. Existem pessoas que são singulares até no nome, o que facilita a sua identificação. Outros são plurais como o poeta Vinicius, que teve várias vidas, diversas profissões, diferentes casas, muitas mulheres
- "Marcus Luís Vinicius de Moraes, uni-vos" - brincava o saudoso humorista Stanislaw Ponte Preta, preocupado em juntar os cacos dispersos do poeta.
Com quatro nomes no plural e muitas vidas, Vinicius, no entanto, só tinha uma cara e uma carteira de identidade. Não é o que acontece com o atual governador do Acre. Ele tem dois nomes singulares – Orleir Cameli (PPR – vixe, vixe). É verdade que, entre um e outro, como um presunto em sanduíche, existe um Messias no plural. Orleir Messias Cameli possui várias caras, diversas identidades e um paneiro cheio de CPFs, que não correspondem à singularidade do seu nome, segundo denúncias publicadas pelo Jornal do Brasil e referendadas por seu concorrente O Globo.
Campeão de falcatruas
Os eleitores do Acre foram enganados. Eles votaram numa pessoa, cuja carteira de identidade expedida em 1980 pela Secretaria de Segurança Pública do Acre tinha o registro de número 27.282 e o CPF 224.854.573-00. Acontece que quem tomou posse foi outra pessoa, um tal de Cameli, um homônimo com identidade número 93.932 expedida em 1989 e CPF 189.263.802-97. Os eleitores hoje estão dizendo:
- Eu quero meu voto de volta.
Do paneiro de Orleir, aliás, têm saído muitos CPFs para o seu pai, Marmud Cameli e para os seus irmãos Francisco e Eládio, todos eles com vários registros fantasmas. De tal forma, que não sabemos exatamente quem foi que ganhou a licitação do governo do Amazonas para asfaltar a primeira parte da Br-174.
‘UM CAMPEÃO DE FALCATRUAS NA CADEIRA DE GOVERNADOR” – berra a manchete de página de O Globo (domingo 22/10), complementando com a manchetinha: “No Acre, Orleir Cameli completa dez meses de gestão acusado de 16 crimes contra o Erário. Dezesseis. O Ministério Público do Acre julgou procedentes as acusações de improbidade administrativa, peculato, descaminho, emprego irregular de verbas e rendas públicas, crimes de ameaça, contrabando, falsificação e oscambau a quatro.
O JB informa que os documentos encaminhados ao procurador-geral da República, com pedidos de denúncias das falcatruas no Superior Tribunal de Justiça, pesam 150 quilos. Ou seja, a média mensal de trambicagem do Orleir Cameli é de 15 quilos. Meio quilo de mutreta por dia, incluindo domingos, feriados e dias santos.
Por falar em dia santo, o bispo de Rio Branco, Dom Moacyr Grechi deu entrevista a O Globo. Ele é uma personalidade respeitada nacional e internacionalmente, pela sua seriedade, prudência e determinação. Demonstrou sua perplexidade sobre a maldição que se abateu sobre o Acre, cuja responsabilidade, para ele, é de alguém que tem o sobrenome de Mendes. Evidentemente não se trata do seu amigo, o seringueiro e ambientalista Chico Mendes, assassinado há sete anos por defender a floresta.
Cartel de Manaus
Calma, leitor (a), Ainda não é quem você está pensando. Vamos já chegar lá. O Mendes citado pelo bispo é Narciso Mendes, ex-deputado federal, empresário da construção civil, dono da TV Gazeta e de um jornal em Rio Branco. Ele estava falido. Quando uma das identidades de Cameli assumiu o governo, Mendes – o Narciso – ganhou quatro contratos públicos nos primeiros seis meses e faturou R$ 6 milhões.
- Trata-se de um homem reconhecidamente inescrupuloso” – disse Dom Moacyr. O prefeito do Rio Branco, Jorge Viana, confirma que Mendes é uma espécie de eminência parda de Cameli, que se elegeu com o apoio do poder econômico “apenas para fazer negócios nos quatro anos de mandato” (É do Acre mesmo que ele está falando ou do Amazonas?).
Narciso não é o único Mendes na vida de Cameli. Existem outros: o governador do Amazonas, Amazonino Mendes, apresentado como o coordenador do chamado Cartel de Manaus. Enquanto a empresa de Cameli ganha licitações do governo do Amazonas, a CAPA – Construções e Pavimentação Ltda.do Amazonas vence processos licitatórios lá no Acre para asfaltar o trecho da Br-364, que liga Rio Branco a Sena Madureira.
O esquema é esse: - “Tu me asfaltas aqui, que eu te asfalto lá. Assim ninguém dá muita bandeira”. Ou seja, fica tudo sob controle. Por isso, o governo do Amazonas há três semanas alugou o Lear Jet 55 da Líder Táxi Aéreo, colocando-o à disposição do Cameli. A sociedade é uma só.
Mas a impunidade, pelo menos no Acre, parece não ter funcionado. Apesar do apoio da maioria dos deputados estaduais, dificilmente Cameli concluirá o seu mandato, graças a ação conjunta do bispo, de três senadores e de mais de 30 entidades da sociedade civil, que se uniram para protestar e agir contra as falcatruas do governador. O Acre está nos dando uma lição.
Bom, a diferença é que no Acre atua também um procurador da República, Luís Francisco Fernandes de Souza, competente e corajoso. Jovem, com 33 anos, já foi ameaçado de morte, mas não desistiu de lutar contra a corrupção. Cabra macho é esse aí. A propósito, em que pé estão os processos contra os vereadores ressarcidos de Manaus? E as ações contra as fraudes eleitorais? Por que o deputado Luís Fernando fica gritando sozinho contra o roubo da merenda escolar? Quanta inveja do Acre!
P.S. 1 – Com muito atraso (e decepção) li a entrevista ao jornal A Crítica do médico Jesus Pinheiro, domingo, 15 de outubro. Ele perdeu uma boa oportunidade de ficar calado. Quem não tem coragem para assumir uma posição crítica, não deve falar. Admite que Alfredo Nascimento – o Cabo Pereira – que não é da área e não entende bulhuifas de saúde, é melhor do que ele próprio, Jesus, porque tem mais poder para “tocar o nosso projeto de saúde pra frente”. Nosso quem, cara pálida? Parece que ele nada entendeu do que aconteceu. Vai ver acredita mesmo na farsa do Terceiro Ciclo.
P.S. 2 – E o deputado Belarmino Lins, gente! Vocês viram? Andou dando entrevistas aos jornais, defendendo a manutenção da estabilidade dos servidores públicos. Ele justifica: “Em última hipótese e na expectativa de um Brasil moderno, posso até considerar o fim da estabilidade apenas para os futuros funcionários públicos”. Eta PFL 9vixe vixe) arretado! O Belarmino Tribulins, cuja família já empregou sogra, cunhado, filhos, cachorro, papagaio e neném de dois meses, defende a estabilidade legislando em causa própria. O Brasil moderno é para os outros. A família Lins prefere ficar mesmo naquele Brasil atrasadão, onde seu irmão Átila pode transferir funcionários fantasmas da Assembleia Legislativa para o TCM. Se a tribo dos Lins defende, minha gente, é porque nós devemos ser contra.