polêmica: a decisão de não permitir que a filha ingresse em universidade pública, mesmo aprovada em instituições de peso como UFRJ e UERJ. As justificativas? Segurança, estrutura, “valores familiares” (e aqui ponho muitas aspas) — e pronto: o país inteiro em mesa-redonda educacional.
Quando olhamos os números, a conversa ganha outra textura. No ranking global Center for World University Rankings (CWUR) de 2025 — que considera pesquisa, impacto científico, citações e empregabilidade de egressos — a UFRJ aparece na 331ª posição; a UERJ, na faixa dos 870; já a FGV, privada mais bem colocada do país, figura por volta da 880. Ou seja: as duas públicas em questão superam, em indicadores internacionais, a melhor privada brasileira.
E há mais: a UFRJ, uma das instituições recusadas, é também o lugar onde a professora e pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio vem ganhando destaque internacional pelo desenvolvimento de um tratamento promissor para paraplegia — um exemplo concreto de como a universidade pública brasileira produz ciência de ponta, com impacto humano direto. Quando o debate se reduz a estereótipos, perde-se de vista esse tipo de realização.
Fico imaginando a cabine do VAR analisando a trajetória do nosso artilheiro:
— Controvérsia pública envolvendo ex-jornalista? Lance sob revisão prolongada.
— Discurso moralizante como identidade política? Linha traçada no telão.
— Decidir onde a filha vai estudar? Direito legítimo da família.
— Transformar a escolha em deslegitimação do sistema público? Bola desviada — gol contra.
O ponto não é a decisão privada — é sua conversão em argumento público contra o comum, enquanto pendem perguntas sobre coerência e responsabilidade no próprio campo do discurso.
♫ Cá estou eu, cá estou eu
Hoje a máscara cai — é na avenida ♫
Bloco 3: quando a avenida vira argumento
O carnaval, tantas vezes criticado nos bastidores, oferece uma lição que atravessa a avenida: identidades podem ser performadas, mas a realidade
cobra coerência. O trabalhador anônimo experimenta o anonimato criativo; o rígido aprende, por um instante, a fluidez. O intervalo não é fuga — é revelação.
Talvez por isso a festa seja mais do que pausa: é a própria sociedade se explicando com música, corpo e imaginação. E, ao final, quando a quarta-feira chega e os adereços voltam à gaveta, fica um resto de coragem compartilhada — a lembrança de que a ordem é construída e, portanto, pode ser repensada.
Minha posição é simples: sou, sim, a favor de que as “filhas de Túlios” espalhadas pelo país — famílias com recursos e discurso meritocrático afiado — estudem em universidades privadas. Que paguem suas mensalidades e deixem as vagas públicas para quem não tem alternativa. Praticado de verdade — e não só no palanque — isso pode produzir transformação social concreta.
Quanto ao Bloco do Túlio Maravilha, vai sair sim. Concentração no Largo da Hipocrisia, a partir das 17h. Porque, no Brasil, até a incoerência vira samba. E o samba, meu amigo, não perdoa. Deixo vocês com o nosso grito de guerra:
Não adianta fantasiar,
Gol contra vai pegar!
Não adianta discursar,
Que a avenida vai julgar!
Ô confete, ô serpentina,
Mostra a cara na esquina!
VAR chamou no telão —
É contradição! É contradição!
