Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.” (Darcy Ribeiro)
Quem será o titular do Ministério da Prosperidade (MINIPROS) que Flávio Bolsonaro (PL – vixe, vixe!) prometeu criar em caso de vitória? Onde será sua sede? Com quantos funcionários contará? A rachadinha será institucionalizada oficialmente? O candidato guarda o segredo a sete chaves, mas nos bastidores descobrimos que existem três modelos com três nomes disputando os cargos de ministro. Faz-se necessário um preâmbulo esclarecedor sobre a penúria que o Ministério pretende combater, antes de dar tais informações.
Caboco, a pobreza tem muitas histórias, mas nenhuma delas cabe inteira numa estatística. Às vezes, ela tem o rosto de alguém da nossa família, de um parente que conheceu desde cedo as dificuldades da vida e aprendeu que conseguir o necessário já era uma vitória. Lembro da tia Dile e penso em sua infância pobre. Quando a gente olha para trajetórias assim, entende que prosperidade não é luxo nem palavra de efeito: é a possibilidade de viver com dignidade, sem que cada necessidade se transforme numa preocupação.
Milhões de brasileiros conhecem essa realidade. Trabalham, lutam, criam os filhos e fazem malabarismos com o orçamento para chegar ao fim do mês. Não precisam que ninguém lhes ensine a desejar uma vida melhor. Precisam de condições para construí-la.
Foi pensando nisso que me chamou a atenção a proposta do Flávio Bolsonaro em criar o tal Ministério da Prosperidade. Confesso que achei a ideia instigante. Afinal, num país com tantos problemas concretos, criar um ministério para cuidar da prosperidade abre um mundo de possibilidades — inclusive para a ironia.
Só mesmo um gênio conceberia tal proposta. Como foi que ninguém teve essa ideia antes? Em vez de perder tempo discutindo salário, desemprego, desigualdade, educação, saúde e saneamento, basta criar um ministério com um nome capaz de fazer até o sujeito que está devendo três meses de aluguel se sentir um milionário em potencial.
Porque uma coisa é certa: o brasileiro não precisa necessariamente de dinheiro no bolso. Precisa, antes de tudo, acreditar que o dinheiro está a caminho. Se não chegar, paciência. O importante é manter o pensamento positivo e não deixar que a realidade atrapalhe o planejamento estratégico.
O ministério
Um ministério tão importante não poderia funcionar num prédio qualquer. Precisaria de uma sede à altura de sua missão, de preferência num edifício espelhado, com auditório climatizado, elevadores inteligentes e uma placa dourada na entrada. Afinal, não seria razoável falar de prosperidade num lugar com infiltração no teto, lâmpadas queimadas e cafezinho servido em copo de plástico. A simbologia também faz parte da política pública.
A localização ideal seria Brasília, naturalmente, perto do Palácio do Planalto e a uma distância segura da realidade. De lá, o ministro poderia acompanhar a prosperidade dos brasileiros por meio de relatórios, gráficos coloridos e reuniões de planejamento estratégico. Não precisaria visitar periferias, feiras populares ou conjuntos habitacionais. Para isso, bastaria contratar uma consultoria especializada. Quem sabe a “Credito & Mercado” - sucessora da Plena Consultoria - alvo de investigações sobre fraudes e pagamento de propinas em Regimes Próprios de Previdência Social (RPPS), com ex-sócios condenados em instâncias iniciais.
O MINIPROS teria uma missão transversal, dessas que fazem qualquer organograma parecer pequeno. Relacionar-se-ia com a Fazenda, para explicar que a falta de dinheiro é, antes de tudo, uma oportunidade de desenvolver a criatividade; com o Trabalho, para convencer os desempregados de que não estão sem emprego, mas em transição para o empreendedorismo; com a Educação, para ensinar que o sucesso depende menos das condições de ensino do que da capacidade de sonhar; e com a Saúde, para recomendar serenidade aos pacientes que aguardam atendimento há meses na fila do SISREG.
Também seria necessário estabelecer uma parceria estratégica com o Desenvolvimento Social. Afinal, programas de transferência de renda poderiam ser gradualmente substituídos por programas de transferência de confiança. Em vez de dinheiro na conta, o cidadão receberia uma mensagem motivacional, um certificado de resiliência e um convite para a próxima palestra. Seria a modernização definitiva da política social: menos despesa pública, mais pensamento positivo.
E por que parar por aí? Num governo comprometido com a eficiência, poderíamos até suprimir alguns ministérios. Para que manter uma pasta exclusiva para o Trabalho, se a Prosperidade pode ensinar cada desempregado a ser seu próprio patrão? Para que um ministério dedicado ao Desenvolvimento Social, se a pobreza pode ser combatida com cursos de mentalidade milionária? E a Educação, por que não incorporá-la ao novo ministério, já que aprender a prosperar seria mais importante do que aprender matemática, história ou ciências?
A Saúde talvez resistisse à fusão, mas poderia ficar responsável apenas pelos casos em que a força de vontade não produzisse os resultados esperados. Seria uma espécie de retaguarda para os cidadãos que, mesmo depois de três palestras, continuassem doentes, endividados ou desempregados. Só o MINIPROS seria capaz de, num estalar de dedos, implementar o chamado “padrão Einstein” no SUS, levando a rede privada para dentro do Sistema Único de Saúde.
A ideia me lembra o superministério da Economia criado no governo Jair Bolsonaro, quando Paulo Guedes reuniu sob seu comando áreas importantes da política econômica. A promessa era simplificar a máquina pública, coordenar decisões e dar mais força à agenda liberal. Na prática, concentrar atribuições num único ministério não faz os problemas desaparecerem por decreto — assim como juntar várias pastas sob o nome de Prosperidade não transforma, por si só, a vida dos brasileiros.
Mas, se o projeto é mesmo substituir a velha política por uma nova arquitetura institucional, talvez seja necessário encontrar alguém à altura da missão. E, para substituir Paulo Guedes nessa empreitada — agora com a tarefa adicional de fazer o país prosperar até no discurso —, três nomes me vêm à mente.
Os ministros
Para comandar essa revolução, pensei numa lista tríplice de notáveis. Três homens capazes de transformar a ideia de prosperidade numa experiência multidisciplinar, com direito a inteligência emocional, motivação pessoal e uma boa dose de engenharia financeira.
O primeiro nome seria Augusto Cury, ministro da Prosperidade Emocional. E não apenas por sua reconhecida competência no campo da inteligência emocional. Cury acaba de declarar apoio a Flávio Bolsonaro no segundo turno, depois de obter a assinatura do candidato num documento com compromissos públicos para o país. Entre as promessas, estão verdadeiras revoluções na educação, na saúde, na proteção às mulheres e na agricultura.
Convenhamos, caboco, é muita revolução para um único termo de compromisso! Se o Brasil precisa de prosperidade, nada mais natural do que entregar a pasta a alguém que já chega ao governo com um catálogo de revoluções debaixo do braço. Não houve, segundo o documento, troca de cargos ou vantagens pessoais. Mas, cá entre nós, se o apoio veio acompanhado de tantas revoluções prometidas, Cury já demonstrou ter o perfil ideal para o ministério: sabe estabelecer metas ambiciosas e cobrar que sejam cumpridas.
Sua primeira missão seria ensinar o brasileiro a administrar emocionalmente a falta de dinheiro. Se o cidadão não consegue pagar a conta de luz, alguém precisa ajudá-lo a lidar com a frustração. Se o salário acaba antes do mês, é porque ainda não desenvolveu suficientemente sua inteligência emocional. E, se a geladeira está vazia, nada impede que a mente continue trabalhando em abundância.
O segundo seria Pablo Marçal, ministro da Prosperidade Motivacional. Quem melhor para ensinar o brasileiro a superar limites, acreditar no próprio potencial e transformar qualquer dificuldade numa oportunidade de negócio? Seu currículo oferece experiências práticas em áreas tão diversas quanto comunicação política, desafios de superação e gestão de crises.
Na campanha para a Prefeitura de São Paulo, em 2024, Marçal divulgou um laudo médico falso que tentava associar Guilherme Boulos ao uso de cocaína. A falsidade do documento foi confirmada por perícia. Para o Ministério da Prosperidade, seria uma aula sobre como fabricar uma realidade alternativa — embora, nesse caso, a realidade tenha apresentado a conta.
E é nas aventuras motivacionais que nosso futuro ministro encontraria seu principal laboratório. Em janeiro de 2022, uma expedição ao Pico dos Marins terminou com dezenas de participantes em situação de risco e uma operação de resgate do Corpo de Bombeiros. Em 2023, Bruno da Silva Teixeira, prestador de serviços de uma empresa ligada ao círculo empresarial de Marçal, morreu durante uma corrida de rua associada a um desafio de superação. São episódios distintos, mas ambos lembram que desafiar limites exige mais do que frases de efeito: exige preparo, prudência e responsabilidade.
E, como se o repertório ainda precisasse de uma prova final, veio o Ironman no Paraguai, em outubro de 2026. Marçal precisou de auxílio para sair da água e não concluiu a etapa de natação. Sua assessoria negou que ele tivesse organizado ou liderado o grupo de participantes. Ainda assim, a cena oferece uma metáfora irresistível para o nosso ministério: às vezes, nem o discurso de superação consegue vencer a correnteza.
Marçal também poderia comandar o programa Empreendedorismo de Si Mesmo. Afinal, publicou dezenas de livros e declarou que conta com ghostwriters para escrevê-los a partir de seus vídeos e falas. É uma forma moderna de produtividade: o autor entra com as ideias, outra pessoa entra com o texto e o leitor entra com o dinheiro.
No Ministério da Prosperidade, seria responsável por ensinar o cidadão a ser protagonista da própria história — ainda que, para escrever alguns capítulos, seja conveniente contratar alguém.
O desempregado receberia um certificado de empreendedorismo; o trabalhador informal, um curso de mentalidade milionária; e o cidadão que não conseguisse pagar as prestações do microcrédito seria convidado a participar de uma palestra sobre resiliência.
Afinal, fracasso não existe. Existe apenas sucesso que ainda não conseguiu concluir o cadastro no sistema — e, em situações extremas, alguém esperando um jet ski para voltar à margem.
Para completar a equipe, ninguém melhor que Daniel Vorcaro, ministro da Prosperidade Financeira. A nomeação exigiria alguns ajustes no roteiro: primeiro, resolver as pendências com a Justiça; depois, convencer o país de que sua experiência financeira poderia ser aproveitada em benefício da nação. Na política brasileira, caboco, até crise pode virar oportunidade — desde que o personagem tenha bons advogados e saiba circular pelos corredores certos.
A passagem da prisão para o gabinete seria apresentada como uma extraordinária história de superação. O homem que precisava prestar contas à Justiça assumiria a missão de ensinar o país a prosperar. Não seria uma absolvição por decreto, evidentemente, mas uma demonstração da capacidade de Brasília de transformar qualquer problema numa oportunidade de gestão.
E contatos não faltariam ao novo ministro. Reportagens sobre os dados extraídos de seus celulares revelaram uma rede de relações que incluía ministros do Supremo Tribunal Federal, parlamentares, ministros de Estado e governadores. Vorcaro chegou a afirmar à Polícia Federal que tinha amigos nos três Poderes. A existência desses contatos, por si só, não comprova favorecimento ou irregularidade, mas oferece material de sobra para evidenciar a capacidade de articulação do novo Ministro da Prosperidade.
Enquanto alguns governos gastam energia tentando melhorar a articulação entre Executivo, Legislativo e Judiciário, Vorcaro parece conhecer os caminhos para chegar aos três. Seria, portanto, o responsável pelo programa Networking Republicano Avançado, com aulas sobre como construir relações institucionais, frequentar os ambientes certos e aproximar pessoas influentes. O curso teria até um módulo especial sobre governança e segurança jurídica. Eu imagino que a futura próspera tia Dile adoraria fazer esse curso.
Na cerimônia de posse, governadores, parlamentares e autoridades ocupariam as primeiras filas. O discurso falaria em confiança, diálogo e prosperidade compartilhada. Só faltaria responder à pergunta inconveniente: prosperidade para quem?
Porque conhecer quem decide não é a mesma coisa que trabalhar em benefício de todos. E, no Ministério da Prosperidade, Vorcaro poderia ensinar justamente essa diferença: a que existe entre movimentar bilhões e produzir bem-estar coletivo.
Afinal, caboco, pontes entre os três Poderes são importantes. O problema é quando ninguém sabe se elas conduzem ao interesse público ou terminam na porta de algum gabinete.
Os programas
Mas um ministério dessa envergadura não poderia viver apenas de ministros. Precisaria de programas, secretarias, departamentos, assessorias especiais e, sobretudo, de uma boa identidade visual.
Nasceria, então, o Bolsa Mindset, destinado aos brasileiros que ainda não descobriram que são milionários. Em vez de aumentar a renda, o programa ofereceria palestras motivacionais para ensinar os beneficiários a trocar a frase “estou sem dinheiro” por “estou atravessando uma fase de expansão patrimonial”. A tia Dile leu o livro Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso” da psicóloga norte-americana Carol Dweck e aprendeu que Mindset (mentalidade) engloba as crenças que fazem cada um se enxergar na luta pela sobrevivência.
Ela terá acesso ao Empreendedorismo de Si Mesma. Receberá um certificado, abrirá um CNPJ e passará a ser chamada de empresária. Se não conseguir clientes, pode oferecer consultoria em prospecção comercial. Se a consultoria não der certo, ministrará um curso sobre como transformar fracassos em oportunidades. E, se nada disso funcionar, sempre haveria uma vaga numa palestra sobre persistência.
Para os endividados, seria criado o Crédito da Prosperidade. O governo facilitaria o acesso ao microcrédito e ensinaria que dívida não é necessariamente um problema: pode ser apenas uma oportunidade de crescimento que ainda não aprendeu a pagar juros. As parcelas continuariam vencendo, claro, mas agora o cidadão poderia enfrentá-las com uma mentalidade renovada.
A saúde também ganharia uma inovação. Diante das filas do SUS, o ministério promoveria oficinas de resiliência para ensinar o paciente a esperar com serenidade com palestras ministrada pelo meu irmão “Pão Molhado” que é assistente social. A educação receberia o Programa Pensamento de Vencedor, porque, se faltam laboratórios, bibliotecas e professores, nunca é demais investir na capacidade individual de sonhar.
E, para demonstrar resultados, seria criado o Índice Brasileiro de Expectativa de Prosperidade. O indicador mediria a confiança da população no próprio potencial, o número de palestras realizadas, os certificados emitidos e a quantidade de pessoas que declarassem acreditar num futuro melhor.
A renda das famílias, o desemprego e a pobreza continuariam sendo medidos pelos órgãos competentes. Não seria razoável misturar questões tão concretas com um projeto tão ambicioso.
Ao final de quatro anos, o ministro apresentaria um relatório repleto de gráficos ascendentes. Milhões de brasileiros teriam participado de cursos, milhares de empreendedores receberiam certificados e centenas de campanhas ensinariam a população a pensar grande. Seria um sucesso administrativo, pelo menos até alguém perguntar quanto aumentou a renda de quem ganha salário mínimo.
Nesse momento, o porta-voz explicaria que os resultados econômicos dependem de múltiplos fatores e que a transformação da mentalidade coletiva exige tempo. A prosperidade estaria em fase de implementação, aguardando a conclusão dos estudos técnicos e a liberação da próxima parcela do planejamento estratégico.
Caboco, não me entenda mal. Qualificação profissional, crédito responsável, incentivo ao empreendedorismo e integração das políticas sociais podem ajudar muita gente. O problema começa quando essas ferramentas são vendidas como se fossem uma solução mágica para problemas que dependem também de empregos dignos, salários adequados, serviços públicos de qualidade e redução das desigualdades.
A pobreza não desaparece porque alguém aprendeu a pensar como milionário. A geladeira não se enche com frases motivacionais. E a conta de luz não aceita como pagamento um certificado de inteligência emocional.
Prosperidade de verdade é quando o trabalhador consegue sustentar a família sem precisar escolher entre comprar comida e comprar remédio. É quando o jovem encontra oportunidade sem ter de abandonar seus sonhos ou sua cidade. É quando o pequeno empreendedor consegue crescer sem ficar prisioneiro das dívidas. É quando o Estado oferece condições para que as pessoas vivam melhor, em vez de apenas ensiná-las a suportar o que continua ruim.
No fundo, caboco, o Ministério da Prosperidade talvez seja a maior metáfora de um país que corre o risco de trocar políticas públicas por propaganda, direitos por promessas e soluções concretas por frases motivacionais.
A democracia exige que a gente olhe para além dos nomes bonitos, dos discursos ensaiados e das promessas de revolução. Exige examinar propostas, trajetórias e compromissos, porque prosperidade não se decreta, não se vende em palestras e muito menos nasce de um novo ministério.
No dia 25 de outubro, o Brasil terá mais uma decisão importante pela frente. Que cada eleitor faça sua escolha com consciência, lembrando que o futuro do país não pode ser construído sobre ilusões e mentiras deslavadas: precisa de trabalho, dignidade, justiça social e compromisso com a vida real dos brasileiros.
Porque pensamento positivo é muito bom, caboco, mas, na hora de pagar o boleto, prefiro saldo positivo. Ainda mais quando a proposta é de um mentiroso público e notório, que atribui ao outros todos os seus pecados. Na boca do mentiroso, só existe verdade quando os ouvidos são tendenciosos.