Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Se gritar pega ladrão / Não fica um, meu irmão!”
(trecho da música Reunião de Bacanas de Os Originais do Samba)
Caboco, o Congresso Nacional gosta de se apresentar como a casa do povo, o espelho institucional da nação que representa. Ali, em tese, deveriam morar o exemplo, a responsabilidade e o sentido mais básico de serviço público. Mas talvez por viverem cercados de tapetes, assessores e privilégios, nossos representantes tenham esquecido que o país real não nasce no plenário, ele nasce no chão duro da vida comum.
E isso é curioso, porque o Brasil não sofre de falta de referências éticas. Elas só não usam gravata nem ocupam mesa diretora. Estão nas escolas, nos postos de saúde, nos ônibus lotados, nas casas onde o salário mal chega ao fim do mês, mas ainda assim sobra dignidade. Se o Congresso tivesse a humildade de olhar para fora de si — não no sentido de hierarquia, mas de realidade — talvez entendesse que governar também é aprender com quem serve sem blindagem, sem holofote e sem imunidade moral.
Se o Brasil fosse um romance realista, o Congresso Nacional seria aquele personagem que aparece pouco, mas toda vez que entra em cena alguma coisa cheira mal. Não é vilão clássico — desses que riem alto e confessam crimes —, é pior: age com a tranquilidade de quem sabe que o palco é seu e que o público já cansou de vaiar.
Enquanto o país se vira para pagar aluguel, comprar gás e fingir que a inflação é só um conceito econômico distante, nossos nobres representantes se dedicam a um esforço hercúleo: legislar em causa própria. Protegem a si mesmos, abrem brechas para amigos, estendem salvaguardas para familiares e chamam isso de estabilidade institucional. Não o povo. Pra si e para os seus.
Vergonha alheia
Veja a tal PEC da Blindagem, por exemplo. O nome oficial é outro, mas o apelido pegou porque descreve bem a coisa. A proposta basicamente diz o seguinte, em bom português: se um parlamentar fizer besteira, calma lá, deixa a turma decidir primeiro se ele merece ser julgado. É como se um ladrão precisasse da autorização do bando antes de ser preso. Um arranjo elegante, corporativo, quase com cara de cooperativa do crime familiar.
E não se trata de exagero retórico. Trata-se de uma mudança concreta nas regras do jogo, desenhada para dificultar investigações, atrasar processos e, no limite, normalizar a impunidade como prerrogativa hereditária. Tudo isso aprovado em sessões onde a palavra “democracia” é dita com a mesma naturalidade com que se protege um aliado e se esconde o voto.
Não por acaso, no último dia 14, o país voltou às ruas. Gente comum, sem mandato e sem foro, ocupando praças e avenidas para lembrar o óbvio: democracia não é salvo-conduto para autoridade errar sem consequência. Mas não foram apenas as críticas ao Congresso e à Blindagem que impulsionaram aquela mobilização. A votação às pressas — e na madrugada — do chamado PL da Dosimetria na Câmara dos Deputados virou estopim da explosão de indignação popular. A proposta, vista por muitos como uma forma de anistiar ou atenuar punições a figuras envolvidas na tentativa de golpe de Estado, provocou uma reação imediata em cidades de norte a sul do país.
E aí é que entra um dado perverso do nosso tempo: o cidadão comum está acumulando cargos. De segunda a sexta, exerce aquele que lhe garante o sustento — trabalha, paga impostos, sustenta o Estado. Nos fins de semana, assume outro, não remunerado e nada simbólico: o de manifestante, vigia da democracia, corretor de desvios de um Congresso inapto a cumprir sua função básica. Protestar virou atividade extra, imposta pela omissão de quem deveria representar.
Vale reconhecer que, diante dessa escalada de pautas e da urgência de ocupar as ruas em poucas horas, setores organizados da esquerda política e dos movimentos sociais mostraram capacidade notável de articulação. Em questão de poucos dias, frentes como a Brasil Popular e a Povo Sem Medo, junto a sindicatos, coletivos estudantis e partidos aliados, conseguiram convocar e organizar atos em dezenas de municípios, reunindo dezenas de milhares de pessoas em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília e outras.
Essa resposta rápida e coordenada nos lembra que, mesmo num cenário adverso, existe quem ainda saiba transformar indignação em mobilização efetiva — algo que a política institucional, naquele Congresso, parece ter esquecido faz tempo.
Enquanto isso, no plano local, a política segue operando com instrumentos que o cidadão comum jamais terá. Em Cuiabá, o prefeito Abilio Brunini decretou calamidade financeira, reconhecendo oficialmente um rombo bilionário, ao mesmo tempo em que afirmou que não precisaria da ajuda do presidente da República. Em Manaus, David Almeida moveu-se em sentido oposto: buscou um empréstimo de cerca de um bilhão de reais, autorizado por lei, negociado com organismos internacionais, com toda a engrenagem institucional à sua disposição.
São decisões diferentes, contextos distintos, mas um ponto em comum salta aos olhos: ambos dispõem de poder, caneta, estrutura jurídica, acesso a crédito e blindagem política para agir — acertem ou errem. Ambos operam em um patamar de recursos, prerrogativas e proteção que está a anos-luz da vida comum.
Ainda há esperança
Mas aí, caboco, deixa eu te puxar pelo braço e te levar pra longe de Brasília — e também pra longe dos gabinetes climatizados das prefeituras. Não muito longe, para Manaus. Pra uma escola municipal de educação especial chamada André Vidal.
Lá não tem decreto de calamidade, nem linha de crédito internacional, nem coletiva de imprensa. Tem sala de aula, rotina pesada e uma professora de 40 horas semanais — minha irmã. Ela não tem foro, não tem assessoria, não tem empréstimo bilionário, não tem como empurrar dívida pra frente nem como terceirizar responsabilidade.
Ela faz aniversário em novembro. Não pediu festa, não pediu perfume, não pediu nada pra si. Pediu aos amigos e familiares um favor simples e direto: “se puderem, me ajudem a fazer um Natal pros meus alunos e pras famílias deles”. Sem discurso. Sem slogan. Sem hashtag. Nenhum benefício pessoal envolvido.
O resultado? 35 cestas básicas. 35 panetones. 35 presentes. Um banquete simples, mas digno, construído por gente comum trabalhando em conjunto para favorecer o próximo — não a si mesmos. Nada disso saiu de emenda parlamentar, de verba secreta, de decreto emergencial ou de empréstimo internacional. Saiu de uma rede de cuidado organizada fora do poder, mas a serviço da vida real.
Enquanto gestores contam com estruturas milionárias para administrar crises que muitas vezes ajudaram a criar, minha irmã contou apenas com confiança, afeto e solidariedade. Enquanto autoridades escolhem entre pedir ajuda federal ou contrair dívida bilionária, ela lidou com a única realidade que conhece: a de quem precisa resolver o problema com o que tem — e mesmo assim resolve.
Enquanto congressistas usam o mandato para proteger amigos, aliviar parentes e blindar colegas, ela usou o pouco que tinha — e mobilizou quem estava ao redor — para ampliar o Natal de quem quase nunca entra na conta do Estado.
O contraste dói porque revela uma inversão clara de papéis. Os representantes eleitos, cercados de meios e privilégios, frequentemente falham em servir ao coletivo. O cidadão trabalha durante a semana e protesta no fim dela. E uma professora, sem mandato, sem proteção e sem poder algum, acaba representando sozinha aquilo que o serviço público deveria ser.
No fim das contas, caboco, talvez o maior abuso do Congresso — e de parte da política institucional — não seja uma PEC, um decreto ou um empréstimo bilionário. É ter terceirizado sua função moral para gente como minha irmã — e para milhares de cidadãos que, além de sobreviver, ainda precisam lembrar o óbvio.
Ela não legislou. Não decretou calamidade. Não tomou empréstimo. Não blindou ninguém. Apenas ensinou a diferença entre servir a si e servir ao próximo.
PS: Enquanto o Congresso acelera a PL da anistia para proteger interesses políticos, mantém em ritmo lento projetos que tratam de direitos básicos. O PL 1901/2022, que garante refeições adequadas a estudantes da rede pública, e o PL 277/2016, que tem como objetivo facilitar a entrada de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, seguem parados. A diferença de velocidade revela uma prioridade perversa: há urgência para livrar responsabilidades, mas morosidade calculada quando o tema é dignidade, justiça social e direitos fundamentais.
