CRÔNICAS

Dois olhos no Brasil: um na ferida, outro na esperança

Em: 07 de Setembro de 2025 Visualizações: 2626
Dois olhos no Brasil: um na ferida, outro na esperança

     

 

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

Outro dia, sentado na rede, café na mão e noticiário ao fundo, fiquei com a sensação incômoda de que a gente vivendo um looping nacional de tragédia anunciada. Todo dia tem manchete nova com gosto de déjà vu. Mais uma chacina policial. Mais uma barbaridade vinda da Faixa de Gaza com o apoio do Tio Sam. Mais um senador declarando guerra à inteligência. Mais um caso de racismo, misoginia, homofobia — tudo junto e misturado, como numa boa caldeirada de ignorância institucionalizada, temperada com doses generosas de egoísmo e pimenta murupi.

Tem dia que parece que o Brasil é um eterno 8 de janeiro, tentando impedir que o Congresso vire piquenique de golpista de camiseta da Seleção.

E aí vem aquela tentação: fechar os olhos. Fingir que não viu. Mudar de canal. Dar um scroll rápido na indignação e voltar para a frigideira de tapioca com tucumã. Até tento, mas vejo meus filhos com o sorriso no rosto. Um sorriso de quem ainda não sofreu abuso da grande imprensa hegemônica. Aí não dá. Não dá para ignorar. E nem devo. Paulo Freire — esse velho teimoso que insistia em alfabetizar gente com dignidade — já dizia: consciência crítica não é luxo, é sobrevivência.

Mas veja bem: também não dá para viver só com o dedo na ferida, como se o Brasil fosse um doente terminal que só tem diagnóstico, mas nunca tem remédio. Porque aí a gente vira especialista em desgraça, PhD em desalento. A gente se acostuma a apontar o problema e esquece que também tem coisa funcionando — e, veja só, funcionando bem.

Celebrar o quê?

É nesse ponto que eu penso em Hannah Arendt, que entendia mais de totalitarismo do que muito general com cargo comissionado em gestão de extrema-direita. Arendt dizia que política de verdade não é só reagir ao que está ruim — é criar junto, pensar junto, fazer junto. É lembrar que cidadania não é só denunciar: é também construir. Porque a democracia não se sustenta só no grito; precisa de conversa, de encontro, de articulação, de celebração também.

E sim, há o que celebrar.

Por exemplo: o Brasil saiu do Mapa da Fome. Eu repito: saiu do Mapa da Fome. Com menos de 2,5% da população em desnutrição, superamos metas da ONU antes do prazo de 2026. Enquanto alguns gritam “comunismo!” ao ver gente comendo três vezes ao dia, o Programa Mais Médicos dobrou o número de profissionais nas regiões que, até ontem, viviam de chá de limão com alho e fé.

E o SUS — esse milagre coletivo que a elite adora demonizar, mas corre para usar quando o plano de saúde engasga — bateu recorde histórico: 13,7 milhões de cirurgias em um único ano (2024). Isso não é dado frio. É gente vivendo mais. Gente comendo. Gente sendo tratada e curada.

Na Amazônia — esse quintal que o capital insiste em transformar em pasto — houve queda de 30,6% no desmatamento. No Cerrado, 25,7%. E, mesmo com os ruralistas espumando de raiva e jogando soja onde não deviam, o país recebeu aplauso internacional com o Prêmio Tyler. Sabe o que é isso? É a ciência com cheiro de floresta sendo reconhecida no mundo todo. É o grito dos povos tradicionais ganhando eco.

Paraíso tropical?

Na cultura, as coisas também se mexeram. A Lei Paulo Gustavo e a Aldir Blanc injetaram bilhões num setor que, até outro dia, era tratado como inimigo interno. O Festival de Gramado floresceu, e a Seleção Feminina de Futebol — que antes nem uniforme decente tinha — venceu a Colômbia na final da Copa América. Sim, nos pênaltis. Sim, com raça. Sim, com representatividade. E sim, lavando a alma.

Na educação, o maior número de vagas em escolas de tempo integral da história recente. No PIB, crescimento de 1,4% no primeiro trimestre de 2025 em relação ao trimestre anterior. No desemprego, queda. Na pobreza extrema, idem. E ainda tem R$ 23 bilhões sendo investidos em inteligência artificial com foco social e ambiental. Acredite: até o futuro, que parecia coisa de ficção científica patrocinada por startup americana, começou a ganhar sotaque brasileiro.

Agora, sejamos honestos: isso significa que estamos vivendo num paraíso tropical de políticas públicas? Claro que não. O Congresso ainda parece mais um episódio do “Chaves” – o Chavo mexicano - do que uma casa legislativa. A Polícia Militar ainda confunde fuzil com argumento. E tem influencer ganhando dinheiro vendendo a ideia de que o nazismo foi de esquerda. Então, não: não é hora de baixar a guarda.

Mas também não é hora de perder a fé.

Devemos lutar. E a luta também se dá nos momentos de resiliência silenciosa, quando a gente segue em frente, mesmo que o mundo não perceba. Não é sempre que o protesto é barulhento, que o movimento é grande. Às vezes, é no silêncio das nossas pequenas ações diárias que a resistência acontece. Quando o caminho é árduo, mas a gente continua, mesmo que ninguém veja. Quando, ao invés de gritar, a gente apenas respira fundo e segue.

Bola pra frente

A luta também é isso: persistência, mesmo quando as condições parecem desanimadoras. Devemos manter o passo firme. Com calma. Com paciência. Com a certeza de que, embora as grandes mudanças não sejam imediatas, cada pequeno gesto é uma semente.

E tem mais. A luta não é feita apenas de gestos perfeitos. Às vezes, ela está nas imperfeições, nas falhas que a gente comete pelo caminho. Linhas mal traçadas podem ser tão essenciais quanto as mais bem desenhadas. O importante não é a perfeição, mas o movimento. Porque resistir não é só saber gritar ou erguer bandeiras. Resistir é também se levantar depois de cada tropeço, de cada erro, e ainda assim seguir em frente.

Não se trata de um caminho de vitórias claras e sem obstáculos, mas sim de pequenas vitórias, muitas vezes silenciosas, que constroem a transformação. O buraco pode ser fundo, mas, veja, tem corda sendo jogada. E a luta é isso: continuar, mesmo com falhas, com erros, com incertezas, mas nunca desistir. E sempre com um suspiro de esperança, por mais que o ar pareça rarefeito.

Discutir o lado bom da vida não é alienação — é resistência. É lembrar que, mesmo em tempos difíceis, ainda há quem insista em construir uma saída. E que o Brasil — esse bicho esquisito que nunca desiste — continua encontrando jeitos de dar certo, apesar de quem torce contra.

Não podemos ser míopes. Que a gente siga com os dois olhos bem abertos. Um, atento às injustiças. O outro, firme nos avanços. Porque cansa ver só o desastre. Mas ver também a esperança — e alimentar essa esperança com ação, crítica e afeto — é o que nos impede de cair no cinismo paralisante. E o Brasil, com todos os seus absurdos, ainda vale a luta.

É o amor

E esse debate me traz a memória um detalhe fundamental: a bandeira do Brasil, inspirada no Positivismo de Auguste Comte, traz um lema que é lição de vida. A frase original dizia:

“O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim.”

No entanto, quando os militares definiram o símbolo nacional, o "amor" foi retirado do lema. Um detalhe aparentemente pequeno, mas que carrega uma grande ironia histórica: um país que tenta avançar sem colocar o afeto no centro de suas decisões. A ausência do "amor" no nosso maior símbolo é, talvez, a metáfora mais potente de como ainda buscamos o progresso sem cuidar genuinamente de quem caminha ao nosso lado. O amor deve ser reintroduzido na bandeira do nosso coração.

Então, meu amigo, acredito que a luta nunca foi só grito. Às vezes, é também suspiro. Passo firme. E linhas mal traçadas como estas.

 

Referências:

https://brasil.un.org/pt-br/299851-artigo-brasil-voltou-sair-do-mapa-da-fome#:~:text=O%20Brasil%20j%C3%A1%20havia%20sa%C3%ADdo,constar%20no%20Mapa%20em%202021.

https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/noticias/taxa-de-desmatamento-na-amazonia-cai-30-6-e-25-7-no-cerrado

https://agenciagov.ebc.com.br/noticias/202407/em-18-meses-mais-medicos-praticamente-dobra-numero-de-profissionais?utm_source=chatgpt.com

https://revistapesquisa.fapesp.br/antropologo-brasileiro-e-ecologa-argentina-ganham-o-premio-tyler-apelidado-de-nobel-verde/

https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/01/25/sus-bate-recorde-de-cirurgias-eletivas-em-2024-mas-13-milhao-de-pessoas-ainda-esperam-atendimento.ghtml

https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/43522-pib-cresce-1-4-no-primeiro-trimestre-de-2025

https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/noticias/2025/07/desemprego-cai-a-5-8-no-segundo-trimestre-menor-nivel-da-serie-historica

https://ge.globo.com/futebol/futebol-feminino/copa-america-feminina/noticia/2025/08/02/brasil-vence-a-colombia-e-conquista-nono-titulo-na-copa-america-feminina-veja-campeas.ghtml     

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4 Comentário(s)

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Cláudio Nogueira comentou:
09/09/2025
O Taquiprati agora tem um sucessor. O Geraldinho escreve bem pra dedeu. Estamos a caminho de perpetuar o Taquiprati. Há muitos anos, quando tiravas férias, o Heyton chegou a escrever qualquer coisa, né ?
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Erickson Medeiros comentou:
09/09/2025
Esse texto é um alento para os que estão cansados de ver essa face violenta do nosso país. Uma sinalização de esperança, que só a União do nosso povo, possa trazer com Amor e por em Ordem as instituições, que devem servir ao povo, de modo a se efetivar o verdadeiro progresso, trazendo a cidadania de verdade e a comunhão. Parabéns Geraldo Jr.
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Djalma Brito da Costa comentou:
08/09/2025
Crônica sincera e verídica como essa, dispensa comentários! A luta com Amor e por um Brasil melhor, continua!!
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José Amaro Júnior comentou:
08/09/2025
O Taqui pra ti agora achou seu sucessor. Bravo Geraldo Lopes de Souza Junior.
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