CRÔNICAS

A PROVÍNCIA E O RAIMUNDINHO VINTE-E-UM

Em: 02 de Setembro de 2017 Visualizações: 2671
A PROVÍNCIA E O RAIMUNDINHO VINTE-E-UM

Entrai na roda oh linda roseira / E abraçai a mais faceira (Cantiga de roda)

Aconteceu, faz tempo, no bairro de Aparecida, em Manaus...

Não, não! Deixa pra lá! É melhor não contar. Quem é que vai perder tempo ouvindo a história do Raimundinho Vinte-e-um, filho da dona Jati, que morava na rua Bandeira Branca, à beira do igarapé São Vicente? Um dia, seu vizinho, o velho Espiridião, sonhou com o Raimundinho, jogou no bicho e ganhou uma bufunfa. Deu touro na cabeça: 21. É que o menino tinha a mais aquilo que Lula tem de menos: um dedo extra. Nasceu com seis dedos na mão direita, um colado no outro. O apelido pegou: Raimundinho Vinte-e-um.

Ainda que a ninguém interesse, é bom que se diga, antes de mudar de assunto, que o sexto dedo fazia uma curva no polegar, parecia a pétala de uma flor.  Por isso, nas brincadeiras de roda da infância, há mais de 60 anos, todos os olhares convergiam para ele quando cantavam:

- A mão direita / tem uma roseira, / que dá flor na / primavera.

Embora a primavera nunca tenha dado as caras em Manaus, a flor estava lá, na mão direita. Nessa hora, Raimundinho escondia a mão com o dedo extranumerário, igual ao do Fabinho, ex-jogador do Corinthians, que se fosse goleiro teria uma vantagem a mais para agarrar a bola. Só não continuo a narração, porque os leitores hoje estão se lixando para a polidactilía do menino, diagnosticada por um... dentista do extinto IAPC, o doutor Benício, que recomendou uma cirurgia reparadora jamais feita. Dona Jati ficou com medo que arrancassem o dedo do seu filho, como quem extrai um dente.

Motor de popa

Sou obrigado a interromper a narrativa aconselhado por uma leitora, zangada, que comentou no facebook que eu devia escrever sobre coisas sérias, por exemplo, a elevação do Amazonas à categoria de Província, em vez de ficar contando abobrinhas do bairro de Aparecida. Não sei se ela tem razão. De qualquer forma, não posso omitir aqui os detalhes da vingança do Raimundinho Vinte-e-um que apelidou o velho Espiridião de Didi Peidão, ou Motor de popa, depois que descobriram que tinha câncer de próstata.

Foi assim. Naquela época, pelo menos em Manaus, não se fazia biópsia para identificar células cancerígenas no tecido prostático, mas nem por isso o seu Didi conseguiu tirar o dele da reta. Hoje, qualquer urologista mete uma sonda de ultrassom no teu fiofó, com uma agulha acoplada, não dói quando é com anestesia, mas depois o caboco fica perdendo sangue por tudo que é buraco do corpo durante vários dias. Pois bem, prometi não contar e não vou contar, mas apenas adianto que seu Didi, depois da dedada do toque retal, afrouxou e ficou com flatulências, daí o apelido bem dado, que também pegou.

Deixemos as abobrinhas cozinhando e vamos, pois, a assuntos sérios que interessam a todos. Será? O Amazonas foi elevado à categoria de Província, em 5 de setembro de 1850, quando se separou do Pará, num divórcio litigioso que persiste até hoje. A única vantagem parece ter sido ganharmos um feriado local. Naquela época, o território que é hoje o bairro de Aparecida era uma floresta cercada de igarapés, de águas límpidas, que não eram ainda bosteiros. Quase um século depois, deceparam as árvores, construíram casas entre os troncos, e o primeiro nome com que ficou conhecido foi Bairro dos Tocos. Lá vem Aparecida. De novo. Não consigo me libertar.  

Para atender a leitora zangada, faço uma ponte entre os dois assuntos. É que no dia 5 de setembro de 1955, o Grupo Escolar Cônego Azevedo participou da parada cívica pelas ruas do bairro e depois na av. Eduardo Ribeiro. Estava lá, num palanque, o governador Plinio Coelho (PTB), eleito numa época em que o voto nulo de desesperança na classe política não superava os votos concedidos ao candidato vitorioso. Num calor infernal, a diretora Dona Natália exigiu que os alunos usassem luvas no desfile escolar. No entanto, não existe luva com seis dedos. Raimundinho Vinte-e-um ficou de fora. Foi bullying institucional.  

Morte do narrador

Só não dou mais detalhes sobre o desfile, porque ninguém está mesmo interessado em narrativas, já que não existe mais narrador, ele morreu, seu atestado de óbito foi assinado por Walter Benjamin, lá na Alemanha. Além disso, os ambientalistas e os índios se perguntam, com razão, se é válido ficar contando abobrinhas quando Michel Temer agride a Amazônia com o decreto sobre a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca).  

Diante da tragédia nacional que se abate sobre o país - econômica, social, ambiental, moral - não há mais espaço para histórias pincelando personagens como Raimundinho Vinte-e-um. Até quando quadrilhas que tomaram de assalto o poder, nas suas diferentes instâncias, continuarão dando as cartas com total impunidade? Até quando ficaremos de braços cruzados, impotentes, apalermados, abestalhados?

Os índios parecem indicar um caminho. O ministro da (In) Justiça, Torquato Jardim fez algo de inédito: anulou o que havia sido demarcado, numa agressão covarde a um dos setores mais sofridos da população. Os guarani, então, ocuparam nesta quarta-feira (30) o escritório da Presidência em São Paulo contra a anulação da reserva criada em 2015, no Parque do Jaraguá, zona oeste da capital paulista para garantir seu pedacinho de terra.

A mão direita não tem uma roseira, Ela golpeia duro. Ela é escrota. Confesso que Temer, Jucá, Padilha, Aécio, Fufuca, Rodrigo Maia et caterva me adoecem. De verdade. Desconfio que às vezes recuperar personagens como Raimudinho Vinte-e-Um e Didi Motor de Popa pode ser um refúgio para mitigar as epidemias que se alastram pelo Brasil. Ouviu, leitora zangada? 

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20 Comentário(s)

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Vicente Nogueira comentou:
10/09/2017
Realmente, o mundo é como o vemos, não como ele é. Prá mim, a crônica trouxe emoção e a lembrança de uma dívida enorme que eu carrego com o Raimundinho 21. Pirralho, com uns 8 a 10 anos de idade, não sei exatamente, fui me aventurar pelo lado fundo das Pedreiras, antes da cachoeira e caí em um buraco. Sem saber nadar, estava morrendo afogado quando fui salvo pela ação rápida e generosa do Raimundinho, que me puxou para fora d'água. Nunca tive a oportunidade de reencontrá-lo na vida adulta. Vou procurá-lo. Obrigado pela lembrança!
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Jézia Raiker comentou:
05/09/2017
Adoro suas histórias professor querido e inesquecível.bjs
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Mary Sontag (via FB) comentou:
05/09/2017
JORNALISMO BIPOLAR E MALÉVOLO NA AMAZÔNIA Professor, Eu e uma equipe internacional de pesquisadores temos estudado a expressão jornalística nos 8 países da Amazônia. O que os jornalistas Amazônicos pensam da Amazônia? O que há de plural e de igual na ideologia e na ética do discurso destes jornalistas? Estas são as perguntas que nos movem. Li o comentário da professora indígena paraense Ceci Uaupés sobre seu artigo “ Raimundinho XXI” e também sua resposta. Quando o senhor afirmou que a interpretação dela era “maldosa” o senhor entrou no campo ético da nossa pesquisa. O senhor debocha de um defeito físico de um tal Raimundinho e do câncer de um tal Didi. Dois cidadãos pobres e sem defesa. Com uma ética tão malévola, como o senhor ainda tem coragem de dizer que a interpretação da moça é que é má? Isso realmente faz da vida um saco, Professor. Não acho que está correto! Todos tentaram me dizer para não contestá-lo porque o senhor é vingativo e persegue quem pensa diferente. Mas eu realmente sou a maior das idiotas. Seu texto é muito maniqueísta, bipolar, e esta síndrome está virando uma epidemia. Basta ler a leitora Teresinha que chama a Ceci para se juntar a vocês, os puros e bons. Mas há cura para isto! Não me queira mal!
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Taquiprati comentou:
05/09/2017
Mary, em primeiro lugar, obrigado por comentar, é sempre bom para quem escreve encontrar leitores que dão outra interpretação ao que vc. escreveu, porque permite relativizar. Por enquanto, só vc e a Ceci leram o texto como deboche a um defeito fisico. Imagina!, Felizmente, essa não foi a leitura da maioria dos leitores que se manifestaram, nem do proprio Raimundinho Vinte-e-um que longe de se sentir ofendido, riu. Parece que ele não precisa de defesa,. Quanto ao Didi, ele já morreu. O que eu posso dizer? Eu tenho uma história e uma trajetória que é incompativel com a leitura que vc e Ceci fizeram,.Não tem nada disso, mas as pessoas leem o que querem ler. Quer ver? No comentário a Ceci eu falei em leitura ingênua ou maldosa, vc vem e lê só a segunda qualificação. Então, nesses tempos bicudos, cada um lê o que quer e alimenta suas raivas nas redes sociais. Eu acho que tem mais caroço debaixo desse angu, mas deixa pra lá, minhas raivas não são contra pessoas, mas contra instituições e contra praticas que considero nefastas ao interesse público. Minha luta é contra o Poder, não contra pessoas que ingenua ou maldosamente constroem uma interpretação do teu texto com o qual voce não concorda. Quanto à "bipolaridade", ao "maniqueismo", desconheço tua legitimidade para dar tal diagnóstico, que só um médico especializado pode indicar. De qq forma, voce acena para a cura. Pensarei no caso se vc, prometer que não levará a coisa tão a sério e cultivará um pouco de humor. Isso faz bem pra saude e não precisa ser medico para saber disso.. Mary. Sorria.Abs.
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Ana comentou:
03/09/2017
Viva o Taquiprati e o grande Bessa!! Quero mais histórias do Raimundinho! rsrs
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Ricardo Ferro comentou:
03/09/2017
E continue a contar a História (com H maiúsculo) do Raimundinho, do Seu Esperidião, Dona Natália e todos os que você lembrar; pois isso sim é a grande História.
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Graça Helena Souza Bessa comentou:
03/09/2017
,tens toda razão e mais alguma: não podemos mais ficar abestados,enquanto a corja que tomou o Brasil de assalto, pratica malfeitos sem fim,dia e noite.E se Raimundinho vinte e um e Didi Peidão,forem vivos,que se juntem a nós!! Serão bem vindos!! Rosa,nunca é demais! E peidos,muitos e bombásticos,é o que esta corja merece,junto com o xilindró!!
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Ceci Uaupés (via FB) comentou:
03/09/2017
Professor Bessa, querido, não se aborreça comigo, mas como é que o senhor deprecia um pobre coitado apenas porque tem um defeito físico? O senhor não é favor dos pobres , desvalidos e abandonados pela sorte? Como é capaz de fazer isto? Isto é crime! Coitado do Raimundinho. Tem minha solidariedade de indígena agredida por motivos tão banais quanto este. Sou uma leitora aborrecida!
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Clodomir Alves (via FB) comentou:
03/09/2017
Dona Ceci, por que não defender também os peidões? O texto está discriminando um pobre coitado que é um verdadeiro motor de popa. O velho Didi Peidão discriminado por dona Ceci, merece minha solidariedade.
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Taqui Pra ti comentou:
03/09/2017
Pois é, Terezinha, obrigado por tua leitura inteligente, Cada leitor (a) constroi o sentido a partir de seu universo de valores e de sua experiência. Fazer o quê? O texto caminha em outra direção, mas se a leitora acima leu assim, lido está. Se eu fosse me aborrecer com cada interpretação equivocada que se dá, ingenua ou maldosamente, ao texto que escrevo, não teria mais figado (rs). Bjs.
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Tereziha Juraci Brasil MSilva (via FB) comentou:
03/09/2017
Querido Mestre Bessa, lamentavelmente nem todos(as) alcançam a estensão de suas sàbias "abobrinhas" como ponte para as verdades cruéis da nossa atualidade nua e crua....que suas narrativas contemplam..Viva as abobrinhas...recheadas de conteúdos serios por vezes incompreendidos..Adoro
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Vlamir Seabra (via FB) comentou:
03/09/2017
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Ana Silva comentou:
03/09/2017
Maravilha de texto. De fato, as histórias do Raimundinho são mais sedutoras e necessárias.
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Sandra Albernaz de Medeiros comentou:
03/09/2017
Bessa quando leio suas crônicas me sinto mais viva
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Alessandra Marques comentou:
03/09/2017
Bessa, só vc para trazer alguma graça a tamanho horror, a renca de canalhas que tomou o poder também me adoece. Todo dia levanto imaginando como acabar com essa gente (eu não era assim ou não sabia): espeto, guilhotina, berço de Judas...
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Liege Albuquerque (Via FB) comentou:
02/09/2017
a única vantagem é o feriado mesmo...província não sai de nós, com 2`milhoes habitando nela...
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Geraldo Sá Peixoto Pinheiro comentou:
02/09/2017
É bom para repor na ordem do dia os grandes temas nacionais. Gostei do FAKE sobre o Amazonas!
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