CRÔNICAS

Envelhecer no Brasil, amar em casa

Em: 28 de Fevereiro de 2026 Visualizações: 367
Envelhecer no Brasil, amar em casa

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“O correr da vida embrulha tudo; a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta”

(Guimarães Rosa: Grande Sertão: Veredas).

 

Envelhecer no Brasil não começa nos números — começa na mesa de casa. Começa quando alguém conta pela terceira vez a mesma história e todos escutam e aplaudem como se fosse estreia. Começa no conselho dado com autoridade e repetido com carinho, no café passado sem medida exata, na preocupação que sempre exagera “só por garantia”. Antes de ser um fenômeno demográfico, o envelhecimento é uma experiência afetiva: é aprender a ver o tempo nos outros e, com sorte, descobrir que o tempo também nos vê com gentileza.

Caboco, aprendi cedo que idoso não é apenas quem soma anos — é quem soma cuidado. Idoso é quem educa, quem orienta, quem se preocupa conosco mesmo quando fingimos que não precisamos. É quem observa em silêncio, corrige quando deve, protege sem anunciar. Na mesma lógica simples e profunda de que pai é quem cria, idoso é quem forma. É quem participa da construção do nosso caráter, do nosso modo de estar no mundo, daquilo que permanecemos sendo mesmo depois de crescer. Os idosos são as enciclopédias vivas das culturas indígenas, que viveram séculos sem escrita alfabética. São consultados para tudo, cumprem função similar ao ChatGPT para muitos jovens.

O país envelhece, sim. Mas dentro de casa ele não apenas envelhece — ele se humaniza. Aqui, vou partir dos dados para chegar aos rostos, porque estatísticas explicam a mudança, mas são as pessoas que dão sentido a ela. E, por trás de cada número, há sempre alguém que cuidou, ensinou e se importou.

O país que envelhece

O Brasil atravessa uma transformação demográfica profunda. Projeções do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que, por volta de 2030, a população com 60 anos ou mais deverá superar o número de crianças e adolescentes de até 14 anos — um ponto de inflexão histórico na estrutura etária do país. Em termos práticos, significa que haverá mais conselhos experientes do que joelhos novos — e, curiosamente, ambos precisarão de cuidados.

O Censo Demográfico 2022 confirma a virada: o país reúne cerca de 32 milhões de idosos, algo entre 15% e 16% da população total. Em relação a 2010, esse contingente cresceu de forma expressiva, enquanto a proporção de crianças diminuiu. Entre os idosos, o grupo com 80 anos ou mais é o que cresce mais rapidamente — sinal de que a longevidade não apenas avança, como insiste em permanecer.

Em 2023, a expectativa de vida ao nascer alcançou aproximadamente 76,4 anos — quase 80 para as mulheres e pouco mais de 73 para os homens. Viver mais é uma conquista da medicina, da saúde pública e da melhoria das condições de vida. Também é um lembrete de que o tempo, quando bem cuidado, gosta de retribuir.

O envelhecimento impacta diretamente a economia das famílias. Mais de 27 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais recebem proteção previdenciária ou assistencial. Cerca de 2,6 milhões são atendidos pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC), que garante um salário mínimo mensal a idosos em situação de extrema pobreza. O Instituto Nacional do Seguro Social paga mais de 24 milhões de aposentadorias — muitas delas constituindo a principal, e às vezes única, fonte de renda de milhões de lares. Em inúmeras casas, a experiência sustenta não apenas a memória, mas também o orçamento.

Dados do DATASUS indicam que, em 2024, 69,4% das mortes de pessoas com 60 anos ou mais no Brasil foram classificadas como evitáveis — relacionadas a condições que poderiam ser prevenidas, controladas ou tratadas com ações oportunas de saúde pública e assistência médica. O indicador reforça que longevidade não é apenas somar anos, mas garantir cuidado contínuo ao longo deles.

No contexto do envelhecimento populacional, o peso das causas evitáveis torna-se ainda mais relevante. Entre idosos, grande parte dessas mortes está associada ao manejo insuficiente de doenças crônicas, a falhas na prevenção de complicações e a desigualdades no acesso a serviços de saúde. Assim, o avanço da idade média amplia a responsabilidade do Ministério da Saúde e das redes de atenção básica em fortalecer políticas de prevenção, acompanhamento e cuidado integral — para que o aumento da expectativa de vida seja acompanhado por mais anos vividos com saúde e autonomia.

O envelhecimento populacional, portanto, não é apenas uma mudança etária. É uma transformação estrutural, com efeitos sociais, econômicos e humanos de longo prazo. Mas estatísticas não abraçam, não aconselham, não riem das próprias histórias. Para compreender o envelhecimento de verdade, é preciso olhar para rostos concretos. E os meus têm nome.

Aos idosos da minha vida

Observando esses números, percebo que vocês estão acima de qualquer média. Não pelos dados — pela história.

Vocês estão muito velhos, é verdade. O manual do corpo anda rabiscado; algumas peças rangem, outras funcionam por teimosia criativa. Ainda assim, que privilégio chegar até aqui. Nem todos atravessam tantas estações com humor suficiente para comentar o clima em todas elas.

Tenho pensado no tempo — sem drama, com gratidão. É reflexão de quem entendeu que o maior presente que recebeu não foi um objeto, mas um modo de viver.

Cabocos velhos, vocês me ensinaram que a vida não se mede pelo tamanho da festa, mas pela qualidade das histórias contadas depois. E vocês colecionaram histórias: de aperto e improviso, de riso alto à mesa, de discussões que terminavam em café passado na hora. Construíram uma casa imperfeita — mas abrigo. E abrigo é uma forma sofisticada de amor.

Se eu sei levantar depois de cair, foi porque vi vocês levantarem primeiro.

Se eu sei amar com firmeza, foi porque fui amado com firmeza.

Se eu sei rir no meio do caos, foi porque cresci numa escola onde o humor era disciplina obrigatória.

Vocês trabalharam, erraram, acertaram, insistiram e, contra todas as probabilidades estatísticas, criaram um filho funcional — o que, convenhamos, já garante menção honrosa na história da humanidade.

E quando o descanso vier — que venha depois de mais algumas risadas e opiniões firmes sobre assuntos aleatórios — não será derrota. Será intervalo merecido. Como quem conclui uma longa travessia e diz: “Cansei. Mas valeu.”

E quero lhes dizer algo com toda a ternura possível: vocês não precisam ter medo da morte. Não porque ela seja pequena, mas porque a vida de vocês foi grande. Quem viveu com presença, quem amou com constância, quem deixou marcas no caráter de outros, não desaparece — continua espalhado nas pessoas que formou. O fim, quando vier, não será um abismo, mas uma pausa natural de quem cumpriu jornada longa e digna. Pensem nele como aquele descanso depois de um dia inteiro de trabalho honesto: o corpo pede silêncio, e a consciência permite repouso.

Se houver alguma apreensão, deixem que ela descanse também. Vocês já fizeram o essencial — e fizeram bem. O que construíram não depende da duração do corpo para permanecer. Está em mim, está nos meus filhos, está em todos que receberam de vocês um gesto, um conselho, um exemplo. Há uma tranquilidade própria de quem plantou direito e viu florescer. É essa serenidade que desejo que os acompanhe: não a ausência de fim, mas a certeza de continuidade. E, se me permitem uma confiança amorosa, o único “problema” que a morte poderia enfrentar com vocês é este: vocês deixaram tanto de si pelo caminho que ela jamais levaria tudo.

E há ainda uma verdade simples e generosa: chega um momento em que é preciso deixar o mundo para que outros também tenham a chance de transformá-lo. Assim como vocês receberam de quem veio antes, nós recebemos de vocês — e um dia passaremos adiante. A vida continua não apesar dessa passagem, mas por causa dela. Não é perda de lugar; é transmissão de lugar. O mundo não fica vazio quando alguém parte — ele se abre, amadurece, respira diferente. E tudo o que vocês plantaram permanece como orientação silenciosa para quem segue.

Carrego vocês em mim de maneiras que nem sempre percebo: no senso de responsabilidade, na forma de enfrentar problemas, na teimosia que insisto em chamar de persistência. Vocês vivem no meu modo de agir, de escolher, de cuidar.

E aqui amplio o círculo do meu agradecimento para todos aqueles que, com palavras ou exemplos, contribuíram para a minha formação. Minha educação foi uma obra coletiva: muitas mãos, muitas vozes, um mesmo compromisso silencioso com o que é certo.

Cada um acrescentou um traço. Meus pais ofereceram o alicerce — presença, disciplina, amor firme. Meus tios ampliaram horizontes, mostraram caminhos alternativos, ensinaram por contraste e por proximidade. Meus professores deram linguagem ao mundo, método ao pensamento, direção à curiosidade. Outros idosos, às vezes sem perceber, ensinaram pelo gesto, pela postura, pela forma de atravessar dificuldades sem perder a dignidade.

Fui educado por uma geração inteira — e isso é um privilégio que nenhuma estatística consegue medir.

A continuação

Hoje percebo algo que talvez nunca tenha sido dito explicitamente, mas sempre foi vivido: aquilo que recebi de vocês não terminou em mim. Tornou-se continuidade.

A educação que me deram atravessou o tempo e respira nos meus filhos. Está nos gestos que repito sem perceber, nas escolhas que faço quando ninguém está olhando, na forma como ensino o certo mesmo quando o fácil parece mais sedutor.

Vocês erraram — e ainda bem. Porque cada erro foi aula, cada dificuldade foi mapa, cada imperfeição foi humanidade. O que em vocês foi tentativa, em nós se transforma em consciência. O que em vocês foi luta, em nós se converte em direção.

Existe um legado que não se mede em bens, mas em caráter transmitido. Honestidade, responsabilidade, dignidade, respeito, coragem moral — valores que não se guardam em cofres, mas em atitudes repetidas ao longo da vida. Essa é a herança que sustenta tudo o que realmente importa.

Vocês não me deram apenas condições de viver. Deram critérios para viver bem.

Se hoje consigo escolher o caminho mais difícil quando ele é o mais justo, é porque aprendi observando vocês. Se consigo cuidar dos meus, é porque fui cuidado. Se consigo seguir adiante com serenidade, é porque herdei de vocês algo mais forte que o tempo: princípios.

Minha gratidão não é um gesto educado. É uma constatação profunda e permanente. Eu existo como pessoa — no sentido pleno da palavra — porque fui formado por vocês: meus pais em primeiro lugar, mas também meus tios, meus professores e todos os idosos que me ensinaram, corrigiram, encorajaram e, sobretudo, confiaram.

Enquanto houver vida que descenda de mim, haverá algo de vocês caminhando no mundo. Vocês permanecem em cada escolha ética, em cada gesto de cuidado, em cada tentativa de tornar o ambiente ao redor um pouco mais humano.

O tempo não os apaga — os multiplica.

E se há orgulho em mim, ele não nasce do que conquistei sozinho, mas do que recebi de muitos. Sou resultado de uma educação construída com amor firme, paciência imperfeita e exemplo constante.

Aos idosos da minha vida deixo o reconhecimento mais sincero que posso oferecer:

Vocês não apenas viveram. Vocês ensinaram a viver.

E eu sigo, com gratidão que não envelhece, tentando estar à altura dessa obra.

 

Referências

https://aplicacoes.cidadania.gov.br/vis/data3/v.php?vsc=z0jbCH

https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/?localidade=BR

http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/tabcgi.exe?sim/cnv/evitb10uf.def

https://www.gov.br/inss/pt-br/assuntos/inss-paga-24-3-milhoes-de-aposentadorias-e-injeta-r-47-4-bilhoes-por-mes-na-economia

 

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4 Comentário(s)

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Elisa Meneghini comentou:
04/03/2026
Lindíssima e tocante. Fiquei muito emocionada com tanta lucidez e sabedoria dentro de uma crônica. Parabéns pra ti, Geraldinho e pra tua mãe e teu pai.. Ver que a colheita responde a tanto investimento em formação, sobretudo a humanitária, com princípios e valores que são a maior riqueza que podemos sonhar, é realização plena para quem educa para a vida. Bem que o Gê disse que educar filhos não era gasto, era investimento (rs) ??
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Hevelen Silva comentou:
03/03/2026
Muito lindo esse texto! Conversa diretamente com o filme "o último azul" que é uma critica sobre idosos serem "descartados".
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Ademario Ribeiro Payayá comentou:
01/03/2026
Estimado professor Bessa, tenho experimentado essas somas aqui em casa, meu amigo! Como são uma delícia ler tuas crônicas! Funda gratidão! Beijos daqui de casa, na fraternura!!! Teu amigo, aprendiz e fã! Ademario
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Taquiprati comentou:
04/03/2026
Querido Ademário, o blog é o mesmo: Taquiprati. Mas os elogios devem ser endereçados ao meu sobrinho, que assumiu a tarefa semanal para postar uma crônica de autoria dele e assim não deixar o blog desapareder. De qq forma, embora há mais de tres meses eu não tenho postado nada de minha autoria, voltarei.
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