Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades.”
Stan Lee — e o prefeito Davi parece não ter lido a HQ.
Nos dias 05, 06 e 07 de setembro, Manaus vai viver um “festival histórico”. Não fui eu que disse — eu não teria essa cara de pau. Esse é o slogan oficial do “Sou Manaus”: Viva esse festival histórico. E a história, convenhamos, é mesmo memorável. Não pelos artistas que vêm — Bruno e Marrone, Joelma, Ivete Sangalo, Gusttavo Lima, Paula Toller, Paralamas do Sucesso — mas pelo roteiro repetido: gastar milhões, oferecer migalhas e chamar de cultura.
Sim, milhões. Segundo estimativas veiculadas pelo D24AM, em 12 de julho de 2025, a prefeitura deve desembolsar no mínimo R$ 17 milhões com o evento.
David Almeida insiste que quase 80% do custo será coberto por patrocínios, como se isso o eximisse da responsabilidade de cuidar do povo manauara, dos bairros sem esgoto e da parcela considerável de conterrâneos que sobrevive em extrema pobreza — quase meio milhão de manauaras, segundo o sistema de Consulta, Seleção e Extração de Informações do Cadastro Único (CECAD).
Mas não se enganem: eu não sou contra manifestações culturais. Muito pelo contrário. Sou radicalmente a favor da cultura — da cultura que é raiz, memória, identidade. Cultura é resistência. Nietzsche dizia que ela é “a unidade de estilo em todas as manifestações da vida de um povo”. Pois bem, qual é o estilo que estamos cultivando aqui? Um estilo importado, embalado para o Instagram, vendido em 10 vezes sem juros no cartão corporativo da Prefeitura.
Enquanto isso, a cultura que pulsa nas ruas, nos bares, nos becos e nos igarapés é deixada de lado, esquecida. Os bois-bumbás, as cirandas, as guitarradas, os batuques que resistem no Educandos, os cantadores do São Raimundo, os artistas que vivem da rua e para a rua — todos esses seguem com orçamentos de edital que mal pagam uma lona de circo.
Por um breve instante, acreditei que algo pudesse mudar quando Tenório Telles assumiu a presidência do Concultura e começou a elaborar o primeiro Plano Municipal de Cultura de Manaus. Nascido na beira do Solimões, Tenório tem a sensibilidade de quem foi alfabetizado pelo Preto Gerdião, um grande músico e de quem se tornou um excelente crítico literário. Aceitou o cargo certamente movido por um ideal, por um compromisso com a cidade e com os artistas que sempre defendeu. Mas entendi perfeitamente sua saída. Não há poesia que resista à máquina pública quando ela é movida por vaidade, desinteresse e marketing. E mais uma vez, a oportunidade de uma política cultural séria escorreu pelo ralo.
É por isso que acredito que movimentos como o Festival do Pirão — que celebra a cultura independente e dá visibilidade a bandas como Beira Choro, Trialis, Los Matrinxãs e Casa de Caba, com suas 36 edições — é muito mais Manaus do que o “Sou Manaus”.
Pergunte, maninha: algum jovem já ouviu falar em alguma dessas bandas?
Pergunte, mano velho: alguém ainda se lembra do Peteleco ou do Tio Barbosa?
Pergunte, parente: será que alguém ainda lembra do Carrossel da Saudade?
Pergunte, vizinho: e me diga, quantos de nós nos orgulhamos de descender dos povos Baré e Manaó?
Pergunte, caboclo: como era a vida antes da Zona Franca?
Papai sempre repetia uma frase da historiadora Emília Viotti da Costa, exilada e aposentada pela ditadura militar de 64:
“Um povo sem memória é um povo sem história. E um povo sem história está fadado a cometer, no presente e no futuro, os mesmos erros do passado.”
Sendo assim, prefeito Davi, apesar do teu descaso com a docência, te aconselho a implorar por algumas aulas com a professora Etelvina Garcia. Quem sabe ela não possa te ajudar? Fala com ela e, se ela topar, me leva junto — afinal, conhecimento nunca é demais.
Ah, mas para o “Sou Manaus”, aí sim o caixa abre fácil. Milhões voam como fogos sobre a Ponta Negra, enquanto metade da cidade está inscrita no CadÚnico, e 453.408 pessoas vivem com até R$ 109 por mês. Apenas 50,6% dos domicílios têm rede de esgoto — mas quem precisa de saneamento quando temos drones filmando multidões cantando “Evidências”?
Porto de Lenha… Tu nunca serás Liverpool. Com a cara sardenta e olhos azuis.
Essa frase do Aldísio Filgueiras, celebrizada por Torrinho, deveria ecoar como um lembrete para Manaus: nossa cidade não precisa copiar ninguém. Culturas sempre aprendem umas com as outras. É importante o diálogo intercultural, mas sem subserviência, sem vira-latismo. Manaus deve ter identidade própria, valorizar seus artistas, suas tradições, seu povo. Não precisamos de palco importado para sermos grandes — precisamos ser nós mesmos.
E se esses R$ 17 milhões fossem investidos de verdade na cultura local? Pagando artistas e grupos manauaras, garantindo que o dinheiro circule no comércio e na economia da cidade, promovendo eventos culturais ao longo do ano em espaços públicos e nos bairros, fortalecendo a memória e a identidade de Manaus? Cada real voltaria para a cidade, geraria empregos, movimentaria o comércio local, ocuparia praças, museus, escolas e igarapés. Isso sim seria cultura de verdade: descentralizada, inclusiva, viva, palpável — não apenas luzes e palco para turistas.
Como diz Milton Nascimento, “o artista deve ir aonde o povo está”. Pois é exatamente isso que falta aqui: cultura que encontra o povo, que acontece nos bairros, nas praças, nos igarapés — não só no Instagram e nos camarotes elitistas.
E tem mais: a maior cidade do Norte, dona do maior PIB da região, tem também um dos teatros mais lindos do Brasil — o Teatro Amazonas, nossa joia renascentista. Um monumento à opulência de um passado que cheirava a látex e borracha. Mas hoje, ironicamente, o Teatro serve muito mais como cenário para cartão-postal do que como espaço democrático de cultura. O pobre não entra. O manauara real, de chinelo gasto e suor no rosto, fica do lado de fora, olhando o mármore, tirando selfie na escadaria. Cultura, aqui, é para inglês ver. Literalmente.
No dia 5 de setembro, celebramos a elevação do Amazonas à categoria de Província — marco de autonomia e desenvolvimento. No dia 7, gritamos “Independência ou morte!”. Mas autonomia, de fato, temos pouca. Independência, então, só nos cartazes. Continuamos dependentes de migalhas, viciados em pão e circo, anestesiados por refrões externos que nada dizem sobre quem somos.
Porque ser manauara não é gritar “Viva esse festival histórico” ao som de Ivete Sangalo. Ser manauara é enfrentar blackout no meio do verão de 40 graus, remar contra a maré dos igarapés entupidos, criar filhos em bairros onde a água chega de vez em quando — mas a conta de luz nunca falha. Ser manauara é saber que temos o encontro das águas mais lindo do mundo, mas vivemos cercado de esgoto a céu aberto.
O que mais me espanta é a naturalidade com que aceitamos tudo isso. Favelas crescem, a fome aumenta, a cidade racha — mas a prioridade é garantir o camarote VIP para cantar “Balada Boa” com Gusttavo Lima.
Sou Manaus, sim. Mas não sou essa Manaus vendida, plastificada, com palco importado e cultura terceirizada.
Sou a Manaus que exige mais do que drones e holofotes. Quero dignidade antes do festival, saneamento antes do palco, educação antes do camarote. Quero cultura que pertença à cidade, que circule entre seus habitantes, que valorize seus artistas e sua história. Cultura que vá aonde o povo está — e não apenas onde o Instagram e os holofotes mandam.
Manifestação cultural, sim. Indústria cultural de baixa qualidade, não. Porto de Lenha não será Liverpool.
Com a cara sóbria e olhos vivos, Manaus precisa olhar para o próprio reflexo — o povo que remenda redes, canta nas praças, dança nos igarapés, cria cultura com suor e alegria. Se quisermos ser históricos, que seja por nós mesmos — não pelo brilho de um palco importado. Que a cidade respire, cante e viva a sua própria história.
Ou Manaus canta a própria história, ou continuará sendo apenas figurante no espetáculo dos outros.
Referencias:
https://d24am.com/politica/gestao-david-almeida-vai-gastar-pelo-menos-r-14-milhoes-com-shows/
https://www.manaus.am.gov.br/noticia/cultura/lancamento-o-soumanaus-passo-a-paco-2025/

