.“Estão abertas as inscrições do concurso para matadores de ratos. Salário inicial, US$ 66 dólares mensais. Número de vagas: 70”
Este insólito concurso foi promovido recentemente pela Prefeitura de Bombaim, segundo informações do jornalista americano Tim McGirk, em artigo publicado no jornal USA Today e traduzido pela Folha de São Paulo neste último domingo, dia 2 de janeiro.
Bombaim é a capital do estado de Maharashtra, na região oeste. Está para a Índia, assim como a cidade de São Paulo está para o Brasil. Concentra o maior parque industrial do país: fábrica de automóveis, de adubos, de material mecânico e eletrônico, de produtos químico-farmacêuticos, têxteis e siderúrgicos.
Maior porto do país, maior produtor de antibióticos da Ásia, maior centro mundial de comercialização de algodão, maior produtor mundial de filmes de longa-metragem, Bombaim, com seus 10 milhões de habitantes, dos quais um terço mora em favelas, é também o maior ninho de ratos do Mundo. E possui um dos maiores exércitos de desempregados do Planeta.
De noite, milhões de ratazanas bigodudas, famintas e agressivas saem dos esgotos, descem das favelas situadas nos morros da cidade, mordem as crianças que dormem nas ruas e devoram tudo o que encontram. Ultimamente começaram a invadir os bairros europeus, com suas ruas largas e residências de luxo.
Por isso, a Prefeitura decidiu exterminá-los, contratando matadores de ratos. Para as 70 vagas, apresentaram-se mais de 40 mil candidatos, metade deles com diploma universitário conferido pela Universidade de Bombaim, criada em 1857 e que concentra a maior escola de matemáticos e físicos de toda a Ásia.
Os conhecimentos adquiridos nos bancos escolares e nas bibliotecas não tiveram a menor utilidade para o concurso. A banca examinadora avaliou apenas a audição e a habilidade motora dos inscritos, porque para matar ratos é necessário unicamente ter bom ouvido para detectar o chiado e a habilidade do manejo do porrete.
O método de extermínio usado na Índia é simples e artesanal, parecido até com aquele usado na caça ao jacaré no Amazonas. O matador focaliza a cara do rato com uma lanterna e depois plaft — dá-lhe uma cacetada com um porrete de bambu.
O salário de 66 dólares só será pago se o funcionário municipal conseguir liquidar diariamente, pelo menos, 25 ratos. Ora, se 70 pessoas matam 25 ratos por noite, são mortos 1.750 ratos diariamente, o que dá um total anual de 638.750 ratos exterminados, trabalhando-se aos sábados e domingos. O que já é um bom começo, mas insuficiente para acabar com todos eles, que tem grande capacidade de reprodução.
Éguate! Por que estou ocupando o teu precioso tempo, leitor — se é que a tua leitura chegou até aqui — multiplicando ratos mortos lá na casa do cacete? Pois é, né, rapaz!
Pensando na resposta a tal pergunta, me lembrei do pintor belga surrealista René Magritte, falecido em 1967 aos 70 anos de idade. Mais precisamente na célebre tela, em que ele, com uma técnica de representação de imagem estritamente realista, pintou um cachimbo e escreveu embaixo: “Isto não é um cachimbo” (Ceci n’est pas une pipe).
Da mesma forma, os ratos de Bombaim não são os ratos de Bombaim. Eles representam a degradação das relações sociais capitalistas com sua esteira de miséria e desigualdade. Mas, sobretudo, eles nos permitem uma analogia.
No momento em que as escolas públicas estão desmanteladas, os hospitais sem leitos, os salários de professores e médicos aviltados, os trabalhadores sem emprego e crescem a fome e a miséria, porque um grupo de “roedores” espertalhões criou mecanismos para desviar e se apropriar das verbas públicas destinadas a fins sociais, o papel da imprensa é focalizar os “ratos” dos orçamentos nacional, estadual e municipal, identificando-os dentro do Congresso Nacional, das Assembleias Legislativas, das Câmaras de Vereadores, das empreiteiras, dos bancos, dos palácios de Governo em todo o País.
Com a esperança de que em 1994 possamos exterminar os ratos da política, inaugurando relações eticamente válidas, essa coluna — que tem orgulhosamente como bons vizinhos o Gilson, no mesmo andar aqui ao lado e a Baby, no térreo — mantém seu compromisso de continuar questionando neste ano os roedores do Amazonas, os municipais e os estaduais, consciente de que são ratazanas atrevidas e agressivas. Elas atacam. Vocês vão ser só como elas atacam.
PS. Agradecemos, um pouco tarde, o seguinte telegrama enviado por respeitável leitor: “Parabéns pela crônica ‘O Destino de Auristino’. Somente o seu talento me faz rir ao lembrar certas caricaturas políticas que fazem nossa pobre gente chorar. Feliz do Auristino que não nasceu para ser como eles. Cordialmente. Leopoldo Péres Sobrinho”.