CRÔNICAS

Os índios, o bispo e os canibais

Em: 24 de Março de 1995 Visualizações: 2172
Os índios, o bispo e os canibais

O primeiro bispo do Brasil, D. Pero Fernandes Sardinha, naufragou no litoral brasileiro e, segundo algumas fontes históricas, foi devorado pelos índios Caetés. Isto ocorreu na metade do Século XVI.

Hoje, os canibais são outros. Quem quer devorar o bispo é uma outra “tribo”, essa sim, selvagem e antropófaga, que usa paletó e gravata: a “tribo” dos grupos interessados em apropriar-se das terras indígenas para explorar suas riquezas. O bispo em questão é dom Aldo Mongiano, de Roraima.

Acontece que os índios Makuxi, Wapixana, Ingarikó e Taurepang ocupam as terras conhecidas como Raposa/Serra do Sol, no Estado de Roraima, desde muito antes da chegada do primeiro branco. Segundo Joaquim Nabuco, graças a essa ocupação, essas terras hoje fazem parte do Brasil.

- “Os peitos dos índios foram as muralhas dos sertões” – escreveu Nabuco, esclarecendo que holandeses, ingleses e espanhóis, vindos das Guianas, teriam penetrado na região se não fossem os indígenas e hoje ela não seria mais Brasil. Os índios serviram assim de garantia para que Roraima fizesse parte do território nacional.

Como os povos indígenas têm a posse imemorial da terra, a Constituição de 1988 reconheceu o direito deles e determinou que fossem demarcadas, justamente para impedir as invasões. O bispo de Roraima, D. Aldo, tem apoiado com serenidade, mas com firmeza, esse direito constitucional dos índios.

Por esta razão, dom Aldo tem sido vítima de todo tipo de calúnias espalhadas por grupos econômicos fortes e bem ramificados que querem explorar jazidas de minério nas terras indígenas e lutam para impedir a sua demarcação. Eles acusaram dom Aldo de guerrilheiro, responsável pelos conflitos na área, quando na realidade toda a confusão está sendo causada por eles, os “fora-da-lei” que se recusam a obedecer a um preceito constitucional.

A campanha contra dom Aldo e a Igreja de Roraima é canibalesca, mentirosa e sórdida. No dia 8 de março, o “Jornal Nacional” desinformou milhões de telespectadores em todo o País, repetindo mentiras que são a negação do verdadeiro jornalismo. A CNBB mandou uma carta à TV Globo, pedindo uma retificação da “notícia” plantada pelos grupos econômicos e não foi atendida em sua reclamação, segundo informações de D. Luciano Mendes, sábado último, na “Folha de São Paulo”, em artigo intitulado: “Desagravo ao bispo de Roraima”.

Já foi dito, com muita propriedade, que quem quer conhecer bem esse País deve estudar as sociedades indígenas. Os indígenas constituem um indicador extremamente sensível da natureza da sociedade brasileira, de sua estrutura e de sua dinâmica. No relacionamento com os povos indígenas o Brasil se revela, mostra sua verdadeira cara.

Agora mesmo o Brasil está mostrando sua cara. Uma face é monstruosa e está apodrecida. São os canibais de terno e gravata que querem exterminar os indígenas. A outra, é o lado sadio do País, representado por centenas de milhares de pessoas que assinaram documentos, exigindo a demarcação das terras indígenas. D. Aldo está do lado bom e sadio. Nós precisamos com toda a clareza explicitar nossa solidariedade a ele, para que continue apoiando o cumprimento da Constituição, com a demarcação da Reserva Indígena Raposa/Serra do Sol. Só assim os índios e os roraimenses terão paz.

.

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário