CRÔNICAS

Sim, sou vascaíno de corpo, alma e luta social

Em: 18 de Agosto de 2025 Visualizações: 2390
Sim, sou vascaíno de corpo, alma e luta social

     

 

Na semana passada, um sobrinho me visitou no Rio acompanhado de seu filho de 12 anos que joga na Escolinha do Vasco em Manaus, onde moram.   Nós três, vascaínos, fizemos uma visita guiada ao Museu de São Januário. Depois do jogo de ontem, ele escreveu o texto abaixo.            

 

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“O futebol pode, sim, ser uma ferramenta de alienação. Um “ópio do povo” versão camisa 10.

(Karl Marx, 1880)

Ontem, vi o Vasco golear o Santos por 6x0. Sim, seis a zero. E não era qualquer time. Era o Santos Futebol Clube. O time de Pelé. O time de Neymar. E olha… a alegria foi imensa. Aquela coisa que só o torcedor vascaíno entende — uma mistura de riso, choro, incredulidade e, claro, a velha frase: “agora vai!”. Mas depois da euforia, veio a reflexão.

No Brasil, torcer por um time não é bem uma escolha. É quase uma herança genética. Uma marca de nascimento. Eu me tornei vascaíno por causa do meu pai — herdei dele a camisa, os palavrões contra o juiz, o orgulho inabalável, mesmo nos piores momentos (e olha que não foram poucos). Mas sigo vascaíno — cada vez mais — por outro motivo: por tudo que o Vasco representa. Porque o Vasco, meu amigo… o Vasco é maior do que o placar.

Diferente de muitos clubes brasileiros que nasceram entre salões da elite, com suas origens aristocráticas e exclusivistas, o Vasco fincou suas raízes nos bairros populares do Rio de Janeiro, entre trabalhadores, estivadores, negros e imigrantes. Sua base foi construída no chão da cidade, nas mãos calejadas do povo. Isso não é detalhe — é identidade. É o que faz do Vasco não apenas um clube, mas um símbolo de mobilização social, de resistência e inclusão. O chamado “time do povo” não é um rótulo marqueteiro — é verdade histórica.

Recentemente, visitei São Januário. Não estava sozinho. Levei comigo meu tio — que é como um pai para mim — e meu filho, que, como eu, herdou o amor por esse clube maluco, sofrido, glorioso e gigante, gigante como a colina. Foi um passeio simples, mas carregado de significado. Três gerações de vascaínos pisando o mesmo chão onde a história foi escrita. Entre bandeiras, murais, e a estátua imponente do Roberto Dinamite, nos olhamos e entendemos: este clube é parte do que somos.

O Vasco sempre foi maior que o futebol. Foi o time que, em 1924, enfrentou o racismo de peito aberto, recusando-se a aceitar as regras que excluíam negros e operários. Quando a liga quis expulsar o clube por isso, o Vasco saiu e fundou sua própria liga — porque abaixar a cabeça nunca foi opção. Essa coragem ecoa até hoje.

O Estádio de São Januário também não nasceu de presente. Foi construído com o suor da torcida. Com rifa, doação, esforço coletivo. Um estádio levantado por gente que amava um ideal, não por empresários de gravata nem por governo de ocasião. E foi lá, nesse mesmo palco, que Getúlio Vargas anunciou as leis trabalhistas. Coincidência? Duvido. Onde mais ele poderia fazer isso, senão no estádio do clube que nasceu lutando pelos excluídos?

Em momentos difíceis — e não foram poucos — o Vasco sempre buscou se reafirmar como uma força que representa os grupos marginalizados. Mesmo nos tempos de rebaixamento, de crise financeira, de zombarias da imprensa, o clube nunca abriu mão de sua missão: usar o futebol como ferramenta de inclusão e afirmação social. É por isso que, mesmo quando tudo parece ruir, o Vasco encontra força onde ninguém espera. Porque esse clube carrega nas veias a história dos que resistem.

E essa tradição continua viva. Em 2025, num campeonato em que apenas seis times entre os vinte da elite tiveram coragem de se posicionar a favor da democracia — adivinha quem estava entre eles? Sim, o Vasco. Porque o Vasco não tem medo de se posicionar. É time que apanha e levanta. Que perde a Série B e, no ano seguinte, bota faixa de campeão da igualdade no peito.

E veja só o que aconteceu no final da goleada contra o Santos. O técnico do Vasco, com a vitória no bolso e os aplausos em alta, foi até o principal jogador santista — claramente abalado, olhos marejados, talvez questionando a carreira — e o consolou. Abraçou. Conversou. Teve empatia. Porque aqui a gente vence, mas não humilha. Aqui a gente lembra que do outro lado também tem ser humano. E esse gesto singelo, mas imenso, é a cara do Vasco: acolhedor, solidário, humano. O time que sempre abraçou os rejeitados. Que fez da exclusão uma força. Que fez da diferença, identidade.

A goleada, por mais surpreendente que tenha sido, não é só um placar. É um manifesto. É uma reafirmação da identidade vascaína de superação e resistência. Mostra que, mesmo com menos recursos, mesmo enfrentando desafios estruturais e financeiros, o Vasco ainda pode vencer com força e espírito coletivo. É como se cada gol dissesse: “estamos vivos, estamos aqui, e ainda temos muito a dizer.” E não só sobre futebol — mas sobre o Brasil que luta para não ser esquecido.

Agora, sejamos honestos: nem tudo são flores. O futebol brasileiro, como tantas outras paixões populares, virou mercadoria. Transformaram o campo em vitrine, o torcedor em consumidor, o clube em empresa. Os jogos são em horários absurdos, não porque faz sentido para o torcedor, mas porque dá audiência. Os ingressos estão pela hora da morte. Os estádios viraram shoppings com grife, e o povão — aquele que sempre sustentou o futebol — foi empurrado para fora.

E no meio dessa engrenagem, a gente vê a mão do capital: investidores estrangeiros que não sabem nem pronunciar “São Januário” comprando clubes centenários como se fossem startups. Jogadores virando marcas. O futebol, tão nosso, tão de raiz, tão de barro, virando produto gourmetizado.

Daí a frase escrita por Karl Marx, depois de assistir um jogo no Wembley Stadium, em Londres:

- O futebol pode, sim, ser uma ferramenta de alienação. Um “ópio do povo” versão camisa 10.

Algum idiota da objetividade pode perguntar:

- Onde ele publicou essa frase?

 Busco a resposta em Eduardo Galeano no seu livro “O caçador de histórias”, no qual ele cita outra frase de Marx: - “Na história, como na natureza, a podridão é o laboratório da vida”. Quando o tradutor pediu que indicasse a referência bibliográfica, Galeano depois de passar um pente fino nas obras do barbudo alemão, nada encontrou e admitiu:

- A frase é de Marx, só que ele esqueceu de escrever.

 

Ópio do povo  

Enquanto a gente vibra com o gol no último minuto, o preço da passagem sobe, a saúde colapsa, e os corruptos brindam com champanhe em Brasília. A paixão pelo futebol vira cortina de fumaça. A emoção intensa pode virar anestesia política. A grande mídia foca na emoção, mas silencia sobre os despejos, as dívidas públicas, as obras superfaturadas da Copa, as bizarrices sustentadas e incentivadas pelo lado podre do agronegócio.

Mas nem tudo está perdido.

O futebol ainda pode ser resistência. Pode ser território de encontro, trincheira de luta, símbolo de identidade. Cabe a nós — torcedores, imprensa alternativa, sociedade civil — não engolirmos o espetáculo sem digerir a crítica. Usar o futebol como espaço de mobilização, reflexão, de questionamento, de afeto. No mesmo livro, Galeano caça uma história intitulada A bola como instrumento, em evento ocorrido em 1980 com a conquista do “Mundialito” pela seleção do Uruguai

A publicidade da ditadura vendeu a vitória como se os generais tivessem jogado. Mas foi então que nas arquibancadas a multidão se atreveu a gritar, pela primeira vez, depois de sete anos de silêncio obrigatório:

-Vai acabar, vai acabar, a ditadura militar.                                                                                 

 

A resistência

Nesse campo, o Vasco continua sendo farol. Ser vascaíno é isso: é resistir com amor. É cantar mesmo no rebaixamento. É entender que a camisa preta com a faixa branca em diagonal não é só estética — é manifesto. Aquela faixa, que corta o peito da esquerda para a direita, lembra as faixas das placas de proibição: proibido parar, proibido estacionar, proibido ser diferente. Mas no caso do Vasco, ela diz o contrário. Ela não proíbe — ela denuncia. É como se dissesse, com elegância e firmeza: proibido excluir. Proibido discriminar. Proibido deixar o povo de fora. É o símbolo de um clube que nunca aceitou as regras quando elas serviam apenas para manter a velha elite cruel no topo e os outros do lado de fora do campo.

Pisar no gramado de São Januário, ao lado do meu tio e do meu filho, foi uma experiência que eu nunca vou esquecer. Três vascaínos, três tempos da vida, unidos por um clube que não é só clube — é causa. É comunidade. É história viva. Ali, entre um mural e outro, entre a memória e a esperança, entendi: torcer pelo Vasco é mais do que acompanhar um time. É escolher, todo dia, o lado da dignidade.

E sim, golear o Santos por 6x0 foi lindo. Foi gostoso. Foi catártico. Mas mais bonito ainda é saber que o Vasco não joga só para ganhar. Joga para lembrar ao Brasil que, mesmo em meio ao caos, ainda dá para acreditar. Ainda dá para resistir. Ainda dá para sonhar.

E se for para sonhar… que seja com a faixa no peito, com o povão no estádio, com democracia nas arquibancadas — e, claro, com mais 6x0 históricos pra lavar a alma.

Porque torcer pelo Vasco é isso: é chorar, sorrir e lutar. É entender que o futebol, quando é do povo, pode ser muito mais do que jogo — pode ser revolução.

Ver também: Que time é teu? Vasco e as rezas da mãe - https://www.taquiprati.com.br/cronica/921-que-time-e-teu-vasco-e-as-rezas-da-mae

 

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6 Comentário(s)

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José Amaro Junior comentou:
11/09/2025
Sou flamenguista, mas adorei a crônica. Não diz isso pro Daniel Negão.
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Douglas comentou:
26/08/2025
Super concordo, praticamente uma narrativa histórica e emotiva por uma paixão nacional. Sem deixar a crítica social antes ao vilipêndio uso de uma das poucas diversões da massa. Maravilha.
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SUSANA MARTELLETTI GRILLO GUIMARAES comentou:
24/08/2025
Bessa, que alegria ler esta crônica às 23 horas. Que belo fim de domingo... Com uma análise do futebol, pela perspectiva do Vasco, de um ponto de vista que recupera a raiz e o vigor de seus valores sociais, hoje comprometidos, esmaecidos pelo "futebol espetáculo", pelo "futebol empresa", tentando fazer esquecer sua história, seus compromisso com a inclusão, com a dignidade da vida humana... Valeu, Bessa. O artigo de seu sobrinho recuperou essa grande história do Vasco, articulando três gerações no esforço de valorizar as origens do time e manter as marcas dessa trajetória social de grande valor. Abraços de uma flamenguista
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Rodrigo comentou:
19/08/2025
Excelente texto, definiu com maetria o sentimentos de todos os vascainos do Brasil e do mundo.
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Luciana Velloso comentou:
19/08/2025
Texto perfeito! Parabéns Bessa! E saudações vascaí
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Isaías Vascaíno de Juiz de Fora comentou:
19/08/2025
A família inteira escreve bem é? Que texto bonito!
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