CRÔNICAS

O Bloco do Túlio Maravilha: gol contra em plena avenida

Em: 16 de Fevereiro de 2026 Visualizações: 390
O Bloco do Túlio Maravilha: gol contra em plena avenida

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“Só contratemo quem num sabe nem chutá, / Parecemos muié de malandro,

 Só sabemo é apanhá”. (Demônios da Garoa “Time Perna de Pau”. 1969)

Caboco, é fevereiro. E já dizia Jorge Ben Jor: em fevereiro, tem carnaval. Mais uma vez o Brasil respira em coro — uma pulsação coletiva que faz desconhecidos se reconhecerem no mesmo compasso. As ruas viram praça pública de emoções, o sério vira riso, o alto desce e o baixo sobe. O carnaval é esse espelho deformado que a sociedade segura diante de si mesma para enxergar, com ironia e purpurina, as próprias formas.

É o tempo da crítica fantasiada, da inversão simbólica, do “e se fosse o contrário?”. O pobre vira rei, o quieto vira cantor, o anônimo vira estandarte. E o conservador, bem… às vezes continua conservador — só que fantasiado de si mesmo, sem perceber a sátira.

Foi pensando nessa tradição carnavalesca de expor contradições com alegria que resolvi criar o mais novo bloco das ruas: Bloco do Túlio Maravilha — “O Gol Contra”, que desfila amanhã com o enredo: “Eu poso nu, mas minha filha não entra na pública”. Vai ter confete, serpentina e, claro, muito VAR.

Cá estou eu, cá estou eu

Hoje a máscara cai — é na avenida

Bloco 1: carnaval como linguagem social

No Brasil, o carnaval nunca é só festa. É tese de doutorado com glitter. É tratado sociológico com serpentina. Durante alguns dias, o país faz um experimento coletivo: relaxa as normas, solta o corpo e observa o que acontece quando a fantasia parece mais sincera do que certos discursos proferidos o ano inteiro.

A rua vira laboratório — e o laboratório não tem jaleco, tem abadá. O que é proibido vira piada; o que anda separado se mistura; o que era cochicho vira refrão. De repente, o chefe dança atrás do estagiário, o sisudo aprende a sambar e o guardião dos bons costumes descobre que a fantasia também tem memória.

Do ponto de vista sociológico (sim, caboco, porque até a farra tem teoria), o carnaval é um ritual de suspensão temporária da ordem cotidiana. A hierarquia não desaparece; ela fica fluorescente. Quando o anônimo vira protagonista e o rígido vira brincante, o que aparece não é o caos — é o teatro que sempre esteve ali, ensaiado com seriedade fora da avenida.

A antropologia chama esse momento de limiar: um intervalo entre o que se é e o que se pode ser. Eu prefiro chamar de “zona franca da performance”. Ali, identidades ficam porosas. O executivo vira pirata, a influencer vira passista, o moralista vira… bem, o moralista continua moralista, mas agora com glitter na testa — e microfone na mão.

E é aí que o carnaval ensina algo perigoso: pertencimento sem roteiro. Gente que nunca se viu canta junto, ri junto, transpira junto, o suor é coletivo. A multidão deixa de ser estatística e vira experiência compartilhada. É quase pedagógico — só que sem banca examinadora para validar discurso.

Tem também o corpo. Durante o ano, ele anda domesticado: horário, postura, produtividade. No carnaval, ele pede independência. Dança, ocupa a rua, atravessa o espaço público como se dissesse: “também sou linguagem”. O que não encontra palco vira refrão. E o que não resiste ao ritmo… desafina.

Porque o carnaval não é fuga da realidade; é comentário em voz alta. A sátira não esconde o mundo, ela sublinha. A fantasia não nega a sociedade, ela amplia seus traços até que a gente perceba onde o discurso termina e começa o personagem.

Mas há uma inversão que nem a purpurina consegue produzir sozinha: a da coerência. A festa permite experimentar papéis — não permite apagar biografias. A máscara pode cair às quatro da manhã; a memória coletiva, essa acorda cedo e costuma assistir ao replay.

Quando a bateria cresce, a pose perde o compasso. Quando o coletivo pulsa, o discurso isolado soa como microfone chiando. E é nessa fricção — entre o que se encena e o que se sustenta — que a avenida deixa de ser só palco e vira espelho.

E espelho, caboco, não inventa rosto. Só reflete.

Se o carnaval amplia traços e ilumina performances, então a pergunta deixa de ser teórica: o que acontece quando o personagem público entra em conflito com a narrativa moral que o sustenta? Quando a encenação já não acompanha o discurso?

A avenida não cria a contradição, apenas a destaca em carro alegórico. E é nesse momento que o argumento sai da abstração e ganha nome, microfone e histórico de gols.

É aqui que o enredo deixa a teoria e entra em campo.

♫ Cá estou eu, cá estou eu

Hoje a máscara cai — é na avenida ♫

Bloco 2: a arte de fazer gol contra

Túlio Maravilha sempre foi um homem de gols. Muitos gols. Tantos que, em certo momento, a matemática pediu ajuda do VAR. No campo, centroavante. Fora dele, personagem fixo do folclore brasileiro — desses que veem um microfone e já aquecem a panturrilha.

Houve a celebridade, a performance midiática, os episódios que alimentaram o folclore. Mas, entre todos os capítulos, um pesa de modo diferente no debate público: a polêmica envolvendo uma ex-jornalista da TV Globo, que veio a público relatar episódio controverso ligado ao jogador — um caso amplamente noticiado e discutido, com versões, repercussões e questionamentos sobre consentimento e responsabilidade.

Não se trata de reconstituir processos nem de substituir instâncias formais. Trata-se de observar o contraste entre discurso moralizante e controvérsia pública. Quando alguém se apresenta como guardião de valores rígidos, a régua social sobe. A cobrança não nasce do escândalo em si, mas da incoerência percebida entre a narrativa proclamada e os episódios que a tensionam.

Nesse contexto, episódios performáticos tornam-se secundários. O ponto central é outro: como se constrói autoridade moral no espaço público e o que acontece quando essa autoridade convive com controvérsias que pedem explicação, empatia e responsabilidade.

E então veio a nova polêmica: a decisão de não permitir que a filha ingresse em universidade pública, mesmo aprovada em instituições de peso como UFRJ e UERJ. As justificativas? Segurança, estrutura, “valores familiares” (e aqui ponho muitas aspas) — e pronto: o país inteiro em mesa-redonda educacional.

Quando olhamos os números, a conversa ganha outra textura. No ranking global Center for World University Rankings (CWUR) de 2025 — que considera pesquisa, impacto científico, citações e empregabilidade de egressos — a UFRJ aparece na 331ª posição; a UERJ, na faixa dos 870; já a FGV, privada mais bem colocada do país, figura por volta da 880. Ou seja: as duas públicas em questão superam, em indicadores internacionais, a melhor privada brasileira.

E há mais: a UFRJ, uma das instituições recusadas, é também o lugar onde a professora e pesquisadora brasileira Tatiana Coelho de Sampaio vem ganhando destaque internacional pelo desenvolvimento de um tratamento promissor para paraplegia — um exemplo concreto de como a universidade pública brasileira produz ciência de ponta, com impacto humano direto. Quando o debate se reduz a estereótipos, perde-se de vista esse tipo de realização.

Fico imaginando a cabine do VAR analisando a trajetória do nosso artilheiro:

— Controvérsia pública envolvendo ex-jornalista? Lance sob revisão prolongada.

— Discurso moralizante como identidade política? Linha traçada no telão.

— Decidir onde a filha vai estudar? Direito legítimo da família.

— Transformar a escolha em deslegitimação do sistema público? Bola desviada — gol contra.

O ponto não é a decisão privada — é sua conversão em argumento público contra o comum, enquanto pendem perguntas sobre coerência e responsabilidade no próprio campo do discurso.

Cá estou eu, cá estou eu

Hoje a máscara cai — é na avenida

Bloco 3: quando a avenida vira argumento

O carnaval, tantas vezes criticado nos bastidores, oferece uma lição que atravessa a avenida: identidades podem ser performadas, mas a realidade cobra coerência. O trabalhador anônimo experimenta o anonimato criativo; o rígido aprende, por um instante, a fluidez. O intervalo não é fuga — é revelação.

Talvez por isso a festa seja mais do que pausa: é a própria sociedade se explicando com música, corpo e imaginação. E, ao final, quando a quarta-feira chega e os adereços voltam à gaveta, fica um resto de coragem compartilhada — a lembrança de que a ordem é construída e, portanto, pode ser repensada.

Minha posição é simples: sou, sim, a favor de que as “filhas de Túlios” espalhadas pelo país — famílias com recursos e discurso meritocrático afiado — estudem em universidades privadas. Que paguem suas mensalidades e deixem as vagas públicas para quem não tem alternativa. Praticado de verdade — e não só no palanque — isso pode produzir transformação social concreta.

Quanto ao Bloco do Túlio Maravilha, vai sair sim. Concentração no Largo da Hipocrisia, a partir das 17h. Porque, no Brasil, até a incoerência vira samba. E o samba, meu amigo, não perdoa. Deixo vocês com o nosso grito de guerra:

Não adianta fantasiar,

Gol contra vai pegar!

Não adianta discursar,

Que a avenida vai julgar!

 

Ô confete, ô serpentina,

Mostra a cara na esquina!

VAR chamou no telão —

É contradição! É contradição!

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2 Comentário(s)

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DOUGLAS PORTO comentou:
24/02/2026
Excelente análise do Carnaval como um todo, em seus meandros antropológicos e sociológicos. Foi muito oportuna a menção à tentativa do Túlio, que nem parece tão Maravilha assim, de cravar uma personagem tão contraditória quanto a de assumir essa postura decisória em relação às filhas, optando por escolas privadas, em detrimento das instituições públicas. Realmente, não entendi por que ele propaga de forma errônea a ideia de que, pelo fato de poder pagar, as filhas terão o que há de melhor, deixando a questão da lacração do Túlio Maravilha esboçar uma ideia torpe — nada mais comparável a um gol contra. E, realmente, apeguemo-nos então a essa perspectiva de apoiar as instituições públicas, que muito mais fazem e muito mais enaltecem o serviço e as milhares de pessoas e de filhas que não possuem o mesmo salário do até então astro futebolístico. Até então, pela condição de queda astronômica desse astro em relação à minha perspectiva pessoal, imaginar que uma pessoa, um atleta, seja perfeito... Poderia dizer que é certa ingenuidade minha imaginar que um atleta seja perfeito e que haja continuidade de suas ações perfeitas em todas as outras fora de campo. Acredito que seja um erro ou uma possibilidade de análise distópica de todos que têm ídolos ou que enaltecem alguém de forma exagerada. Deixo aí, então, as minhas considerações de que isso não é verdade, de que a genialidade basicamente se resume àquele feito, àquela ação que se dá por execução continuamente, ou se trata de uma pessoa simples como qualquer outra, com erros como qualquer outra. E que, por isso, não deveria entrar em outras áreas das quais não faz jus ou não tem competência para tratar. Poderia somente limitar-se a falar alguma coisa de forma desportista e não emitir parecer em relação à nossa sociedade, deixando a sua opinião de forma bem particular e restrita à sua família. Aí, realmente, não traria nenhum transtorno, nem para si, nem para tantos outros que o seguem e que o visualizam como uma figura notável que deveria ser.
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Bruno Nobre comentou:
23/02/2026
Adorei o áudio. A "marchinha" vai ficar na minha cabeça.
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