Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Caminhando e cantando / E seguindo a canção / Somos todos iguais / Braços dados ou não” (Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré)
Sabe, Caboco, minha tia Dile talvez nem imagine o quanto sua esperança tem a ver com o destino deste país. Como ela, milhões de brasileiros acompanharam uma eleição que parecia caminhar para um desfecho incerto e descobriram, mais uma vez, que o futuro não está escrito. A vitória de Lula mostrou que é possível reverter expectativas, enfrentar o poder das grandes plataformas digitais com um exército que usa as armas apropriadas surpreendendo quem já dava o jogo por decidido e já havia até escolhido seus ministros. Mas ganhar a eleição é apenas parte da história. A outra começa agora: cobrar promessas, defender a democracia e não deixar que a esperança termine junto com a apuração dos votos.
Por isso, hoje é dia de dar os parabéns. Aos meus leitores, aos brasileiros que foram às urnas, aos que participaram do debate público, aos que fizeram campanha, aos que discordaram sem transformar o adversário em inimigo e, principalmente, a quem continua acreditando que a democracia vale a pena. Nesse domingo, 25 de outubro de 2026, o Brasil mostrou que o jogo só acaba quando termina. E que pesquisa, palpite, profecia de rede social e conversa de grupo de família não substituem o voto contado.
Lula foi reeleito presidente da República. Não foi uma vitória por aclamação, dessas em que todo mundo sai da praça cantando a mesma música. Foi uma disputa apertada, com milhões de brasileiros escolhendo caminhos diferentes para o país. O resultado oficial deu a Lula 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, mais de 124 milhões válidos e uma diferença superior a 4,4 milhões de votos separaram os dois candidatos. É muita gente de um lado e muita gente do outro. O Brasil continua sendo um país dividido, e seria uma imprudência confundir vitória eleitoral com reconciliação nacional.
Mas há uma notícia importante nessa história: é possível reverter um quadro desfavorável. É possível reorganizar forças, corrigir a rota, encontrar novas formas de conversar com a sociedade e chegar ao dia da eleição sem aceitar como destino aquilo que, até a véspera, parecia inevitável. Hoje, digo isso também a mim mesmo: até ontem eu estava com o fiofó que não passava nem pensamento assoprado.
A política tem dessas coisas, Caboco. Tem gente que, como eu, às vezes olha a fotografia e acha que está vendo o filme inteiro. Só esquece que fotografia não mostra movimento. E eleição, como a vida, não é fotografia: é filme, com roteiro, improviso, figurante que vira protagonista e protagonista que tropeça no próprio discurso.
A internet não vota sozinha
Uma das lições desta eleição foi a importância das redes sociais. Durante muito tempo, parte da esquerda pareceu acreditar que bastava ter razão nos argumentos, bons programas de governo e militância disposta a distribuir panfleto impresso na esquina, os famosos “santinhos”, que já não operam mais milagres. Enquanto isso, os adversários aprenderam a dominar vídeos curtos, mensagens instantâneas, grupos de WhatsApp e a linguagem de uma internet que não espera ninguém terminar a palestra. Às vezes, não espera nem começar.
A política descobriu que, no mundo digital, uma ideia pode atravessar o país antes que o autor consiga encontrar o botão de publicar. E descobriu também que a mentira, quando pega carona no medo, costuma viajar de primeira classe.
Na reta final, a mobilização digital em torno de Lula ganhou força, com participação de militantes, influenciadores e redes de apoiadores. O chamado Exército do Lula, organizado pelo deputado André Janones no WhatsApp, tornou-se uma das expressões mais visíveis desse esforço. A campanha também apostou em vídeos mais diretos e em uma comunicação menos engessada. Não foi apenas uma questão de tecnologia: foi uma disputa por atenção, linguagem e presença.
Há, ainda, uma dimensão dessa vitória que merece ser destacada: a disputa com as grandes empresas de tecnologia, as chamadas big techs. Num mundo em que algoritmos decidem o que ganha visibilidade, plataformas concentram poder sobre a circulação de informações e conteúdos políticos disputam espaço com a desinformação, o Brasil mostrou que esse poder não é absoluto.
A vitória eleitoral não significa que as big techs foram derrotadas ou que deixaram de influenciar o debate público. Significa, porém, que sua força não determina sozinha o resultado das urnas. O Brasil deu ao mundo uma demonstração de que é possível disputar esse terreno, mobilizar pessoas e enfrentar estruturas digitais poderosas. Afinal, até os algoritmos podem descobrir que não têm a última palavra: quem vota é gente, não código de programação.
Mas a internet não vota sozinha. O eleitor continua tendo corpo, endereço, trabalho, família, conta de luz e uma vida que não cabe numa tela de celular. Por isso, tão importante quanto reencontrar o caminho das redes é reencontrar o caminho das ruas.
É na rua que a política encontra quem não segue influenciador, quem não participa de grupo de WhatsApp e quem não tem tempo para assistir a dez vídeos sobre a mesma disputa. É na conversa olho no olho, no sindicato, na universidade, na igreja, no bairro, na feira e na porta de casa que a democracia deixa de ser uma guerra de publicações e volta a ser uma experiência coletiva.
A esquerda aprendeu, nesta eleição, que não pode abandonar nenhum desses espaços. Não basta falar para os convencidos, comemorar o engajamento e chamar isso de diálogo com o povo. Rede sem rua vira bolha; rua sem rede pode perder alcance. A tarefa é fazer as duas conversarem.
Urna não é um brinquedo
Há, entretanto, uma questão que não pode passar despercebida. Em 2022, Jair Bolsonaro contestou o resultado eleitoral e seu partido pediu a anulação de votos de urnas eletrônicas, sem apresentar evidências de fraude que sustentassem a alegação. Agora, em 2026, seu filhote Flávio anunciou que não reconheceria o resultado e que pediria a anulação da eleição, questionando a decisão que prorrogou o horário de votação em locais que ainda estavam abertos. Tal pai, peixinho é.
Caboco, a família Bolsonaro parece ter dificuldade com uma regra elementar da democracia: a urna não é um brinquedo que a gente leva para casa quando ganha e devolve quando perde.
Há uma ironia adicional nesse episódio. A campanha de Flávio também havia solicitado a ampliação do horário de votação diante das dificuldades enfrentadas por eleitores em algumas localidades. Depois, a decisão que autorizou a extensão tornou-se um dos argumentos usados para contestar o resultado. A sequência merece ser examinada com atenção, sem dispensar o debate jurídico sobre os procedimentos adotados.
É legítimo questionar decisões da Justiça Eleitoral pelos meios legais. Democracia não exige silêncio diante de dúvidas; exige que as dúvidas sejam apresentadas, examinadas e respondidas com provas. O que não se pode fazer é transformar a própria derrota em prova de fraude.
Se cada candidato puder declarar ilegítimo o resultado que não lhe agrada, a eleição deixa de ser uma escolha coletiva e vira um concurso de aceitação pessoal. Nesse modelo, o vencedor não é quem recebe mais votos: é quem grita mais alto, reúne mais seguidores ou consegue pressionar mais as instituições.
E isso não é democracia. É uma espécie de campeonato em que o perdedor exige que o juiz mude o placar porque não gostou do segundo tempo.
A vitória eleitoral não pertence exclusivamente a Lula, ao PT ou a quem fez campanha por ele. Pertence ao resultado produzido pelas regras democráticas. Defender esse resultado não significa concordar com todas as decisões do governo eleito. Significa reconhecer que a disputa tem regras e que ninguém está acima delas.
Agora é preciso governar
A eleição terminou, mas a cobrança começa agora. E aqui é preciso separar esperança de cheque em branco.
Espero que Lula faça um bom governo, mas isso não depende apenas de ter vencido a eleição. Depende de transformar compromissos em políticas públicas, enfrentar problemas concretos e demonstrar que compreendeu as razões pelas quais milhões de brasileiros escolheram outro projeto.
O Congresso que começa uma nova legislatura em 2027 terá forte presença da direita e de partidos de centro. Negociar será inevitável. O problema não é negociar: numa democracia representativa, negociar faz parte do trabalho. O problema é quando a negociação deixa de ser instrumento para governar e passa a ser o próprio programa de governo.
O Centrão conhece bem o valor de uma cadeira, de uma emenda e de um ministério. Não é de hoje que esse mercado de apoios funciona com uma tabela própria, na qual o preço político nem sempre aparece na etiqueta. Lula precisará construir maiorias, mas não deveria confundir governabilidade com a obrigação de atender a toda demanda de quem tem votos no Congresso.
A conta dessa acomodação, quando excessiva, costuma chegar ao cidadão que espera atendimento no SUS, ao trabalhador que procura proteção, ao jovem que precisa de educação e a quem depende de serviços públicos que funcionem.
E há compromissos antigos que continuam na fila. Na campanha de 2022, Lula prometeu uma nova legislação trabalhista, com ampliação da proteção a trabalhadores que ficaram à margem das garantias tradicionais, incluindo os trabalhadores por aplicativos e os autônomos. A reformulação ampla anunciada não foi concluída nos termos prometidos. O assunto não pode desaparecer porque chegou uma nova eleição, nem porque a pauta do Congresso ficou difícil.
Promessa de campanha não é enfeite de palanque. É compromisso público. O eleitor não precisa esperar quatro anos para perguntar onde foi parar aquilo que ouviu. E o governo não pode responder eternamente que a culpa é do Congresso, da oposição, da conjuntura internacional ou da posição dos planetas.
Um governo tem limites, evidentemente. Mas precisa explicar o que conseguiu fazer, o que não conseguiu e por quê. Precisa apresentar resultados, reconhecer erros e corrigir rumos. A reeleição não encerra a prestação de contas; renova a obrigação de prestar contas.
Quem vem depois?
Outra questão começa a rondar a política brasileira: quem poderá ocupar o espaço de Lula e quem herdará a liderança do bolsonarismo?
No campo bolsonarista, Flávio Bolsonaro (PL) saiu da eleição com uma votação expressiva, embora derrotado. Isso lhe dá presença no debate político, mas não resolve automaticamente as disputas internas da direita. Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo, também aparece como um nome relevante nesse campo, embora sua trajetória política não se confunda inteiramente com o bolsonarismo. Nikolas Ferreira (PL), deputado federal por Minas Gerais conhecido como Chupetinha, representa outra liderança de projeção nacional, com forte presença nas redes sociais e capacidade de mobilização do eleitorado conservador. Renan Santos, ligado ao MBL e ao partido Missão, representa outra vertente, com discurso próprio e aposta na organização política. Pablo Marçal construiu uma marca digital de alcance nacional, embora sua situação jurídica e eleitoral seja um obstáculo que precisa ser considerado. Nenhum desses nomes, por si só, representa todo o campo conservador.
No campo da esquerda, a questão também não se resolve com a simples indicação de um herdeiro. Geraldo Alckmin, com sua experiência política e atuação como vice-presidente, e Fernando Haddad, com sua trajetória no governo federal e em São Paulo, são nomes que também podem entrar nessa discussão sobre a sucessão política. Guilherme Boulos, com sua atuação nos movimentos sociais e sua trajetória parlamentar, é outro nome presente nesse debate. André Janones mostrou capacidade de mobilização digital. Jones Manoel traz uma voz socialista com presença no debate público. Ana Elisa e Erika Hilton representam trajetórias distintas de renovação política e comunicação com públicos amplos. São nomes que podem participar da disputa por espaço e influência, mas a existência de visibilidade não equivale à construção de uma liderança nacional consolidada.
A sucessão de Lula será uma questão particularmente importante porque, em 2030, ele não estará novamente na disputa presidencial. O lulismo terá de demonstrar que consegue ir além da figura de seu principal líder, construir uma geração de representantes e formular um projeto que não dependa exclusivamente da memória dos governos anteriores.
O bolsonarismo enfrenta um desafio diferente, mas igualmente concreto: transformar uma liderança familiar e um movimento de forte identificação pessoal em uma organização capaz de sobreviver a conflitos internos, derrotas e mudanças de conjuntura.
Nos dois campos, a pergunta é semelhante: haverá projeto, organização e formação de novas lideranças ou apenas uma fila de pessoas esperando a vez de herdar o microfone?
A democracia precisa de renovação. E renovação não é apenas trocar o nome no cartaz. É renovar ideias, práticas, compromissos e a maneira de tratar quem pensa diferente.
Esperar não é saber
Caboco, no fim das contas, é por gente como minha tia Dile que essa conversa importa. A política pode parecer uma disputa distante, feita de discursos, pesquisas, algoritmos, acordos de bastidores e brigas pelo poder. Mas suas consequências chegam à mesa de casa, ao preço da comida e do combustível, ao posto de saúde, à escola, ao trabalho e à esperança de quem deseja um país um pouco mais justo.
A vitória de Lula merece ser comemorada por quem apostou nesse projeto. Mas a comemoração não pode virar cheque em branco. É preciso cobrar, fiscalizar, reconhecer os erros e continuar lutando. Que o governo cumpra seus compromissos, que a oposição respeite as regras democráticas e que a sociedade não entregue seu destino a nenhum salvador da pátria.
A eleição de 2030 já começa a ser construída nas escolhas que fazemos hoje. Até lá, haverá disputas, decepções, promessas e, provavelmente, algumas boas razões para perder o sono. Mas também haverá a possibilidade de mudar o rumo das coisas.
E é por isso que volto à esperança da tia Dile. Não porque acreditar seja suficiente, mas porque desistir torna tudo mais fácil para quem prefere que nada mude.
Ninguém precisa pensar igual, votar no mesmo candidato ou concordar em tudo para compreender que o destino do país é responsabilidade de todos nós.
E, para 2030, fica o recado que vale para todos os dias até lá: ninguém deve largar a mão de ninguém.