CRÔNICAS

A chacina do Rio: patins, dor e indiferença

Em: 03 de Novembro de 2025 Visualizações: 1518
A chacina do Rio: patins, dor e indiferença

 

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

"Na sociedade atual, ter a consciência tranquila passou a ser sinal de alienação." (Henrique Brito, conversa de bar).

 

Minha filha tem aulas semanais de patins — um esporte radical que deixaria seus avós ainda mais aflitos, se isso fosse possível. De vez em quando, ela chega em casa com hematomas pelo corpo e um sorriso nos lábios, afirmando não sentir dor alguma. Mas, na última quinta-feira, foi diferente.

Ela chegou chorando, com uma grande dor no peito. Pensei que tivesse tentado realizar alguma manobra difícil sem sucesso. Perguntei onde doía e ela, aos prantos, respondeu:

— A dor é no coração, papai. Minha instrutora de patins, a quem tenho em grande estima, ao comentar a chacina do Rio, disse que era totalmente indiferente ao caso.

Minha filha, que sempre viu sua instrutora como uma mulher forte — uma patinadora que quebrou tabus, enfrentou uma sociedade conservadora e se tornou um símbolo de rebeldia a ser seguido — se decepcionou profundamente.

— Pai, como ela pode ser indiferente? A vida não é o bem mais precioso? Ela é cristã! O que Cristo faria? Será que Ele acharia certo matar ou ser indiferente?

Fiquei em silêncio. Olhei para ela — o rosto ainda molhado de lágrimas, as joelheiras pendendo dos ombros. Senti, então, o peso de um tempo em que a dor alheia virou ruído de fundo. Como explicar a uma adolescente que a indiferença virou moda? Que “bandido bom é bandido morto” virou slogan de governo ? Que a lucidez agora é um esporte radical — e sem capacete? Dane-se o mundo que eu não sou Raimundo?

 

A barbaridade

O que aconteceu no Rio não é novidade — e talvez isso seja o mais triste. Há décadas, as chacinas se repetem como se o país tivesse perdido a capacidade de aprender com o próprio horror.

Em 1993, os tiros da Candelária silenciaram oito crianças que dormiam nas calçadas do Centro. Pouco depois, em Vigário Geral, vinte e um inocentes foram fuzilados enquanto jantavam, rezavam, tocavam violão.

Nos anos seguintes, em Nova Brasília, em 1994 e 1995, o Estado entrou atirando e deixou corpos e órfãos espalhados pelo Alemão.

Veio a Baixada, em 2005, com vinte e nove mortos numa só noite — recorde de brutalidade e covardia.

Depois, o Jacarezinho, em 2021, com vinte e oito corpos num beco onde moravam sonhos.

E o Salgueiro, no mesmo ano, onde nove vidas foram retiradas do mangue como se não fossem vidas.

Muda o nome da favela, mas o roteiro é o mesmo: a polícia entra, o governo aplaude e o povo enterra seus filhos. Enquanto isso, os verdadeiros chefes do crime, de terno e gravata, aliados de alguns governos, seguem com o sangue limpo nas mãos bem lavadas — e a consciência esterilizada. Esses bandidos não são bons, por isso não são mortos.

Durante e depois da chacina, a comunidade fica em suspenso — como se o ar ficasse mais pesado e o tempo parasse. As portas se fecham cedo, as crianças faltam à escola, os hospitais e postos de saúde adoecem, os comércios abaixam as grades antes do pôr do sol. O barulho dos helicópteros substitui o canto dos passarinhos, e os tiros ecoam na memória mesmo quando o silêncio volta.

Os moradores, que já vivem com pouco, passam a viver com mais medo. O menino que jogava bola na rua agora não sai mais de casa. A mãe que vendia quentinhas perde o sustento porque a polícia “ainda não liberou a área”.

A aprendizagem do medo se dá até nas creches. A neta de 3 anos de um morador da favela, quando um carro passou na rua com o tubo de escape furado disparando uma sequência de rajadas, atirou-se no chão gritando: - Tiro, tiro.

 E o luto se espalha sem cerimônia — não há velório, não há tempo, não há justiça. Mas a violência não brota do chão — ela é plantada. A falta de escola, de emprego, de moradia digna e de lazer são sementes férteis para tragédias. Quando o Estado desaparece das políticas públicas e aparece apenas de farda e fuzil, ele ensina que o medo vale mais do que a esperança.

Mas há algo mais profundo, invisível, sustentando essa indiferença. Talvez tudo isso tenha relação com o que os psicólogos chamam de Teoria do Gerenciamento do Terror — a ideia de que, diante da lembrança constante da morte, as pessoas se agarram às suas crenças, ideologias e símbolos para tentar se proteger do medo. Assim, o horror da violência não gera empatia, mas reforça fronteiras: o “nós” e o “eles”, o “cidadão de bem” e o “bandido”.

É um escudo psicológico: ao ver a morte do outro, fingimos estar mais vivos. Ao negar a humanidade de quem sofre, acreditamos preservar a nossa.

E o governo do Rio acha que vai resolver tudo isso matando. Ou finge achar. Porque é mais fácil vender segurança do que construir justiça. Mais rápido mandar o caveirão do que reformar a escola. Mais barato enterrar meninos do que garantir que tenham um futuro.

E, como se não bastasse o descaso oficial, há ainda quem transforme a ignorância em espetáculo. Influenciadores sem conhecimento científico, social ou humano — como o ignóbil Arthur do Val, ao afirmar que “a criminalidade é culpa da mãe do criminoso” — multiplicam preconceitos e desumanizam quem já nasceu à margem. Suas palavras, ditas com o verniz da irreverência, alimentam a crença de que pobreza é pecado e a violência, castigo. Assim, colaboram para a chacina mais silenciosa de todas: a da lucidez.

Diante de tanta repetição da dor, talvez o mais grave não seja a violência em si, mas o que ela tem feito conosco — o esvaziamento do sentir.

O sentimento

Parece que o Brasil desaprendeu a sentir.

Vivemos um tempo em que a dor precisa de audiência para ser reconhecida. O sofrimento, se não viraliza, não comove. A tragédia precisa de trilha sonora e legenda indignada para - quem sabe? - durar até o próximo clique.

A empatia virou um luxo de quem ainda pode parar para pensar. E a comoção, um produto que se consome antes do jantar.

Mas a dor — a verdadeira dor — não se mede em curtidas nem em manchetes. Ela mora nos becos onde a bala perdida sempre acha um corpo. Nos olhos de quem enterra um filho e volta pra casa com a roupa coberta de pó e silêncio. Mora, também, nas perguntas de uma menina que ainda acredita que o amor é o centro do mundo — e se espanta ao ver adultos tratando a vida como descartável.

Quando minha filha me perguntou como alguém podia ser indiferente, pensei em responder com teorias, com política, com filosofia. Mas percebi que tudo o que eu precisava dizer cabia num gesto simples: abracei-a. E, naquele abraço, compreendi que talvez amar seja o último ato de lucidez possível num país que banalizou a barbárie.

Porque o dia em que o amor deixar de doer, meu caboco, será o dia em que deixaremos de ser humanos.

E talvez, até lá, o melhor que possamos fazer seja continuar tentando manter o equilíbrio — mesmo que o chão seja áspero.

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

5 Comentário(s)

Avatar
Céu Freire comentou:
06/11/2025
Muito bom. Um chute na minha consciência
Comentar em resposta a Céu Freire
Avatar
Gina Nakamura comentou:
06/11/2025
Texto muito bonito e tocante, levando a reflexões profundas sobre a nossa humanidade
Comentar em resposta a Gina Nakamura
Avatar
Valter Xéu comentou:
06/11/2025
Publicado no Portal PATRIA LATINA - https://patrialatina.com.br/a-chacina-do-rio-patins-dor-e-indiferenca/
Comentar em resposta a Valter Xéu
Avatar
José Bessa TKPT comentou:
04/11/2025
Uma pergunta ao ilustre articulista de quem sou fiel leitor e admirador: É possível reciclar o lixo político formado por parlamentares e governadores pilantras? Em caso afirmativo, como agir? Sua crônica me inspirou essa pergunta.
Comentar em resposta a José Bessa TKPT
Avatar
Douglas Pôrto comentou:
03/11/2025
Tão triste quanto a trágica chacina, é o desamparo de uma criança diante de alguém que deveria lhe preparar para a vida. E que, ao invés de usar de sensibilidade e empatia, usufrui da desfaçatez de um sórdido "bem feito". Cabe-nos então reagir com indignação às reações antipedagógicas, antipáticas, antiéticas e antihumanas."
Comentar em resposta a Douglas Pôrto