CRÔNICAS

Tem índio no Rio, Ana Paula da Silva? Tem sim

Tem índio no Rio, Ana Paula da Silva? Tem sim

Dona Carmem, que trabalhou como empregada doméstica e seu José, como boia-fria, estavam lá na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), sentados discretamente no fundo da sala do Curso de Pós Graduação em Memória Social (PPGMS). Foram assistir ao ritual da defesa de tese de doutorado da filha Ana Paula da Silva em 2016. A presença dos dois foi destacada pelo presidente da banca, seu orientador, arrancando do casal um sorriso inicialmente tímido, mas depois vitorioso. A filha saiu de lá doutora, aprovada com menção de louvor e recomendação para publicação. 

O livro O Rio de Janeiro continua índio: território do protagonismo e da diplomacia indígena no século XIX vai ser lançado na próxima quinta-feira (12 de novembro) às 10h00 no auditório do Arquivo Nacional, que celebra 140 anos de produção editorial e 40 anos da revista Acervo. A tese ganhou a medalha de prata na 17ª edição do Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, em 2023, que foi o mais concorrido de todos com mais de 50 inscrições.

Foi com essas palavras que iniciei a apresentação do livro, citando a mãe e o pai da autora. A academia não costuma abrir espaço para esse tipo de abordagem e privilegia - o que é compreensível e até recomendável – os aspectos teóricos e metodológicos da pesquisa, os problemas formulados e as hipóteses. Em se tratando de uma tese no campo da história, abre espaço ainda para uma reflexão sobre as fontes. Mas isso não impede de fazer esse registro familiar.

E isto porque dona Carmem da Silva e seu José contribuíram decisivamente não apenas com o apoio logístico e afetivo, mas participaram indiretamente, com suas histórias de vida, na escolha do tema, que parte da perspectiva dos excluídos “do ponto de vista do soldado raso e não do comandante”. Aliás, pai e mãe percorreram trajetória similar a de outro Silva, pernambucano de Caetés, então distrito de Garanhuns, que perdeu um dedo aos 17 anos, trabalhando nas madrugadas em uma fábrica em São Paulo.

Os Silva

Os avós maternos de Ana Paula da Silva, pai e mãe de dona Carmem Lúcia da Silva, nascida em 1954 em Machado, também em Pernambuco, eram trabalhadores do campo, que migraram como “pau-de-arara” para Recife, onde ela e suas irmãs trabalharam como domésticas. Lá, dona Carmen conheceu José Laurentino da Silva, nascido em 1943, e que havia perdido o pai ainda bebê. Único filho homem entre tantas mulheres, começou a trabalhar cedo, desde os 8 anos para ajudar sua mãe, descendente de escravizados, que trabalhou como lavadeira para criar a filharada.

O casal migrou para o Rio e foi residir no município de Seropédica, onde fica o campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRRJ). Lá, Ana Paula se graduou e licenciou em História, enquanto seu José trabalhava como metalúrgico. Mais um Silva metalúrgico. Antes de entrar no mérito do livro, cabe aqui algumas palavras sobre a professora e historiadora Ana Paula, pós-doutoranda da Cátedra Oswaldo Cruz (UNESCO/COC – FIOCRUZ).  

Ela obteve o título de mestre, em 2011, no PPGMS da Unirio, com a dissertação “Narradores Tupinambá e Etnosaberes nas crônicas francesas do Rio de Janeiro (1555-78) e do Maranhão (1612-14)”. Durante o doutorado, conquistou uma bolsa de estudos e realizou estágio-docência nas disciplinas Antropologia na Unirio e Educação Indígena na Uerj. Compartilhou os saberes produzidos em suas pesquisas com os Guarani como professora do curso de Educação de Jovens e Adultos e do Curso de Formação de Agentes Indígenas de Saúde e Saneamento.

Nessa atividade, atuou no Programa Observatório da Educação Escolar Indígena (OEEI-CAPES) e como pesquisadora no projeto “Indígenas nas periferias: direitos e condições de vida na Região Metropolitana do Rio de Janeiro”, com o objetivo de fornecer subsídios para a elaboração de políticas públicas destinadas aos indígenas e para consolidar o Observatório de Presença Indígena no Rio de Janeiro (OPIERJ) – uma plataforma digital criada pelo Programa de Estudos dos Povos Indígenas (PROINDÍGENA) da Uerj.

A autora teve ainda participação decisiva em três outros projetos:   Laboratório de Pesquisas em Oralidade – Memória Social (LABORAL) do PPGMS/UNIRIO; Saberes Indígenas na Escola (SIE) coordenado pela UFMG com a participação de sete universidades e A Imagem do Índio na Escola: os Índios no Rio de Janeiro.

Sigilo, sigilo

Cada conhecimento novo produzido por Ana Paula era imediatamente compartilhado com professores guarani e outros da rede pública de ensino. A tese premiada, agora livro, ampliará sem dúvida alguma o seu raio de ação, especialmente, mas não exclusivamente, entre os indígenas em contexto urbano. A autora, à época professora de História no Departamento de História e Relações Internacionais da UFRRJ, é também pesquisadora associada do Programa de Estudos dos Povos Indígenas da UERJ. Sua pesquisa busca responder a pergunta, atualizando-a com uma perspectiva histórica: Afinal, tem índio no Rio?

Antes de comentar a pesquisa de Ana Paula, peço licença para abrir aqui um parêntese e narrar um episódio insólito, que dá uma resposta a essa pergunta usando uma via um tanto quanto tortuosa, mas com forte carga simbólica.

Aconteceu no final de uma tarde de verão, em 1995 ou 1996. Duas bolsistas me acompanhavam na sala do Programa de Estudo dos Povos Indígenas da UERJ: Andréa Moraes e Márcia Malheiros. Estávamos organizando o Guia de Fontes para a História Indigena e do Indigenismo com documentação encontrada em arquivos do Rio de Janeiro. Tocaram a porta. Abrimos. Uma senhora bonita, bem vestida, aparentando 40 anos, pediu para falar conosco. Seus olhos arregalados e a pupila dilatada se moviam de um lado ao outro, parecia muito assustada, em estado de vigilância constante. 

- Sigilo, sigilo – dizia, erguendo o dedo indicador na boca fechada. 

As duas alunas e eu nos olhávamos sem entender. Ela anunciou:

- O Rio de Janeiro está cheio de índios, mas ninguém pode saber, porque podem matá-los. Eles vivem escondidos. Só saem de madrugada por um buraco do metrô. Sigilo... sigilo.

A senhora nos mostrou algumas fotos de empregadas domésticas saindo cedinho do metrô e entrando em ônibus:

- São todas índias, mas... sigilo, sigilo. Só digo pra vocês porque assisti uma palestra sua, professor, e decidi vir aqui dizer que os índios não estão apenas nos documentos mencionados, eles estão vivos, em carne e osso. Mas... sigilo...sigilo.

Guardamos sigilo, é claro. Na semana seguinte, ela voltou a nos procurar para se desculpar por aquele dia em que havia tomado medicamento controlado, o que lhe causara danos cognitivos. No entanto, de forma mais serena, voltou a reafirmar a presença indígena no Rio. Por vias tortuosas, denunciou o apagamento dos indígenas, invisíveis para a maioria da população contaminada pela colonialidade, que teimava em não querer vê-los. Por enquanto, vamos manter o sigilo. Fecho o parêntese.

Caboclas e caboclos

A autora dessa – digamos assim – metáfora, certamente saberá apreciar a tese da Ana Paula, que mergulhou fundo nos arquivos, entre os quais o Arquivo Nacional, o Arquivo da Marinha, o Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Museu da Justiça. Comprovou, com análise e cruzamento de documentos, uma de suas hipóteses de que as cidades, que foram erguidas em território indígena e expulsaram seus moradores originários, muitos dos quais foram exterminados, na realidade sempre contaram com a presença teimosa e resistente de representantes de diferentes etnias. Sim, sempre teve e continua tendo índio no Rio:

- Então a atual presença indígena nos espaços urbanos existe desde sempre – escreve Ana Paula.

Para analisar esta presença na atualidade, a autora recorre aos últimos censos do IBGE e trata com cuidado, rigor e olhar crítico os censos provinciais realizados no séc. XIX, através de registros paroquiais e dos relatórios ministeriais do Império, que contém mapas estatísticos com o número de aldeias e de “índios domesticados e nômades”. Ela discute os arrolamentos censitários e sinaliza a forma como foi criado e montado um discurso poderoso de apagamento dos povos indígenas no Rio de Janeiro.

A partir daí, a autora aborda as diferentes estratégias desses “estrangeiros em sua própria terra de origem”, que passaram a ser tratados na documentação oficial como “caboclos”, uma forma de apagar a identidade étnica. Eles formaram novas lideranças indígenas para sobreviver nas cidades, espaços de violência e de vulnerabilidades controlados pelas elites formada por homens brancos, que foram particularmente violentos com as mulheres indígenas e negras, como sinaliza a arquiteta Joice Berth, autora de “Se a cidade fosse nossa”. Os exemplos abundam, entre eles o da índígena Maria Caetana, estuprada na cidade do Rio de Janeiro no séc. XIX.

Neste livro, a pesquisadora dedica ainda espaço para abordar a exploração da força de trabalho indígena no meio urbano, com o deslocamento para a Corte de muitos deles provenientes de todas as regiões do Brasil. A documentação encontrada se refere a empregadas domésticas em casas particulares, remadores no Arsenal da Marinha, operários nos estaleiros navais, pescadores na pesca de baleias, recrutas das Forças Armadas, jornaleiros em obras públicas como ocorreu na construção dos Arcos da Lapa feita toda ela com trabalho indígena.  

Diplomatas

A resistência também não podia ficar de fora. Muitos deles desertavam e se rebelavam, outros cometiam pequenos delitos e eram presos, punidos e penalizados pela Polícia da Corte.  Uns foram precursores dos moradores de rua, outros do Acampamento Terra Livre, quando se deslocavam para a capital do Brasil – centro de poder – para reivindicar seus direitos na defesa de seus territórios. Um capítulo é dedicado à Diplomacia Indígena, com o registro das audiências reais e a presença desses “diplomatas” na Corte, destacando a visão que tinham sobre a história.

A importância da memória e da história desses indígenas para a história do Brasil é ainda maior, quando sabemos que a colonialidade tentou silenciar e invisibilizar o seu protagonismo em narrativas, que circularam e ainda circulam nas escolas, com apagamento inclusive da presença deles hoje na capital fluminense. Tem índio no Rio? A documentação trabalhada por Ana Paula assim como o resultado dos últimos censos não deixa lugar a dúvidas.

Por último, convém destacar os anexos e as ilustrações, que reforçam o texto e convidam novos pesquisadores a se debruçarem sobre o tema. Além dos teóricos que contribuíram com as ferramentas conceituais  usadas pela a autora, ela dialoga com os pesquisadores que produziram reflexões sobre a história indígena e que constam nas referências bibliográficas, cabendo mencionar aqui, entre outros, Manuela Carneiro da Cunha, John Monteiro, Tonico Benites, Marta Amoroso, Marta Azevedo, Ivana Stolze, Regina Celestino, Juciene Ricarte, Izabel Missagia, Vânia Moreira, Marco Morel, Ronald Raminelli, Ondemar Dias, Stephen Baines, Sidney Chaloub, Silvana Achar, Marcelo Lemos. Agora, Ana Paula se junta a todos eles como referência aos estudiosos da história indígena.

A autora recebeu o Prêmio do Arquivo Nacional, mas premiados somos nós, também, seus leitores, que com este livro podemos aprofundar nossa visão sobre a presença indígena no Rio de Janeiro e desconstruir a versão que escola, museus, mídia e outros aparelhos ideológicos de Estado nos legaram. Devemos isso ao seu trabalho de pesquisadora, que foi possível graças aos esforços e aos estímulos de dona Carmem e seu José, sem os quais essa tese não seria possível. Viva dona Carmen da Silva, seu José da Silva e todos os que fizeram o L no Brasil e em outros países.  

Seu José não está mais fisicamente entre nós, mas Dona Carmen o representará no lançamento do livro, quando o público poderá adquirir a publicação e ainda receber exemplares distribuídos gratuitamente pelo Arquivo Nacional.

O livro de Ana Paula tem ainda qualidade literária, o que torna a leitura prazerosa. Não precisamos mais guardar sigilo, sigilo. Depois de sua leitura podemos gritar a plenos pulmões: O RIO DE JANEIRO CONTINUA ÍNDIO.

Referências:

1.Ana Paula da Silva. "O Rio de Janeiro continua índio: território do protagonismo e da diplomacia indígena no século XIX", Rio. Arquivo Nacional. 2026. (Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa. Tese de doutorado no PPGMS da UNIRIO. Banca: José R. Bessa Freire (orientador), Isabel Missagia (UFRRJ), Marcos Albuquerque (UERJ), Amir Geiger e Sofia Débora Levy (UNIRIO).

2. Taquiprati. O Rio de Janeiro continua índio. Diário do Amazonas. Manaus. 01/03/2015. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1131-o-rio-de-janeiro-continua-indio 

3.Taquiprati.Os índios e a queda da Bastilha. Diário do Amazonas. Manaus. 28/02/2026. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1254-os-indios-e-a-queda-da-bastilha-en-espa%C3%B1ol

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6 Comentário(s)

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Fernanda Camargo comentou:
07/11/2026
Que beleza, Bessa!, em boa hora, um livro da Ana. Irei lá no lançamento.
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Ilza Cutrim (UFMA) comentou:
07/11/2026
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Ione Couto comentou:
07/11/2026
Seu texto é sempre bom.
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André Ramos (FUNAI) comentou:
07/11/2026
Oi Bessa, valeu essa dica ! deve ser uma obra deliciosa. Quero ler !
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Ademario Ribeiro Payayá comentou:
07/11/2026
Sem sigilo! Sem sigilo, grito a plenos pulmões que fiz o L porque só com democracia podemos ter liberdade e aportes para pesquisas como essa anunciada aqui no Taquiprati - que salienta a dedicação e profundidade com que a estimada Ana Paula da Silva buscou arquivos e investigou documentações! Materializar sua tese e oportunizar sua publicação logo depois da Vitória retumbante do outro Silva, de Caetés - é um presente plácido para o "Rio de Janeiro que continua nosso índio" e que, por certo revigora nosso caminhar por um povo impávido ante as trevas do mal. Xô! Xô! Xô! Trevas! Que venham os e as Silva!!!
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Rodrigo comentou:
07/11/2026
Parabéns, Ana! Fico muito feliz por você! Te desejo sucesso sempre! Bjs
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