CRÔNICAS

CPI dos ressarcidos: "vagabundo, moleque, sem-vergonha"

Em: 05 de Abril de 1994 Visualizações: 2085
CPI dos ressarcidos: "vagabundo, moleque, sem-vergonha"

Acho que estamos no caminho certo, leitor (a).

Olha só. Vê se tenho razão. Há anos, criticamos semanalmente – e tu és testemunha e cúmplice disso – o comportamento desavergonhado de políticos do Brasil e especialmente do Amazonas, dando nomes aos bois e aos bodes. Nunca, nenhum deles reagiu, o que provoca enorme frustração. A gente fica sem saber se a coluna Taquiprati está efetivamente cumprindo o seu papel crítico e colaborando para a mudança da prática política no Amazonas.

Nos últimos dois anos, caímos de pau, com vigor, na prática imoral dos ressarcimentos, que permitia a apropriação de quase dois milhões de dólares dos cofres públicos, por vereadores delinquentes, segundo o relatório de Ari Moutinho Jr., passíveis de enquadramento em crimes previstos no Código Penal, tais como peculato (art. 312), formação de quadrilha ou bando (art. 288) e uso de documentos falsos (art. 304).

Nenhum membro da quadrilha deu um pio. Pensei com meus botões:

— Será, meu Deus, que o que escrevo não tem a menor repercussão? Por que os denunciados não abrem a boca para a polêmica, não escrevem, não telefonam...?

Quando já estava para mergulhar no mais absoluto desânimo, eis que o presidente da Câmara Municipal de Manaus, Omar José Abdel Aziz, um dos vereadores ressarcidos com recibos falsificados, reagiu e resolveu falar. Ele se sentiu atingido porque defendemos a quebra do sigilo bancário dos vereadores envolvidos.

O meu informante Jelter Picanço me enviou por Correio cópia do discurso pronunciado por Omar Aziz, na reunião da CPI dos ressarcimentos que varou a madrugada do dia 10 de março. A cópia que só recebi no dia 2 de abril, sábado, começa com uma descrição.

O cenário

Sala de sessões da Câmara Municipal. No alto, pendurado na parede, um crucifixo. Coitadinho de Jesus! Além de crucificado, ser obrigado a ouvir o que ouviu. Por detrás da mesa, três bandeiras hasteadas. Atenção. Vai subir à tribuna o vereador ressarcido com recibos falsos, Omar José Abdel Aziz. Psiu! Silêncio, leitor (a). Vamos ouvi-lo:

Sou um ressarcido e nunca neguei. É público. Por isso, deixa a gente triste, me entristece esse negócio de quebrar o sigilo bancário. É muito fácil pedir a quebra do sigilo bancário. Peço a compreensão dos senhores vereadores para essa questão. Parece uma coisa muito simples, muito fácil dizer: vamos lá, vamos pedir. Mas não é assim não. Não é fácil quebrar o sigilo. Aquelas pessoas que querem pedir a quebra do sigilo dos outros, devem pedir também a deles”.

Em seguida, Omar Abdel se volta desproporcionalmente contra a “nota de um vagabundo que está no Rio de Janeiro”, citando-me nominalmente e me mimoseia com alguns adjetivos de seu reduzido vocabulário: “moleque, sem vergonha, safado, mau-caráter, dedo-duro e falsário”. Acusado, ele, de apresentar recibos falsos para os ressarcimentos, confunde os meus diplomas com o de seu colega de partido, Ronaldo Tiradentes. Termina com ameaças de agressão física, para a qual usará “todas as armas possíveis”.

Sem comentários. O discurso desarticulado revela muito mais sobre o estofo intelectual e moral de seu autor do que contra quem se destina a sua verborragia. Confunde luta política com truculência e bandidagem. O Omar está morrendo de medo de ter seu sigilo bancário e fiscal quebrado, senão seu coração não estaria carregado de tanto ódio, sua cabeça não estaria tão embaralhada e não diria tantas leseiras. O que prova que eu e tu acertamos na mosca, leitor (a). Eu, porque teimo em escrever. Tu, porque me honras com a tua leitura. Parece que estamos incomodando.

Tadinho do Omar. Não compreendeu nada. Juro que me deu uma peninha, já que ele também, como o cachorro do Magri, é um ser humano. Ele está desesperado porque deram um flagrante nele. Se entendi bem, ele está nos chamando de vagabundos. Aí é demais, leitor (a). Não tira o loló da seringa, não. Tu leste o que escrevi e aprovaste. Te peço que perdoes o pobrezinho. Ele não sabe o que faz.

Sigilo bancário

O discurso desalinhavado do Omar peca no conteúdo e na forma, com falhas de concordância com a gramática e com a verdade, o que demonstra que, até para caluniar, é preciso ter talento. Apesar de ninguém levar a sério o Omar José Abdel Aziz, decidi requerer, através de advogado, cópia oficial do seu discurso, para interpelá-lo judicialmente. Ninguém, mesmo um cara desacreditado como o Omar, pode jogar lama, impunemente, em quem quer que seja, muito menos num filho da dona Elisa.

Para poder compreender o que está acontecendo, supunhetemos que o Aziz tenha legitimidade por estar falando como especialista que é em vagabundagem e falsificação. Aceitemos, como puro exercício mental, que sou moleque, falsário e dedo-duro. Admitamos, leitor (a), que tu e eu somos vagabundos.

E daí? Minha Santa Periquita! Em que a nossa vagabundagem invalida a necessidade de quebra de sigilo bancário dos ressarcidos? Como disse a combativa vereadora Vanessa Grazziotin, “por que não abrir as contas bancárias para que as pessoas acusadas possam provar sua inocência? Quem não aceita esta proposta, é porque teme a continuidade do processo de investigação”.

O Omar ameaçou que ia me dar porrada. Desafiei-o, na gozação, para um duelo de cascudos na praça São Sebastião (ele não compareceu). Agora, faço um desafio de verdade. Publicamente, estou colocando à disposição do vereador Omar José Abdel Aziz as minhas contas bancárias, as minhas declarações de renda e os meus diplomas, se ele me deixar dar uma espiada — só uma espiadinha, Omar — em suas contas bancárias.

Se ele não topar o desafio, fica caracterizado definitivamente que tem culpa no cartório. Poderei, então, me dirigir aos eleitores, sobretudo do bairro de Aparecida, para dizer-lhes: amigos, o Omar Aziz está enganando vocês. Lembro que ele saltou e distribuiu com vocês migalhas do ressarcimento, não votem nele. Voltem em Jefferson Péres, Aloysio Nogueira, Vanessa, Serafim, Ari Moutinho. Não votem em ressarcidos.

O que o Omar José Abdel Aziz não entendeu ainda — parece que comeu caroço de tucumã — é que nossa crítica não é pessoal. Ela está dirigida a um determinado tipo de prática política, que foi muito discutida na semana passada na XIX Reunião da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), realizada na Universidade Federal Fluminense.

Em uma abordagem antropológica da corrupção, Marcos Bezerra, da UFF, apresentou um trabalho sobre “As bases sociais da corrupção no Brasil” e Guilherme Rogel, da UFRJ, discutiu “Embasamento cultural de práticas corruptas”.

Analisando o caso “Coroa-Brastel” e o caso “Valença”, Bezerra tenta explicar as práticas corruptas e corruptoras como resultado não somente de conduta desviante de pessoas ou da ação de quadrilhas, como sugerem as interpretações moralistas, Ele procura ver os fundamentos de tal degradação nas instituições e nos laços sociais como o parentesco, a amizade, as alianças políticas e a troca de favores. E opina que estas práticas estão, pelo menos temporariamente, incorporadas ao modo de operar do próprio Estado. Rogel chega às mesmas conclusões, estudando o “escândalo da mandioca”.

No caso dos ressarcimentos, Omar colocou na CPI o Ari Moutinho Jr., achando que por pertencer ao seu partido político, o caso seria abafado. Esqueceu-se que Moutinho é filho do Ari e sobrinho do Tude. O Tude é doido maravilhoso, maluco-beleza e, como o Ari pai, profundamente honesto. Deu no que deu: formação de quadrilha.

Quanto aos adjetivos de Omar José Abdel Aziz à minha pessoa, só posso escrever, num nível em que ele possa compreender, o seguinte: Vai cheirar teu pé, vai, Omar. Vai te catar. Abre tuas contas bancárias, eu abro as minhas e depois conversamos na Justiça. Vai ser, no mínimo, curioso: o ressarcido vai me ressarcir por danos morais.

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1 Comentário(s)

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Jelter Picanço comentou:
09/08/2025
Trinta anos depois, eis-me aqui outra vez. Olha como o bonde continua fora do trilho. Um projeto de lei apresentado à Mesa Diretora da Câmara Municipal de Manaus (CMM) no final de 2024 propõe estender o plano de saúde dos parlamentares da casa aos ex-vereadores. A proposta foi apresentada na terça-feira (12 de novembro) pelo atual presidente da Câmara, vereador Caio André (União Brasil), que não conseguiu se reeleger para o cargo. Ao justificar a proposta, o vereador Caio André explicou que o serviço foi solicitado por ex-vereadores que perderam o plano de saúde ao finalizar o mandato. Ele também destacou que essa situação se aplicará a ele a partir de 1º de fevereiro do próximo ano, quando deixará de ocupar uma vaga na próxima legislatura.
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