CRÔNICAS

Eu furei a greve

Em: 20 de Setembro de 2015 Visualizações: 22493
Eu furei a greve

O título vai no singular por pura modéstia, mas confesso que foi muito mais sério: furei greves. No plural. Dei aulas durante todas as greves realizadas desde 2002 até hoje nas duas universidades públicas onde trabalho. Contrariei as decisões das assembleias docentes, a partir de uma vaia consagradora na última delas em que participei, há quinze anos, quando falei contra a paralisação. Até aí tudo bem: vaias e aplausos fazem parte do jogo democrático. Mas não houve debate. Minha palavra foi cassada por quem presidia a mesa, que me brindou, em alto e bom som, com o mesmo palavrão com o qual Collor injuriou, em voz baixa, o procurador-geral Rodrigo Janot.

No lugar do ofensivo fdp, podiam demonstrar que eu estava equivocado. O insulto, que não agrega, só não repercutiu mais porque as testemunhas eram apenas quatro gatos pingados, já que a assembleia, como quase sempre ocorre, estava esvaziada, sem que seus organizadores desconfiem o porquê. Depois disso, me ausentei delas por entender que, neste caso, negavam aquilo que deve ser função da universidade: um espaço democrático de debate, de livre expressão do pensamento, de discordância com respeito ao outro, de reflexão, de tentativa de convencer com argumento sólido e fundamentado e não com o grito, insulto, intimidação.

Quando furo greve, como gesto explícito de desobediência sindical similar à desobediência civil, acabo trabalhando duplamente: aulas para alunos que não fazem greve, depois reposição para os grevistas. Há mais de cinco anos, durante uma greve na UERJ, encontrei de manhã cedo uma equipe do RJ-TV com câmaras e equipamentos. No corredor, saindo da reitoria ocupada por estudantes vejo um ex-aluno meu enrolado em uma bandeira do Brasil. Ele ia ser entrevistado, mas antes acenou para mim e, sem saber que eu estava furando a greve, exclamou radiante:

- Professor, o sr. viu? Ocupamos a reitoria!

- Uma cagada! - respondi.

- Mas foi para apoiar a greve de vocês - ele retrucou.

- Outra cagada - eu disse.

Sua expressão de desolação não conseguiu esconder a decepção. Ele não podia imaginar que um ex-vice-presidente regional do Sindicato Nacional dos Docentes (Andes) - que eu fui, eleitor quase sempre do PSOL - que eu sou, fosse um furador de greve. Justifiquei: se o movimento ocorresse em uma universidade particular, contaria com minha adesão, eu correria o risco de demissão e de salário cortado na luta contra os tubarões do ensino. Mas numa universidade pública, embora as reivindicações sejam mais do que justas, sem corte de salário não é greve, mas férias remuneradas contra a instituição.

É um tiro no próprio pé - eu disse ao aluno. Lembrei as críticas feitas por Marx aos operários que na Inglaterra, no século XIX, indignados com a situação de exploração e de extrema miséria, quebravam máquinas e incendiavam fábricas. Mutatis mutandis é o que o denominado movimento paredista vem fazendo com as universidades públicas: degrada o nosso lugar de trabalho, destrói os nossos instrumentos simbólicos de produção, rebaixa a qualidade do ensino e da pesquisa, mesmo se o discurso é diferente e se a intenção é outra. Não focaliza no inimigo.

Houve época em que participei ativamente de greves. De muitas. Na última delas, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em meados dos anos 1980, percorri as salas de aula de diferentes cursos pedindo apoio dos alunos. Um deles perguntou pelo resultado da greve do ano anterior.

- Foi vitoriosa graças ao apoio de vocês - eu disse didaticamente entusiasmado.

- Se foi vitoriosa e era para melhorar a qualidade do ensino, gostaria de saber o que melhorou neste último ano? - ele perguntou.

Aluno é bicho cruel. Ele foi dando nomes aos bois. Disse que o professor X havia comprado um carro do ano, mas entrava em sala de aula com as mesmas fichas amarelas e desatualizadas porque não comprava livros. Esse ainda dava aulas. O professor Y faltava sistematicamente, o professor Z chegava sempre atrasado e não corrigia os trabalhos. Concluiu avaliando que a greve era corporativista, não melhorava a universidade. Contestei a generalização, citando nominalmente outros colegas comprometidos com a instituição. Não convenci. E fiquei balançado por dentro.

Anos depois, já no Rio, expliquei isso ao outro jovem enrolado na bandeira do Brasil, que aliás havia sido excelente aluno. Para relativizar sua decepção, confessei que eu havia cometido erros semelhantes, que minha vida inteira foi uma sucessão de equívocos políticos, que naquele exato momento eu podia estar enganado, que por isso sempre ouvia quem pensava diferente, que era melhor errar do que se omitir, mas que minha obrigação era dizer-lhe o que estava pensando, embora consciente de que eu podia estar equivocado.

Agora, tomo conhecimento que na UFAM, o professor da Faculdade de Educação com quem aqui me solidarizo e que atende pelo sugestivo nome de Paulo Freire foi hostilizado por haver furado a greve, com direito à nota oficial de repúdio e à execração pública. Antes de contar o acontecido, advirto que ele é primo do Pão Molhado, que vem a ser meu sobrinho. Foi assim.

Uma amiga do Paulo Freire lhe contou que a filha queria acampar na reitoria junto com o namorado e lhe havia dito que "pelo menos assim eu posso dormir com ele", em tom de brincadeira. Com o mesmo espírito, o professor fez uma charge e postou no facebook apenas para os amigos. Um "amigo" leu e repassou para o Comando de Greve que publicou nota de repúdio ao professor por estar desrespeitando a mulher e "debochando do movimento estudantil" na luta "para defender a universidade pública, gratuita e de qualidade socialmente referenciada", seja lá o que isso signifique.

A nota de um falso moralismo, absolutamente descontextualizada, expõe a entidade ao ridículo, não mobiliza, não fortalece a organização e nem o movimento. Trata-se de notável contribuição ao FEBEAUFA - o Festival da Besteira que Assola a Universidade Federal do Amazonas. Francamente, a que ponto de desagregação chegamos! Uma nota do Comando de Greve da Faculdade de Educação e logo contra um professor que atende pelo nome de Paulo Freire. Francamente! Esse pessoal não tem mesmo o que fazer. E aí fica dando tiro no pé.

 

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24 Comentário(s)

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Pedro Britto comentou:
21/09/2017
Excelente texto; mas meu comentário é direto ao autor: infelizmente, tenho de te dizer que o SENHOR efetivamente NÃO FUROU NENHUMA GREVE.. Quando o senhor diz: "Quando furo greve, como gesto explícito de desobediência sindical similar à desobediência civil, acabo trabalhando duplamente: aulas para alunos que não fazem greve, depois reposição para os grevistas. " - isto implica que de fato não está furando greve nenhuma (estaria "FURANDO" sim a greve caso não desse tal reposição). O senhor simplesmente esteve exercendo o seu LIVRE-ARBÍTRIO para se reunir com colegas amigos alunos para debates acadêmicos; isto não é furar uma GREVE. Furar uma GREVE seria NÃO PARTICIPAR das ASSEMBLEIAS.
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Marcus Braga comentou:
07/10/2015
É de entristecer ver a UA; Ops! FUA; Ops novamente. A UFAM, via Faculdade de Educação (Saudades de Amin Said, que peitou Orleilson), incorrer nestas contradições. São os Cabos Anselmos ressuscitados do ICHL.
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Silvia Cárcamo comentou:
22/09/2015
Querido Bessa, parabéns pela crônica! Estou a favor de Paulo Freire II, o professor que dá aula sempre, em todas as circunstâncias. Agora, com as medidas do governo...não sei se a greve não teria que recomeçar, claro que sem nenhum autoritarismo. Silvia
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Harald Pinheiro comentou:
21/09/2015
Querido José Bessa, respeito mt suas ideias, mas discordo de sua posição em sua ultima crônica, no Ta qui pra Ti, qt esta greve em andamento, principalmente qd acompanhamos a precarização quase que absoluta dos Campis do Interior do Amazonas e o sofrimento de alunos desamparados ou professores desrespeitados. Os anacronismos sao muitos. Como a greve é de ocupação falar em "férias remuneradas" nao procede e aqui vc foi infeliz, principalmente com dezenas de colegas associados da Adua ou não associados que estão diuturnamente em luta, com desafios e sacrifícios...Se na sede a coisa é ruim, fora da sede a precarização é bem pior. Qt ao professor da FACED, seu sobrinho, as informações do "pão molhado" desta vez estão furadas, não condizem com os fatos nem com a sua versão informada na crônica acima, ainda que bem escrita. Não estive na setorial q aprovou o repúdio, mas conheço bem a moça ofendida q se posicionou sobre o ocorrido, q aliás é aluna do curso de pedagogia e ajudou a ocupar a reitoria. Conheço tb os jovens q ocuparam a Reitoria. Mesmo uma sutil "brincadeira" de um meme aparentemente ingênuo e desinteressado não corresponde à verdade dos fatos e soa ofensivo sim. Nao é pq sou livre para postar o que quiser que vou me eximir das consequências de minhas ações e julgamentos. Jovens de hj nao precisam de subterfúgios pra nada, ainda mais estes esclarecidos e idealistas. Ate onde sei os alunos se mobilizaram e manifestaram seu repudio antes mesmo da Setorial da Faced tomar esta decisão. Embora vc discorde, meu caro Bessa, foi uma decisão coletiva. Apressada ou exagerada até concordo, mas coletiva e democrática. No mais, sempre aprendemos com suas crônicas. Continuo sendo leitor assiduo e admirador de seus textos. Grande abraço.
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Ribamar Bessa comentou:
21/09/2015
Oi Harald, obrigado pelos comentários que trago do FB para compartilhar aqui com outros leitores. A questão não é a justeza das reivindicações e a indignação contra tal situação, nisso estamos de acordo. A questão é a avaliar se a greve nesse momento, na forma como vem sendo feita, é a resposta mais eficaz de combate, se ela contribui para mudar essa situação, em que medida ela melhora o ensino, a pesquisa, a extensão, a formação dos alunos, as condições de trabalho. Não sei como é agora na Ufam, mas o clima de companheirismo numa greve se deteriora, professores que tem uma historia de luta são agredidos por discordarem da greve, nem sempre existe espaço para a discordância nas assembleias e nos comandos de greve, ou seja, o proprio movimento se enfraquece, porque em vez de unir, divide. Avallar o que se ganha e o que se perde com essas ultimas greves nas universidades públicas. Tenho colegas que trabalham em universidade publica e em particular. Fazem a greve na pública, mas ficam quietos na particular, onde a situação é ainda pior.. Gostaria de ver essa combatividade de professores das Universidades particulares, onde se demite e se desconta o salário, mas onde vc atinge o lucro do patrão, ao contrário da universidade publica onde nosso patrão é o contribuinte que sequer tem acesso à universidade. Forte abraço, obrigado pela critica, o debate é sempre sadio, a discordância é que faz a gente avançar.
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EVANDRO LOBO comentou:
21/09/2015
Definitivamente, a melhor definição para essa greve que há muito tempo perdeu a sua noção. Ou perderam a noção. Virou brincadeira. De mau gosto, até para os próprios grevistas, acredito. Parabéns, pela análise e pela atitude.
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Sandra Figueira comentou:
21/09/2015
Bessa, gosto de seu estilo literário e sempre me agrada ler suas crônicas, mesmo quando discordo de sua opinião. Me sinto até um pouco sem graça de meter minha colher em uma discussão sobre greves de profissionais da academia, quando dela sou apenas estudante, portanto estou e não sou. Mas, independente de questões partidárias, porque não defendo nenhuma neste momento, considero que desde os século XVIII e XIX não inventaram forma mais eficaz de trabalhadores livres negociarem com o poder dos patrões. Desde os movimentos ludistas que informou, de quebra de máquinas que garantiram o início dos ganhos sociais dos trabalhadores. Acredito que na academia vivam uma relação diferente dos outros servidores públicos, que são recebidos com balas de borracha e gás lacrimogênio, quando fazem atos durante a greve e vão até a Prefeitura e a casa do governador. Isso hoje, porque já foi pior na ditadura. Porém, o que conheço são os setores de educação do estado e do município em que sempre temos cortes de pontos e outras retaliações, já tive até que mudar de escola por causa de perseguição após a greve. Porque a diretora era filha de militar e achava que os professores eram seus recrutas e a escola um quartel. Não faço greve por mim, mas, por todos, para termos benefícios, melhores condições de trabalho e aumento salarial. Não compreendo a sua posição de quem não faz greve, porque quem não faz greve é igualmente beneficiado pela participação e estresse dos que fazem. Da mesma forma que não compreendo porque pessoas não sindicalizadas de uma categoria criticam as ações sindicais ao invés de participarem e intervirem para mudanças. E entendo que não posso reclamar do aumento do condomínio porque não vou as reuniões dos condôminos. Democracia é a gente acatar a opinião da maioria. E por falar nisso, soube ontem que estão tramando a votação do golpe do impeachment para essa semana na câmara. Será uma semana tensa. Abraços.
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Edmundo comentou:
20/09/2015
Tu gostas de provocar, einh maninho!
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Hildo Couto comentou:
20/09/2015
Prezado José, Este é um texto que eu gostaria de ter escrito. Eu participei das greves no início dos anos '80 na UnB para derrubar o capitão-de-mar-e-guerra que comandava a universidade como se fosse uma extensão do quartel dos generais-ditadores, melhor, como se fosse a fazenda dele. Eu participava ativamente, fazendo piquete, empilhando carteiras na frente das salas de aula para os fura-greve não entrar etc. Fui até agredido por um colega fura-greve. Passados uns 5 anos, constatei que fazíamos greve todo ano pelo mesmo motivo, depois tínhamos que "repor" as aulas, terminar o semestre a toque de caixa, enquanto que os trabalhadores técnico-administrativos simplesmente retomavam onde haviam parado. Aí, me perguntei: para que fazer greve se sabemos que ela não vai funcionar? Ou, então, conseguem-se algumas migalhas! É como usar uma bomba atômica para matar uma formiga. Hoje, quase 30 anos depois, vejo que a mentalidade não mudou. Usa-se um instrumento (a greve) que nem sempre funciona. Os grevistas andam em círculo. A história não avança, é como o uroburo que come o próprio rabo. Aliás, é bom fazer greve no serviço público: não se corre nenhum risco, continua-se a receber o salário, não vai demitido. Portanto, é bom ficar em greve, pois se ganha sem trabalhar. Eu só vi um defeito no que você diz: ser eleitor do PSOL. Se ele assumir o poder, vai fazer o mesmo que o PT fez. Não sei qual é a solução para nosso país. Um abraço, Hildo.
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Paulo Ricardo Freire comentou:
20/09/2015
Quando se trata do sectarismo e do fanatismo, toda opinião é válida desde que seja a mesma do fanático. Caso contrário, o dono da idéia contrária torna-se incauto, babaca, imbecil, alienado, e por aí vai. Lembrei de uma frase atribuída à Henry Ford: "pode-se ter carro de qualquer cor, desde que seja preto". Estou vacinado contra esse discurso pronto e retrógrado disfarçado de vanguarda. Basta ir a fundo em todo o processo que envolve a deflagração dessa greve na UFAM para entender do que se trata. Ou então estudar os conceitos psicanalíticos dos mecanismos de defesa regressão, deslocamento e negação.
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Luiza Resende Resende comentou:
20/09/2015
"O pessoal quer é discursar e não dialogar. Na barraca da sua charge eles nem levariam a namorada, pois se bastam." Muito bom!
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Edson Andrade comentou:
20/09/2015
Paulo Ricardo Freire, pensei até em responder alguns comentários existentes na página do Táquiprati", mas parei e pensei: Por que me intrometer em um "raciocínio" auto referenciado de alguns discordantes do texto do Babá? O pessoal quer é discursar e não dialogar. Na barraca da sua charge eles nem levariam a namorada, pois se bastam.
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Antonio P. Oliveira comentou:
20/09/2015
Caro Professor, Sempre leio os suas crônicas e me identifico com muitas delas. Gosto do tom leve, da ironia e da acidez com que enfrenta as injustiças perpetradas por figuras da política nacional. Mas tem algumas que, permita-me dizer: são rudes e prepotentes. E isso não tem nada a ver com a sua história, com a sua experiência política e com o seu brilhantismo em palestras ou em seus escritos. Reconheço e admiro tal trajetória. Aliás, pela própria trajetória que reivindica é que deveria ser menos orgulhoso de se considerar um "fura-greve", cujo significado, o senhor conhece muito bem. O que, na minha modesta opinião, agrava ainda mais a sua postura. Não estou entre aqueles que acredita que se deva sempre defender a deflagração de uma greve. A leitura da conjuntura, da correlação de forças e a clareza de objetivos são alguns dos requisitos que devem ser observados na hora de tomar uma decisão dessa envergadura. Por outro lado, a representatividade, a liberdade de expressão e a garantia do espaço democrático são condições fundamentais para a legitimidade da decisão que for tomada. seja ela a favor ou contra o encaminhamento proposto. Sendo assim, dessas inúmeras greves, as quais o senhor se orgulha de ter furado, não é possível que alguma não tenha tido razão para existir. A não ser que o senhor tenha feito da sua discordância, um principio absoluto. Se não, então, caberia uma análise para cada uma delas. No caso específico da greve atual, especialmente na UFAM, a Assembleia que decidiu pela paralisação, contou com um número histórico, mais de 600 professores se apresentaram para o debate e, a decisão da maioria foi pela deflagração da greve. E até aonde eu sei, as informações que recebi, a diretoria da ADUA, convocou a Assembleia com antecedência, reservou o maior auditório da Instituição, assegurou o livre debate e, como não havia consenso, prevaleceu o voto da maioria. Os que defenderam a tese de não-greve, usaram do espaço democrático, defenderam suas convicções e tiveram todas as condições democráticas para convencer os membros daquela assembléia da correção de suas posições. Certamente, se a tese da não-greve tivesse prevalecido, a ADUA teria encaminhado tal decisão. Então, eu não vejo razão para alguém, embora respeite a convicção de cada um, não se submeter à decisão soberana da maioria. A sua posição de agora, como eterno "fura greve" é, desculpe, mas não tenho outra classificação, vergonhosa. Ela, a exemplo dos professores que embarcaram nessa, Inclusive a do seu sobrinho, representa o esgarçamento dos instrumentos que uma categoria possui para se defender de decisões que lhe sufocam, que lhe tiram a vida e possibilidades adequadas do exercício de sua atividades. No caso, o exercício pleno da docência, da pesquisa, enfim, de uma vida acadêmica decente. Nem mesmo as mazelas e os procedimentos erráticos de um ou outro membro de uma categoria são razões para que alguém se declare um eterno "fura greve. Uma coisa é você se posicionar. defender suas convicções e lutar por elas, outra coisa é negar o próprio espaço que utilizou para defender suas ideias. Professor Bessa, nem mesmo uma afinidade familiar pode obscurecer aquilo que deveria ser, ai sim, por principio, defendida - a democracia. Hoje, a sua crônica, infelizmente, se situa ao lado do governo, do aparato jurídico e de todas as manobras que estão sendo feitas para destruir a greve nacional dos professores. A sua posição, embora vinda de uma pessoa esclarecida, consciente e conhecedora das lutas sociais, se equipara a de um incauto, de um inconformado por não ter visto sua posição ser vitoriosa numa assembléia.
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Ribamar Bessa comentou:
21/09/2015
Antonio, obrigado pela crítica. Outra leitura do que escrevi, diferente da sua, fizeram alguns leitores e isso é bom, o contraditório. Com a história de vida que tenho - fundador do PT e presidente duas vezes do PT no Amazonas, fundador da ADUA e presidente de sua assembleia de fundação, ex-membro da diretoria da Adua e do Sindicato dos Professores, ex-vice presidente regional da Andes, grevista contumaz na época da ditadura. Com essa história, te juro que é doloroso ter de assumir publicamente que furo as greves nas duas universidades publicas onde trabalho, não é motivo de orgulho, é motivo de lamento, mas essa foi a forma que encontrei para registrar meu protesto contra a ausência de debate democrático e por ter sido impedido de manifestar minha divergência. Acho que as greves nas universidades publicas estão contribuindo para sua destruição. Me equivoco? Tomara que esteja equivocado como sempre estive ao longo da minha vida. Mas no momento em que estou acreditando e não percebi o equivoco, me exponho e dou minha cara à tapa, não por "heroismo", mas pensando em provocar o debate.. forte abraço
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Ricardo Souza comentou:
20/09/2015
Realmente o auditório Eulálio estava cheio. Eu cheguei no momento da votação e não vi os argumentos. Na verdade, o que eu entendi é que se queria um plebiscito para decidir a greve e a ADUA bateu pé dizendo que a assembléia é soberana. Fez a votação e com um pouco mais de 200 votos de diferença VENCEU, no auditório, a posição CONTRÁRIA à greve. Mas, a ADUA usou os dados da votação das assembléias do interior (total), sem qualquer garantia da lisura dos números, e somou ao total, vencendo a GREVE por 21 votos de diferença apenas. A questão está na lisura e verdade dos dados do interior. Esse discurso acima é pronto e desgastado. Todos falam a mesma coisa. Estou imunizado.
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Regina Andrade comentou:
20/09/2015
Quanta energia desperdiçada nesses embates em que não se reconhece quem é o inimigo..
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carmen junqueira comentou:
20/09/2015
A decisão de participar de uma greve ou não exige uma importante qualidade: pensar grande!
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Ronaldo Bastos (via FB) comentou:
20/09/2015
Agora o triste do texto foram algumas argumentações pouco contextualizadas. "Greve com salários não é greve, é férias remuneradas". Eu gostaria de não perder as minhas férias regulares por causa de greves, mas infelizmente é isso que ocorre comigo (onde estou lotado não fazemos usufruto de férias em periodo diferente do programado). Daí que não tenho férias reais a uns 3 anos. Sobre a ausência de corte de ponto em greves de servidores cabe uma reflexão: na CLT os trabalhadores têm direito a data-base, negociação coletiva, e por conseguinte acordos coletivos, convenções e até dissídios coletivos. Também acho justo que quando todas essas soluções são efetivadas e ainda assim a categoria parte para um momento de intransigência é necessário um equilíbrio entre responsabilidades de empregados e patrões, incluindo o corte das remunerações dos empregados. Agora no nosso caso (servidores federais, estaduais e municipais) estamos reféns da iniciativa voluntária da patronal, ou seja, o governo. Então por fora das greves temos que sentar, esperar, orar, chorar, ajoelhar no milho, nem sei o que mais imaginar de situação deplorável pelo direito inalienável de poder negociar, de ter reposição inflacionária, de sonhar com uma carreira justa. Caro José Bessa, acredito que você sabe que fazemos greve, partimos para a intransigência, pra começar a ter uma conversa séria com nosso patrão. Não sei se você já sabe que recentemente o governo já mandou resposta pros servidores através de aviãozinho pela janela do ministério. Nessas condições o corte de ponto dos servidores grevistas nada mais é do que tirar as balas da única arma que restou a esses trabalhadores para tentar equilibrar a correlação de forças com um patrão economicamente hipersuficiente, defendido pelo Estado, articulador das leis, regulador de sua aplicação, e com trânsito favorecido no Ministério Público, Defensoria Pública, e Magistratura. Sobre o caso do professor Paulo Freire, como educador, era importante ele perceber que o espaço das redes sociais é público, de amplitude imensurável. Se seu comentário e gracejo dependia de um farto conhecimento familiar para ser entendido, o bom senso o levaria a limitar sua publicação. Ao não ser que o objetivo dele fosse criar um desentendimento, um tensionamento, um ruído de comunicação proposital. E nenhum processo de aprendizagem é favorecido com os elementos supracitados.
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Alvaro comentou:
19/09/2015
Bessa, parabéns pela coragem. Eu disse pra um dirigente do sindicato do CEFET que é fácil ser radical no serviço público. Greve é coisa seríssima, sobretudo na educação, exigindo anos de preparação, consenso da categoria, e estratégias para dela sair.
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Ana Stanislaw comentou:
19/09/2015
Parabéns Bessa!!! Está no hora de aflorar a criatividade e inventarmos novas estratégias para lutarmos contra nossos inimigos e não contra a universidade, os alunos, a qualidade de ensino. Aplausos, Bessa!!!
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Elô comentou:
19/09/2015
Obrigada por trazer um debate interessante. Fui militante do nosso sindicato por mais de 20 anos e vi um pouco de tudo.
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Marco comentou:
19/09/2015
Bessa amigo, parabéns por mais esta crônica corajosa e grato por mais esta lição. Não é todo mundo que está disposto a dar a cara a tapa (simbolicamente, como no Evangelho) num debate e aprender a conviver com as contradições, sobretudo quando incomodam. Pessoalmente acho que "desobediência civil" não equivale a "desobediência sindical". Mas eu não gostaria de viver numa sociedade (presente ou futura) onde atitudes como a sua não sejam aceitas e respeitadas. Como definiu Millôr Fernandes, democracia é poder torcer pelo Fluminense no meio da torcida do Flamengo (ou vice-versa). E tenho certeza de que estamos na mesma torcida.
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Luciano Oliveira comentou:
19/09/2015
Concordo que as greves estão enfraquecendo a nossa causa. Aqui em Goiás é a mesma postura, é preciso repensar o movimento docente, é preciso criar novas formas de luta, acho uma burrice desmobilizar a universidade com a greve, quando mobilizada ela é uma força de pressão..
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