CRÔNICAS

RECOLHENDO OS PASSOS NA CASA BEM-ASSOMBRADA

Em: 16 de Julho de 2017 Visualizações: 2126
RECOLHENDO OS PASSOS NA CASA BEM-ASSOMBRADA

“Hay seres con el privilegio sobrenatural de volver a los sitios de sus afectos. (...) Se dice entonces que esa persona está “recogiendo sus pasos”. (Garcia Márquez – Las últimas horas de Jaime Bateman – 1983)

Rincão das Jaboticabas, no vale da Maria Comprida, na Serra das Araras, onde fui escondido durante uns quinze dias, em 1967, para fugir da polícia. Nunca mais havia voltado lá. Retorno agora, meio século depois, para conferir as lembranças, numa operação que no Caribe – nos diz Garcia Márquez – é denominada de “recoger sus pasos”, quando o velho, antes ou até mesmo depois de morrer, regressa aos lugares de suas querenças, catando vozes, suspiros, cheiros, risos e queixumes, imagens e cenas que por lá ficaram. Recompõe assim suas mais íntimas recordações. Conto aqui os passos que foram dados e como foram recolhidas as marcas no chão. Foi assim.

Os passos dados

Policiais do DOPS andaram me buscando, em dezembro de 1967, na redação do jornal O SOL, na rua Tenente Possolo, por entrevista feita com o ex-governador da Guanabara, Carlos Lacerda – “o Corvo” – um dos articuladores civis do golpe de 1964. Ele queria obcecadamente ser presidente da República e, quando os generais lhe deram uma rasteira suprimindo a eleição direta, passou a fazer oposição à ditadura. Criou, então, a Frente Ampla e buscou aliança com os dois ex-presidentes cujas vidas infernizara: Jango, exilado no Uruguai, e Juscelino, em Lisboa.

A entrevista foi feita por acaso. Eu tinha 20 anos, era um obscuro foca de um diário que inicialmente saía como encarte do Jornal dos Sports. Fui escalado em pleno período natalino para cobrir a noite de autógrafos do livro “Recordações de um Desterrado” do diretor da Tribuna da Imprensa, Hélio Fernandes, que ficara um mês preso na ilha Fernando de Noronha, por publicar artigos contra a ditadura. Dispensaram-me de voltar ao jornal naquela noite de segunda-feira, porque a edição de terça já estava praticamente fechada, a matéria só seria publicada na quarta.

Eis que, de repente, chega na Livraria Eldorado, que estava entupida de gente, ELE, Carlos Lacerda, ovacionado ali como “o futuro presidente da República” pelas “candocas”, as senhoras da CAMDE – Campanha da Mulher pela Democracia, que eram as “paneleiras” da época. No meio do burburinho, arranquei uma entrevista exclusiva. Lacerda, que abicorava o Palácio do Planalto, em postura inusitada para alguém cúmplice e subserviente ao imperialismo dos Estados Unidos, disparou a metralhadora giratória e mandou bala como se estivesse no palanque de um comício que a ditadura não permitia realizar:

- “Quero derrubar o regime fascista do Brasil, porque ele está podre e não aguenta dois anos. A baioneta e o dólar que o sustentam também cairão”.

Corri eufórico para a redação. Os editores Ana Arruda e Reynaldo Jardim decidiram interromper a impressão do jornal e encaixar na primeira página todo o texto da entrevista, o que não era usual. “VOU DERRUBAR ÊSSE GOVÊRNO” – berrou a manchete com dois circunflexos hoje dispensáveis. Como a matéria foi assinada, a polícia me procurou no dia seguinte “para averiguações”. Amigos recomendaram que eu me escafedesse por um tempo.

Eu me escafedi. O meu cafofo foi o sítio da família da Núria, uma querida amiga da faculdade, com quem compartilhava sonhos alados. Seu pai, o renomado médico e psicólogo Emilio Mira y Lopez, ex-chefe dos serviços psiquiátricos do Exército Republicano Espanhol, falecera três anos antes. Quem organizou minha estadia foi a mãe, dona Alice Madeleine, enfermeira uruguaia. Quando desci a serra duas semanas depois, estava desempregado: O SOL entrara em ocaso. Foi fechado. A baioneta e o dólar permaneciam firmes e fortes, quem caiu em seguida foi o próprio Lacerda, cujos direitos políticos foram suspensos por dez anos, com a Frente Ampla definitivamente proscrita. Morreu politicamente com o veneno que ministrou a outros.

As marcas no chão

Cinco décadas depois. Reencontro Emílio, irmão caçula de Núria, agora médico formado pela UFRJ, que trabalhava como clínico geral no Hospital da Lagoa. Retrocedemos a 1967, quando lutávamos contra os acordos MEC-USAID, que pretendiam privatizar a escola pública e instituir o ensino pago. Numa passeata, a irmã de Emílio teve a perna ferida por estilhaços de bomba da polícia. Ele ainda secundarista e líder do Grêmio do Colégio de Aplicação da UFRJ, em companhia do seu amigo Agenor, retornou para recuperar meus óculos, que perdi na correria, ficando como cego em tiroteio. Esse seu gesto solidário ligou para sempre as nossas lembranças.  

Na continuação da nossa conversa, cada um foi recolhendo os próprios passos. Emílio preso durante 42 dias, em 1971, no Quartel da Barão de Mesquita, acusado de militar no MURD – Movimento Universitário de Resistência à Ditadura. A faculdade, a formatura, em 1974, na qual foi o orador, a residência médica, o Hospital-Escola São Francisco de Assis, os cursos na Califórnia, a acupuntura, a medicina chinesa, a irmã migrando para o Paraná, as mortes de sua mãe e de Rafael, seu irmão. Da minha parte, resumi andanças por vários países, o exílio, o retorno, a prisão, as amizades, os amores, a vida acadêmica, os alunos, os índios, especialmente os guarani, as três netas.

Caminhamos por uma estrada de 50 anos quilometrada pelo tempo, até chegarmos ao pedágio do “Fora Temer” e à encruzilhada do “Viva a Uerj”, onde agora nos encontramos. Soube, então, que o Rincão das Jaboticabas continua com a família, sob os cuidados do Emílio. Não resisti ao convite para revisitá-lo. Fui. Subi a serra com o coração aos pulos, levando por precaução, como escudo, duas netas na visita àquela casa bem-assombrada, onde íamos passar três dias.

Na lembrança, depois de tanto tempo, o que ficou da casa, além da supimpa geleia caseira de jaboticaba, foi a imagem da biblioteca construída com pinho de Riga, tendo ao fundo uma lareira. Foi lá onde eu me encafifei em 1967. De lá só saía para a cozinha na hora das refeições compartilhadas com o caseiro e para o quarto de dormir. Passava o dia ouvindo MPB e especialmente músicas da guerra civil espanhola,  e lendo Garcia Lorca, Alberti, Antônio Machado, cercado por fotos de dona Alice e do velho Emilio, que me olhava através das fotos e que ali estava – agora eu sei – recolhendo ele também seus próprios passos.

A casa da minha lembrança era uma, era aquela que abrigou o CPC da UNE, quando o velho Emílio era vivo e aonde Vianinha escreveu grande parte de sua peça “Rasga Coração”. E a outra, a atual, a que encontrei? Ainda continuam lá os mesmos livros, que migrarão brevemente para a biblioteca da Uerj. As fotos também, assim como a mesa usada por Vianinha. Mas cadê os discos de vinil? O tempo, esse gato guloso, comeu. Posso jurar, no entanto, que de noite, enquanto minhas netas dormiam, eu ouvi o ranger das tábuas do piso do corredor, por onde caminhavam Sidney Miller e Nara Leão entoando "A estrada e o violeiro" e Carmela, a atriz de teatro que enfrentou os fascistas, cantando com o punho levantado:

- El Ejército del Ebro / rumba, la rumba la rumbabá /

una noche el rio pasó / ay Carmela, ay Carmela /

Y a las tropas invasoras / rumba, la rumba la rumbabá

buena paliza les dió, ay Carmela, ay Carmela.

A música nos ensina que “nada pueden bombas donde sobra corazón”. Na busca de rastros antigos, acabei ensaiando novos passos, que deixaram marcas recentes. Lá ficam, agora, as pegadas das minhas netas. A companhia delas me permitiu ver o que a memória apagara: a vida fluindo, um jardim ensolarado com muitas árvores frutíferas, plantas, flores, uma piscina, passarinhos, borboletas, tucanos que volateiam com pontualidade britânica sempre no mesmo horário, entre montanhas, uma delas a Maria Comprida, deitada, coberta de nuvens que a vestem com o véu de noiva, além de algumas sementes de esperança renovada.

Cadê a utopia do homem novo imaginado pelo Che? A casa, que abrigou tantos sonhos, não tem porão. Certamente lá o poeta amazonense Ernesto Penafort (1936-1992), que também participou da aventura do jornal O SOL, encontraria o que recolher, mas aí não teríamos seus versos belos e melancólicos, com os quais, para fazer um contraponto, aqui me despeço:

"Dos passos que foram dados / nem marcas restam no chão./

E de seus sonhos alados? / Nem as asas restarão /

Pois foram todos sonhados / No espaço de um porão".

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29 Comentário(s)

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Karla MATOS comentou:
07/08/2017
Prezado José, Cheguei até vc por intermédio da procura pelo dr. EMILIO MIRA LOPES. Estou precisando saber se vc tem o contato dele? Ele foi meu acupunturista na Clínica dr. ALOAN aqui no RJ e ñ está mais lá. Vc tería informação sobre ele? Agradeço antecipadamente pela ajuda. Att.: Karla M.
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Cordelia Fourneau De Mello Mourão comentou:
19/07/2017
Obrigada, querido Professor, para compartilhar esta sua visita ao bucolico lar que lhe abrigou neste episódio da sua juventude jà corajosa. Hoje não iriamos saber aonde nos refugiar, de tão insidioso o inimigo que ele esta fora do espaço-tempo e aloja-se dentro de nos mesmo, na nossa passividade. Mais do que nunca é necessário pensar, expressar-se e agir, assim como você continua fazendo.
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Iñaki Gómez Corte comentou:
19/07/2017
Tive o privilegio de conhecer o Rincão das Jabuticabas, agora ficou mais belo. Obrigado mestre. E que bom saber que aquela biblioteca protegeu você. Salú y libertá!
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Sandra De Almeida Figueira comentou:
17/07/2017
Lindas memórias José Bessa. Só lamento que tantas pessoas recentemente em nosso pais tenham vivido a mesma ilusão de Lacerda. Acreditar que fazendo pressão para retirar um governo eleito iriam ter seus desejos acatados por aqueles que se beneficiaram do Golpe.
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Suzana Escobar comentou:
17/07/2017
Muito bom! Histórias que precisam ser repetidas.
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Nilda Alves comentou:
17/07/2017
Todos, com nossa idade, tivemos nossas casas "Rincão das Jabuticabas". Mas estes livros e discos tiveram todos que sumir no meu caso!!!! A crônica me 'perfumou' a vida hoje! Grande carinho!!!! Nilda PS Passei para os estudantes e pesquisadores do grupo que coordeno Com ela me entenderão melhor, eu acho
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Luciana Galante comentou:
17/07/2017
Maravilhoso! Que não nos falte sonhos alados.
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Leandro Guedes comentou:
17/07/2017
bela e emocionante narrativa, mestre. nos transporta para junto de suas memórias e nos lembra que lutar é a única forma que nos resta esses dias.
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Renato Veras comentou:
17/07/2017
Bessa, que bela viagem no tempo. O Sol e meus amigos, O Emílio da minha Nacional de Medicina, e depois o Emílio na UnATI. A peça “Rasga Coração”. Vivemos em um mundo semelhante. Muito bom recordar estas passagens. Obrigado, forte abraço!
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Anne comentou:
17/07/2017
Querido Bessa, obrigada por me fazer viver estes anos que antecedem de pouco meu "nascimento brasileiro" que foi em 1970. É na história pessoal de cada um que a gente encontra a verdadeira história e você me devolveu estes três anos.
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JOSÉ da Silva SERÁFICO de Assis Carvalho comentou:
16/07/2017
Meu caríssimo Babá, nossas assombrações precisam, cada dia mais, ser contadas. Como diz nossa querida Marilza Foucher, também ela depositária de impressões e experiências dignas (exigentes talvez diga melhor) de serem contadas, chegou às lágrimas, Para isso temos sentimentos e olhos que os vertam, líquidos, nestes tempos de liquidez e liquidação.. Evitar faze-lo é destituirmo-nos da própria condição humana, não importa se demasiadamente humana. Graça Helena acrescentou à sua escrita comentários que poucos de nós - eu fora - teriam jeito e talento para fazer, Meu rincão, sem jabuticabas, hoje se chama Casa das Onze Janelas. Não está na serra, mas admira as águas nem sempre calmas da baia do Guajará. Outros enfrentaram iguais assombrações. Que voltem às casas-cenários, e verão quanto os fantasmas não conseguem manter-se, mesmo se nos falta o alho protetor. Grande abraço, meu irmão!!
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Ana Silva comentou:
16/07/2017
Linda crônica!! Texto sensível, emotivo e muito criativo. Adorei.
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Elvira Eliza França comentou:
16/07/2017
Li no jornal deste domingo e gostei muito. Parabéns pelas recordações e pela forma agradável de nos fazer lembrar o passado e ter responsabilidade para com o futuro. Abraços.
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Valter Xeu comentou:
16/07/2017
Pô vei! Como é que entrega assim de bandeja o esconderijo? Poderiamos precisar dele novamente. Agora ja esta descartado pois os orgãos de segurança ja sabem onde fica. Se o caldo entornar, irei me esconder em Uaua. La é tão longe de tudo, que caso aconteça u,ma hecatombe nuclear, nem radiatividade chega lá.
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Cecilia Coimbra comentou:
16/07/2017
Meu querido amigo, grata pelas lindas e tocantes memórias! Esta familia Mira y Lopes é digna de sempre ser lembrada, sempre! Não conheci Emilio, o pai. Mas, tive a feliz oportunidade de conhecer e conviver com sua mulher, a querida Dona Lilete, como era conhecida no ISOP( Instituto de Seleção e Orientação Profissional) fundado por seu marido e vinculado à Fundação Getúlio Vargas. Quando, eu e meu marido à epoca, José Novaes, fomos presos em 1970, D. Lilete foi uma lutadora incansável denunciando corajosamente a prisão de um funcionário do ISOP, o Novaes. E para tentar nos dizer que estava fazendo alguma coisa por nós, mandava para o DOI-CODI, onde ficamos presos por 3 meses, e através de nossas famílias, saborosas jabuticabas de seu sitio. Quando fomos liberados fez questão de nos oferecer um jantar em sua casa e um fim de semana em seu sitio, nesta casa bem assombrada que você tão belamente descreve! Foi naquela epoca que conheci seu filho Emilio, já na militância. Grata querido amigo por um pouco de nossa história e por um pouco de ar...
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Vera Nilce Cordeiro Correa comentou:
16/07/2017
Que linda crônica. História de um período que ainda se tem muito pra contar. Aliás ainda nem fizemos a catarse daquele período e já estamos vivendo outro período de arbitrariedades. E que surpresa ao ler os comentários do seu blog encontro um maravilhoso de sua amiga graça Helena que vc compartilhou conosco. Quero agradecer vc me marcar. Abraço
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Lisbela Cohen comentou:
16/07/2017
Memória viva, mestre! O senhor é maravilhoso. Sou sua fã.
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Aline rodrigues comentou:
16/07/2017
Prof. José Bessa, li emocionada sua coluna e senti algo inominável por o senhor ter compartilhado esse texto comigo.
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Ana Jacó comentou:
16/07/2017
Querido Bessa, um texto lindo, como todos os seus. E extremamente comovente. Fico feliz em dizer que a biblioteca do prof. Emilio Mira está saindo do sítio das Jaboticabas e indo para o Laboratório Clio´Psyché da UERJ. Quase tudo já está lá, uma grande honra para nós.
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Marilza De Melo Foucher comentou:
16/07/2017
Bela e emocionante crónica. Meu mano José Bessa não sei como te explicar...fui tocada por uma forte emoção e as lágrimas rolaram
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Maria Madeira comentou:
16/07/2017
Obrigada professor! Linda crônica, belo percurso traçado pelos seus passos..bonita história para sonhar fora do porão num quieto domingo entre o dia que se despede e a noite que chega leve.
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Miguel Mesquita comentou:
16/07/2017
Professor, parece que os nossos sonhos foram mesmo sonhados no espaço de um porão, considerando o que está ocorrendo hoje no país.
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Leda Beck comentou:
16/07/2017
Que doçura, Bessa, obrigada! Adorei a leitura e fiquei pensando nos meus próprios passos. Dia desses vou sair recolhendo também
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Graça Helena Souza (via FB) comentou:
16/07/2017
Bessa,adorei e lembrei deste texto do Rubens Alves,quando te ouvi falar do pinho de riga, Um amigo meu, nos Estados Unidos, comprou uma casa velha de mais de um século, conservada, como muitas por lá existem. Muitas coisas a serem consertadas. Tudo teria que ser pintado de novo. Antes de pintar com as cores novas ele achou melhor raspar das paredes a cor velha, um azul sujo e desbotado. Raspado o azul, debaixo dele surgiu uma cor rosa mais velha ainda que o azul. Raspou-a também. Aí apareceu o creme, e depois do creme o branco… Cada morador havia coberto a cor anterior com uma cor nova. E assim ele foi indo, pacientemente, camada após camada. Queria chegar à cor original, que apareceria depois que todas as camadas de tinta fossem raspadas. Finalmente o trabalho terminou. E o que encontrou foi surpresa inesperada que o encheu de alegria. Mais bonito que qualquer tinta: madeira linda, o maravilhoso pinho-de-riga, com nervuras formando sinuosos arabescos cor castanha contra um fundo marfim. Parábola: somos aquela casa. Ao nascer somos pinho-de-riga puro. Mas logo começam as demãos de tinta. Cada um pinta sobre nós a cor de sua preferência. Todos são pintores: pais, avós, professores, padres, pastores. Até que o nosso corpo desaparece. Claro, não é com tinta e pincel que eles nos pintam. O pincel é a fala. A tinta são as palavras. Falam, as palavras grudam no corpo, entram na carne. Ao final o nosso corpo está coberto de tatuagens da cabeça aos pés. Educados. Quem somos? “O intervalo entre o nosso desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de nós“, responde Álvaro de Campos. Contra isso lutava Alberto Caeiro: Procuro despir-me do que aprendi. Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, e raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar minhas emoções verdadeiras. Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, mas um animal humano que a natureza produziu. Mas isso (triste de nós que trazemos a alma vestida!), isso exige um estudo profundo, uma aprendizagem de desaprender… Barthes se descobriu atacado pela mesma doença que afligira Caeiro. Através dos anos seu corpo foi coberto por saberes que se sedimentaram sobre sua pele. Agora ele estava enterrado, esquecido de si mesmo. Só havia um caminho: desaprender tudo. “Empreendo, pois“, ele diz, “deixar-me levar pela força de toda forca viva: o esquecimento“. Esquecer é raspar a tinta. A fim de se lembrar do esquecido. E o que ele viu, depois de terminada a raspagem, encantou-o: lá estava a sua alma, o jeito original de saber — “sabedoria“. Diz o Tao Te Ching que os saberes podem ser somados (como as camadas de tinta). Mas sabedoria só se obtém por subtração, por raspagem e esquecimento. Com isso concorda a psicanálise. Por isso ela não usa nem pincéis nem tinta, e não sabe somar. “Sem memória“, diz Bion. Dedica-se, ao contrário, às raspagens e lixações, na esperança de encontrar, para além do que sabemos, a sabedoria que ignoramos. Digo isso como introdução a uma série de raspagens teológicas que pretendo fazer. Quero raspar as tatuagens de Deus com que cobriram os nossos corpos. Teólogos, sacerdotes, fiéis – todos eles se dedicam a essa arte perversa. Pensam que suas palavras são gaiolas para pegar Deus. Com isso ofendem Deus: pintam-no como pássaro engaiolável. Mas Deus é Vento (é isso que quer dizer a palavra “Espírito“), não pode ser engaiolado como passarinho. “Tudo aquilo para que temos palavras é porque já passamos adiante“, diz Nietzsche. Em outras palavras: não adianta, quando a gaiola se fecha, é porque o sagrado já voou para outro lugar. Deus está sempre além das palavras, no lugar onde as palavras não chegam, onde só existe o silêncio. “A Palavra“, diz a Adélia, “é coisa mais grave, surda-muda, foi inventada para ser calada.“ As gaiolas de pegar Deus têm muitos nomes: rezas, terços, novenas, orações, mantras, promessas, templos, Bíblia, Corão. Mas só os cegos não percebem que elas estão sempre vazias. Se deixarmos as metáforas bíblicas e passarmos para as metáforas do Tao Te Ching seremos transformados de pássaros em peixes: sairemos do Vento e mergulharemos no Rio — do jeito mesmo como Escher viu e pintou, no intervalo (guarde esta palavra!) dos patos que voam estão os peixes que nadam!
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Tadeu Veiga comentou:
16/07/2017
Beleza, Bessa! Bom saber que você conseguiu recolher esses passos e ainda nos fez uma linda crônica. Obrigado, abraço
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Ana Chrystina Mignot (via FB) comentou:
16/07/2017
Meu querido José Bessa, como é bom ler você!!! Que texto comovido e comovente!!!!
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Adeice Torreias (via FB) comentou:
16/07/2017
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Paulo Figueiredo comentou:
16/07/2017
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Elizabeth Frauches comentou:
16/07/2017
Uma leitura envolvente, genial e emocionante. Eu já li outras crônicas geniais do Taquiprati, mas é a primeira vez que eu comento...estou num momento "recogiendo mis pasos".
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