CRÔNICAS

Entre o comercial de margarina e a vida real

Entre o comercial de margarina e a vida real

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

 

Família, família/Papai, mamãe, titia/Família, família/Almoça junto todo dia/

Nunca perde essa mania (Trecho da música “Família” do Titãs)

 

Caboco, hoje sentei para escrever esta crônica com uma ideia nobre: falar da dissertação da minha amiga Hevelen Silva, sobre modelagem de risco e padrões espaciais da mortalidade por câncer de mama e de colo do útero no Amazonas. Tema sério, desses que pedem silêncio, método e alguma dignidade intelectual.

Eu ia escrever sobre isso. Juro. Mas bastou olhar para o monitor que lembrei da televisão. O BBB está acabando.

E, como toda tragédia nacional, isso será discutido em família — aquela mesma que, segundo a música, é “muito unida e também muito ouriçada”. Aqui em casa, pelo menos, a segunda parte nunca falha.

Minha mãe já apresenta sintomas claros: olhar fixo, indignação súbita e uma fé inabalável em participantes de argumentação duvidosa — e que ela jamais conhecerá. Quando o programa termina, entra em abstinência — o que, convenhamos, também é uma forma de vínculo.

E eu ali, tentando pensar em políticas públicas, sendo convocado a opinar sobre paredão.

Talvez seja convivência.

Talvez seja teste.

Ou — sendo generoso — família.

E foi nesse ambiente que a pergunta apareceu:

Ih, caboco… o que é uma família?

Família tradicional: o passado simples?

Antes de responder — ou piorar a pergunta — vale olhar como essa ideia foi montada.

Houve um tempo — sempre lembrado como mais estável — em que família parecia simples: pai, mãe e filhos, sob o contrato do casamento. Um desenho limpo. E, na prática, frágil.

Ele ainda existe. Só não reina sozinho — o que, para alguns, já soa como fim do mundo. Um fim que nunca chega.

Convém lembrar: esse modelo nunca foi exatamente um refúgio afetivo. Durante séculos, família foi mais ordem que amor. Foi poder, hierarquia, obediência.

Na Idade Média, veio a chancela divina: casamento sagrado, família disciplinar. Amor era detalhe.

A ideia de família como espaço de afeto veio depois, quase como luxo. Sugerido no século XVIII pelo filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau. Bonito. Tardio. No séc. XIX, Engels buscou saber como havia surgido a instituição da família e, baseado nas pesquisas do antropólogo estadunidense Lewis Morgan, escreveu “A origem da família, da propriedade privada e do Estado¨. Com o método do materialismo histórico, Engels concluiu que a família está longe de ser uma instituição natural, divina ou imutável. Ela se transforma de acordo com o modo de produção, a divisão do trabalho na sociedade e a instituição da propriedade privada.

E, quando se olha melhor, o incômodo aparece: a tal família “natural” funcionava desde que alguns aceitassem seu lugar sem discussão — especialmente as mulheres. Servia para cuidar, mas também para vigiar.

E então chega o Brasil contemporâneo. A Constituição de 1988 reconhece o óbvio: família não cabe em um molde único. O STF confirma — inclusive quando reconhece como família aquilo que antes fingiam não ver: casais homoafetivos, por exemplo. Assim, a realidade ganha autorização para existir.

Ainda assim, há quem fale em preservar a família “como sempre foi” — ignorando que ela nunca foi a mesma por muito tempo. Nos anos 1980, a socióloga Heloísa Lara Campos Costa, professora da UFAM e autora do livro “As Mulheres e o Poder na Amazônia” (EDUA.2005), fez uma pesquisa de campo, elaborando uma tipologia de vários tipos de família em Manaus

No fundo, não é a mudança que incomoda. É o fim da fantasia de permanência.

Enquanto tentam conservar o modelo original, a família faz o que sempre fez: muda.

E é mais ou menos aqui que a tradição entra — não como memória, mas como argumento. “Tradicional” resolve muita coisa. Dá peso, dispensa revisão. Parece que alguém já pensou antes — e isso basta. Na prática, tradição é repetição. Ou a narrativa da repetição — que nem sempre coincide com o que de fato aconteceu.

Funciona porque quase ninguém pergunta por quê. E, quando pergunta, ouve que não se mexe no que “sempre foi assim”. O problema é que muita coisa sobrevive não por ser boa, mas por falta de confronto. Outras nem são tão antigas: foram ajustadas, ensaiadas, embaladas — e depois vendidas como herança imemorial.

Nem tudo que parece eterno é velho. Às vezes, é só bem contado.

No mundo atual, tradição deixou de ser destino. Virou escolha — disputa espaço, negocia sentido. E a ironia é discreta: o que se diz imutável só continua existindo porque se adapta.

Brasil: entre discursos

E quando essa tradição encontra o Brasil, a coisa complica.

No papel, ser brasileiro é simples. Fora dele, não cabe em resumo. Existe um pacote pronto: língua, comida, música, futebol, novela, carnaval. Uma síntese simpática — e otimista demais.

A narrativa mais famosa fala de mistura: indígenas, europeus e africanos formando algo novo. Bonito. Quase harmônico.

Quase.

Ainda assim, essa ideia sustenta outra, mais confortável: a de que convivemos bem com nossas diferenças.

E, por muito tempo, isso bastou.

Há também o “jeitinho”: criatividade para contornar regras. Pode ser engenhosidade. Pode ser só flexibilidade demais.

No fim, ser brasileiro é viver entre o país que se conta e o país que se experimenta. E, às vezes, a história não segura. O problema é que o Brasil real não combina com o discurso.

Segundo o IBGE, cerca de 13,5% dos lares são chefiados por mães solo. Entre responsáveis únicos por filhos, mais de 80% são mulheres.

O DATASUS mostra que, no Brasil, quase metade das mães não está casada ao dar à luz — em Manaus, essa proporção sobe para 75%. Fica evidente que o pai, muitas vezes, não sabe — ou finge não saber. Não é coincidência. Quando o pai some na estatística, alguém precisa aparecer na vida real.

O comercial de margarina não desapareceu. Só deixou de ser maioria.

Na prática, o arranjo recorrente é outro: avó, mãe e criança.

Três gerações dividindo renda, cuidado e cansaço. Sem ideal. Sem slogan. Funciona porque precisa.

E, se se repete o suficiente, isso já tem nome. Mas raramente ganha o de “tradicional”.

Conheço uma história que não sai em comercial.

Dona Joana criou as filhas praticamente sozinha. O marido morava na mesma casa, sob o mesmo teto — o que, no papel, conta como presença. Na prática, não ajudava em nada. Não cuidava, não sustentava, não decidia — mas, no papel, ainda era o “chefe da família”.

Uma das filhas, Pietra, seguiu o caminho possível: teve uma filha, Eva, em produção independente — nome moderno para uma ausência antiga.

Três gerações. A mesma lógica.

E, se se repete o suficiente, caboco, isso já tem nome — mesmo que ninguém queira dar.

A pergunta que fica é: o que podemos esperar de uma Eva sem o Adão? E de quantas outras que vêm depois dela?

Família: quem fica

E é aqui que teoria, tradição e identidade começam a falhar. Porque a vida não precisa ser coerente — só precisa continuar.

Caboco, talvez a resposta seja menos elegante do que gostaríamos: família não cabe em definição.

Eu mesmo sou prova: de um lado, uma família barulhenta, onde o afeto vem em forma de intromissão; de outro, um núcleo silencioso, onde o cuidado quase não faz barulho.

Nenhuma delas cabe direito no dicionário.

No Brasil real, família nem sempre é quem mora junto ou divide sobrenome. É quem fica. Quem escuta. E, às vezes, quem chega sem avisar — e fica mesmo assim.

Perguntem à minha tia Dile se a Lusiene, amiga que conheceu no trabalho e com quem dividiu confidências, carinho e carões, não é família.

Perguntem à minha tia Teca se uma gaúcha, Beth Andrade, não pode ser irmã “legítima” de uma caboquinha manauara.

Pergunte a si mesmo se aquela pessoa, com quem você não divide DNA, mas segredos e dores, não gera sentimentos tão fortes e genuínos quanto os que você nutre por um parente querido.

Pois é, caboco, eu venho de uma família que adota sem formalizar, incorpora sem pedir licença. Vínculos que nenhuma lei explica — mas sustentam.

E então os filhos dos filhos chegam. E tudo muda de novo. Outra tradição. Não aquela que defendem.

Já ouvi que família é “o conjunto de parentes”. Sorri. Parentes, todos temos. Permanência é outra coisa.

Também já disseram que família é “quem mora junto”. Bonito. Mas teto abriga corpo — não garante vínculo. Já o vínculo pode vir com ou sem teto.

No fim, família é prática: é o café depois da briga, o colo sem razão, a mão que fica quando seria mais fácil ir.

Enquanto isso, minha querida amiga tenta entender, com método, por que tantas mulheres morrem no Amazonas.

Para meus pais, no momento, a pergunta é outra: quem sai do programa?

No fundo, caboco, a lógica é a mesma — só muda o cenário: quem fica e quem sai. A diferença é que, na televisão, existe regra no Big Brother Brazil. Aqui fora, não.

Ninguém vota no abandono. Ninguém abre enquete para decidir quem sustenta a casa. Ninguém elimina o pai ausente — ele apenas não aparece no capítulo seguinte.

A vida resolve sem anúncio: um cansa, outro some, outro nunca chega.

E os que ficam vão se organizando como dá — dividindo o pouco, herdando o peso, inventando continuidade. É daí que nasce a família que existe. Não a do discurso. Não a da propaganda. A que funciona.

E, no fim, talvez seja isso que incomode tanto: a família brasileira não é a que dizem preservar.

Família brasileira é a que resiste. Improvisada. Incompleta. Imperfeita. Às vezes exausta. Mas ainda de pé.

E, às vezes, caboco, isso precisa bastar.

Mesmo quando não basta.

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