CRÔNICAS

Manual para ler bula

Em: 25 de Maio de 1993 Visualizações: 694

O que é mais difícil digerir: uma pupunha mal cozida, “O Capital” de Karl Marx mal traduzido, o manual para preenchimento da declaração de imposto de renda ou uma bula de remédio?

A pupunha é uma fruta regional. Podia muito bem ser um palavrão, pronunciado por um gaguinho. Mas é uma fruta. Dura. Tem um nome próprio sonoro e ranheta: pu-pu-nha. Pessoas que não nasceram na Amazônia explodem em gargalhadas quando ouvem pela primeira a palavra. Dou razão a elas. Onde já se viu uma fruta com um nome que parece o pretérito imperfeito do indicativo de algum derivado do verbo pôr? Na Amazônia peruana, ela tem outro nome: pijuayo.

Comestível só quando cozida, a pupunha é, no entanto, mais fácil de digerir do que “O Capital”, de leitura trabalhosa e complexa. A prova é que não existe manual algum ensinando como comer pupunha.

Em compensação, existem dezenas de guias orientando a leitura de “O Capital”. O mais célebre deles é o que foi organizado em 1968 pelo filósofo francês Louis Althusser intitulado “Lire Le Capital”. Neste livro editado em português com o título “Para ler O Capital”, Althusser cozinha Marx em banho-maria, nos dá dicas e estabelece roteiro com algumas chaves para a compreensão da obra monumental e de seu  objeto de estudo.

Contudo, mais duro que a pupunha, “O Capital” e o Manual do Imposto de Renda é a bula de remédio. Isso ficou evidente para mim na semana passada. Atacado por uma úlcera, o médico José Messias me receitou dois remédios: Prepulsid e Losec.

Vide bula

Leitor voraz e compulsivo, decidi consultar as bulas para inteirar-me sobre o tipo de droga que estava tomando. Li e não entendi bulhufas. Considerando que outros hipocondríacos encontram semelhantes dificuldades, tive uma ideia luminosa: escrever um manual para ler bulas, que alfabetize os doentes desejosos de informação. Serei o Althusser manauara das bulas.

Logo de saída, duas precauções devem ser tomadas:

Em primeiro lugar, o leitor de bulas deve ter bem claro que, semelhante a um poema, romance ou conto, a bula é um gênero literário que tem uma estrutura própria, indicada pelos títulos dos “capítulos”. É preciso se apropriar de tal estrutura.

O capítulo sobre a Composição apresenta o nome científico da droga e suas substâncias químicas, bem como a forma farmacêutica: xarope, comprimido, cápsula, suspensão. Nas Indicações ficamos sabendo para que tipo de doença ele serve. As Propriedades mostram como o remédio atua no organismo. Nas Precauções e Advertências, o enfermo fica conscientizado das contraindicações, dos efeitos colaterais, das reações adversas e das interações medicamentosas. Por último, a Posologia indica a dosagem e o modo de usar.

Em segundo lugar, o leitor tem de compreender o psiquismo do escritor de bula que nunca – nunquinha – escolhe uma palavra de fácil compreensão, se pode arrotar outra difícil. Por que “modo de usar”, quando existe Posologia que vem do grego e é grego para os leigos?

Como a linguagem da bula é esotérica, faz-se necessário construir um método de leitura capaz de decodificar o que lá está escrito. Não adianta procurar o “Aurélio”, porque as palavras das bulas não são dicionarizáveis. E nem caberiam nos dicionários porque são quilométricas, mais longas do que “anticonstitucionalissimamente”.

Esfincter

O nosso modesto método tem a pretensão de superar este problema aplicando três regras básicas:

  1. Procure fixar-se no pouco que você entende, deixando de lado o que é incompreensível e obscuro.
  2. Vasculhe a sua memória e sua história de vida para ver se pesca no ar o significado de algumas palavras.
  3. Busque exemplos práticos e concretos da vida real, sobretudo no campo da política, para conseguir decifrar os enigmas das bulas.

Passemos a uma demonstração prática e didática. Tomemos o exemplo do Prepulsid, remédio composto de celulose microcristalina, polivinilpirrolidona, sílica coloidal amorfa, estearato de magnésio 20, metilparabeno, propilparabeno  e – ôpa! – aroma de cereja e água purificada. Portanto, se algum curioso lhe pergunta, você responde:

- Estou tomando um remédio à base de aroma de cereja e água purificada.

E para que serve o Prepulsid? Ora, é muito simples. Qualquer oligofrênico ou imbecil sabe que o Prepulsid, no que se refere à motilidade gastrintestinal, aumenta a atividade peristáltica do esôfago e o tônus do esfíncter inferior, prevendo assim o refluxo gastroesofágico e facilitando o conduto esofágico dos alimentos.

Sacou? Não? Aplique então a regra 2, recorrendo à memória. Esfíncter eu suspeito o que é graças ‘a tia Dedé que trabalhava na Secretária de Saúde no antigo prédio da Praça do Congresso. Quando a vovó Filó caiu doente, no fundo de uma rede e fazia xixi e cocô sem querer, ouvi tia Dedé falar a minha mãe, em tom grave e baixando a voz:

- Tadinha da dona Filomena! Perdeu o controle dos esfíncteres anal e pilórico.

Taí, os esfíncteres são músculos que, no caso do anal, controlam o grau de amplitude do orifício e, portanto, do trânsito do cocô e do xixi, seja contraindo-se, seja relaxando-se. Embora no fiofó do outro seja refresco, a pimenta murupi contrai o músculo. Já o mamão, relaxa. Saquei, portanto, que o Prepulsid é – digamos assim – uma mistura de mamão com pimenta, que deixa os esfíncteres pisca-piscando.

Muito bem, vamos agora ao capítulo que mais interessa a nós, hipocondríacos: quais são os efeitos colaterais e as reações adversas do Prepulsid?

Borborigmo

Não quero assustar os raros e incautos leitores, mas tenho que dizer que como consequência da aceleração do peristaltismo gastrintestinal, durante o tratamento da úlcera, pode ocorrer um mundo de coisas pavorosas: cólicas abdominais, borborigmo, obstipação, diarreia, cefaleia, convulsões e reações extrapiramidais. Por isso, mulher grávida não pode tomar Prepulsid, nem durante o período de lactação, devendo-se evitar seu uso com neonatos prematuros. Estamos entendidos?

A vida de cada um depende disso. Este capítulo, indubitavelmente, exige uma tradução séria, aplicando as três regras anteriormente aqui enunciadas.

Peristaltismo, como nos ensinou o mestre Vicente Schetini no Colégio de Aparecida, está relacionado aos esfíncteres da tia Dedé, digo, já definidos pela tia Dedé, que botam pra fora o conteúdo de fezes e urina. Ora, se o movimento peristáltico se acelera, o que pode ocorrer? Cólicas abdominais. Cólica é cólica. Abdome é aquela parte do corpo situada entre o tórax e a bacia, que contém numerosos órgãos como os digestivos e os urinários. Trata-se de uma dor intensa no abdome, sentida antes mesmo de tomar o remédio, só por influência da leitura da bula.

Aquele que conseguir evitar as cólicas, do borborigmo não escapa. Ao contrário do que o nome indica, borborigmo não é gargarejo. É aquele barulho, aquele rugido produzido no abdome pelo deslocamento de gases em meio de líquidos do tubo gastrointestinal, som noturno e muito familiar para quem viaja em barco-recreio, dormindo em rede, uma embaixo da outra.

Desculpem a vulgaridade da definição, mas a clareza exige: borborigmo é uma espécie de peido que perdeu o passaporte e não pode viajar. De protesto, ele fica fazendo glu-glu-glu borborigmando na barriga da gente. Ataca com muita frequência os prefeitos de Coari, sobretudo na época da Festa da Banana.

O Prepulsid pode causar também obstipação e diarreia. Obstipação é o que o Poder Judiciário do Amazonas fez com o processo do Manoel Ribeiro: trancou e demorou a sair. Na linguagem corrente é uma reles e mixuruca prisão de ventre. E a diarreia, bem, diarreia todo mundo sabe o que é: aquilo que o Amazonino está fazendo na Prefeitura de Manaus.

A bula é mais ameaçadora ainda. O Prepulsid pode causar cefaleia, que é aquela dor de cabeça que os vereadores Praciano e Jeferson Peres produziram nos seus colegas ressarcidos de Manaus, ao impedirem que continuem embolsando milhões de cruzeiros diz-que para tratamento médico.

Extrapiramidal

Finalmente as reações extrapiramidais e a lactação. Lactação é aquilo que Robério Braga, Leonel Feitosa e Lurdes Lopes estavam fazendo nas tetas da Câmara Municipal. E reações extrapiramidais são os sintomas apresentados pelo Omar Aziz toda vez que vai dirigir uma sessão da Câmara e aparece “de surpresa” uma manifestação de estudantes secundaristas.

Reação piramidal já é phoda. Extrapiramidal, nem falar, deixa em pandarecos o sistema nervoso central. Neguinho começa a fazer movimentos involuntários, sem pensar, com espasmos dos músculos da cabeça, podendo ter torcicolo, olho revirado, língua pra fora se mexendo e por ai vai.  

Espero sinceramente que o método aqui desenvolvido seja útil aos leitores no momento de ler uma bula. Ou será que enfrentarei os mesmos problemas de Althusser? Segundo o cineasta Jean-Luc Godard, o texto de Althusser escrito para facilitar a leitura de Marx acabou sendo tão hermético quanto “O Capital”. Por isso, um sindicalista, personagem de Godard, aparece em um de seus filmes lendo um terceiro livro intitulado: “Como ler o livro de Althusser Para Ler o Capital”. É um manual para orientar a leitura de outro manual.

Sabe de uma coisa? Já que toda bula tem algo de burla, é melhor chamar o deputado Antônio Cordeiro e encarrega-lo de redigir, daqui pra frente, todas as bulas de remédio. Assim, a fuleragem impera, mas pelo menos a gente entende.

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