Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
Para Erika Hilton, que renova nossas esperanças em um mundo melhor
“Deus está morto. Deus permanece morto. E nós o matamos!”
(Friedrich Nietzsche)
Caboco, percebi um ritual de alguns brasileiros que pouco aparece nos livros de História: sentar para assistir ao Roda Viva já tendo decidido o que vai pensar. O sujeito entra no programa para ouvir e sai confirmando o que já acreditava antes da vinheta. Se gosta do entrevistado, chama de lucidez. Se não gosta, chama de militância. Se não entendeu nada, escreve “perdeu meu respeito” e segue a vida.
Foi nesse “espírito científico” de absoluta abertura intelectual que resolvi assistir à entrevista com a mulher trans e deputada federal Erika Hilton, exibida em março deste ano.
Para quem chegou agora ao campeonato nacional das guerras socioculturais, Erika ocupa um lugar curioso no imaginário brasileiro. Para uns, é símbolo de renovação política; para outros, símbolo de tudo que imaginam estar errado na política contemporânea; e para uma terceira parcela — talvez a mais sensata — é apenas uma deputada tentando sobreviver ao Congresso Nacional, que não é exatamente um ambiente reconhecido pela retidão moral ou pela serenidade budista.
O cenário era o de sempre: bancada em círculo, perguntas embaladas em tom de curiosidade acadêmica e aquele clima de jantar de família em que todos juram que querem conversar, mas cada um já trouxe sua conclusão dentro da marmita.
E aqui eu quero te dar a minha impressão sobre o programa.
Porque havia uma disputa acontecendo ali que era maior que a entrevistada.
Erika não parecia interessada em disputar apenas o papel de personagem da pauta identitária. Havia um esforço claro — desses que aparecem mais no jeito de responder do que no conteúdo explícito — de se apresentar como algo mais amplo: alguém falando sobre Estado, desigualdade, democracia, representação e organização social.
Em outras palavras: sair do lugar de “tema” para ocupar o lugar de “projeto”.
E aí começou a parte realmente brasileira da entrevista.
O episódio
As perguntas tentavam frequentemente retornar ao indivíduo. A trajetória pessoal. A identidade. A experiência. Mas várias respostas insistiam em fazer um desvio quase automático para estruturas maiores. Era como perguntar para alguém se está chovendo e receber uma análise do sistema de drenagem urbana.
Falou-se sobre representação política, e a ideia apresentada foi simples de entender e difícil de executar: ocupar espaço importa, mas ocupar espaço sozinho não resolve nada. Não basta trocar quem senta na cadeira se a cadeira continua servindo o mesmo cardápio institucional. O argumento parecia ser que presença sem mudança concreta vira decoração democrática — bonita na fotografia, inútil na prática.
Vieram então os temas sociais obrigatórios do nosso tempo: violência, desigualdade, direitos, exclusão, políticas públicas e a eterna pergunta nacional sobre quem deve o quê e a quem. Em determinado momento apareceu uma crítica ao ambiente político contemporâneo e à transformação do debate público numa espécie de coliseu digital onde cada cidadão acredita estar salvando a República com um comentário escrito durante o intervalo do almoço.
A frase que mais circulou depois foi a ideia de que o ódio perdeu o pudor.
E convenhamos. Num país em que gente adulta escreve “destruiu no argumento” em vídeo de um minuto de dois desconhecidos brigando na internet, talvez não seja uma observação completamente absurda.
Mas foi quando apareceu religião que a entrevista saiu do campo previsível e entrou naquele território radioativo onde, no Brasil, convivem teologia, marketing, algoritmo e CNPJ.
Porque, ao contrário do que muita gente resumiu depois, a discussão não parecia ser contra igrejas ou contra evangélicos em geral. Até porque atacar a fé popular no Brasil seria estratégia eleitoral comparável a abrir restaurante vegano dentro de churrascaria rodízio.
O alvo parecia outro.
Cafetões da fé
No instante em que ouvi essa expressão no programa, imaginei metade do Brasil abrindo o dicionário e a outra metade abrindo processo. Porque “cafetão” é uma dessas palavras que não entram na sala: arrombam a porta. Não é termo técnico, não é categoria sociológica, não é crítica administrativa. Ninguém ouve “cafetão” e pensa em problema de governança institucional. A palavra chega carregada de julgamento moral, de exploração, de alguém que lucra em cima da necessidade alheia.
E talvez tenha sido exatamente por isso que a expressão pegou.
Mas, ouvindo com atenção, me pareceu que a deputada não estava falando daquela senhora que vende bolo depois do culto para arrecadar dinheiro para o encontro dos jovens. Nem do rapaz que chega cedo para abrir a igreja, ligar ventilador e passar pano no salão antes do início da celebração. Não era uma crítica à fé popular. E ainda bem. Porque atacar a fé do povo brasileiro seria uma estratégia tão inteligente quanto vender aquecedores residenciais em Manaus.
O alvo parecia outro.
Parecia ser aquela figura que transforma esperança em modelo de negócio, sofrimento em plano de expansão e espiritualidade em produto escalável. O personagem que descobre que consolar dá trabalho, mas prometer retorno dá audiência. Que oração é importante, mas testemunho com trilha sonora converte mais.
É uma figura curiosa, esse cafetão da fé.
Ele nunca vende religião. Ele vende acesso. Não vende Deus. Vende fila preferencial. Não oferece transcendência. Oferece plano premium. É a bênção com cashback. O milagre parcelado. A proximidade exclusiva com o céu em parcelas que cabem no bolso e vencem todo dia cinco.
E aqui aparece uma ironia histórica difícil de ignorar.
Porque o fundador do cristianismo não era exatamente conhecido por acumular patrimônio. Cristo andava a pé, cercado de pescadores, criticava ostentação religiosa, não apedrejava prostitutas e expulsava comerciantes do templo. Não consta nos evangelhos que tenha aberto franquia da salvação nem lançado campanha “sete passos para destravar sua vida financeira”. Muito menos, ter adquirido 107 imóveis com metade sendo comprados com dinheiro a vista. Aliais, Cristo nunca teve um banco, um país, nem mesmo uma única casa.
Dois mil anos depois, parte do mercado religioso parece ter concluído que a melhor maneira de homenagear um carpinteiro pobre era construir um ecossistema de monetização espiritual.
Não estou dizendo que riqueza é pecado. Se fosse, gerente de banco já vinha com acompanhamento pastoral embutido no financiamento. O problema não é ganhar dinheiro. O problema começa quando prosperidade vira certificado de santidade e pobreza passa a parecer defeito moral.
Porque aí a pergunta muda. Sai “como servir aos pobres?” Entra “como provar que fui abençoado?”
E talvez seja isso que a expressão “cafetões da fé” tenta denunciar: não o encontro entre espiritualidade e recursos materiais, mas a transformação da necessidade humana por sentido em oportunidade de negócio.
Religião e espiritualidade
E aqui, caboco, mora uma distinção importante demais para passar despercebida: Uma coisa é fé. Outra coisa é comércio da fé. Uma coisa é espiritualidade. Outra coisa é monetização da transcendência.
O cidadão que acorda cedo, pega ônibus lotado, entra numa igreja, num centro espírita, num templo, num terreiro ou numa roda de oração para pedir força para continuar vivendo merece respeito. A mulher que acende vela pelo marido desempregado. O senhor que agradece por mais um dia. A mãe que procura consolo pela perda do filho. O jovem angustiado que sofre com as vicissitudes do cotidiano.
Essa gente não merece deboche.
A fé popular brasileira, gostem ou não os cínicos profissionais, sustenta muita gente quando política falha, economia aperta e psicólogo não cabe no orçamento. Mas justamente por isso o uso da religião para enriquecimento ou poder causa tanto desconforto.
E talvez o tamanho dessa sensibilidade diga algo sobre o lugar que a religião ocupa no país. O IBGE mostrou, com base no Censo 2022, que o Brasil possui mais estabelecimentos religiosos do que estabelecimentos de saúde e de ensino juntos: são cerca de 579 mil templos e espaços religiosos, diante de aproximadamente 247 mil unidades de saúde e 264 mil estabelecimentos de ensino. O dado não mede fé, nem qualidade de atendimento, nem presença social — mede endereços. Ainda assim, revela algo importante: religião, no Brasil, não é fenômeno periférico. É infraestrutura simbólica, rede comunitária, linguagem política, espaço de pertencimento e, inevitavelmente, também espaço de disputa por influência.
Ao longo dos anos apareceram personagens diferentes ocupando esse lugar ambíguo entre espiritualidade, mercado e influência. Alguns se tornaram símbolos da chamada teologia da prosperidade, aproximando fé, mídia e lógica empresarial. Outros transformaram autoridade espiritual em plataforma política. Outros ainda foram envolvidos em episódios públicos que levantaram perguntas éticas profundas.
Silas Malafaia virou um dos rostos mais conhecidos da mistura entre púlpito, comunicação e influência política. Valdemiro Santiago ficou marcado no imaginário nacional por campanhas religiosas controversas e pela capacidade quase sobrenatural de transformar qualquer objeto em possibilidade de testemunho — lembra, caboclo, do feijão que curava covid? Já R. R. Soares ajudou a consolidar o televangelismo como linguagem religiosa de massa.
Recentemente, tivemos o “caso Master”, que envolve o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, e suas fortes ligações com a Igreja Batista da Lagoinha. O escândalo revelou transações suspeitas, uma fintech ligada à igreja e repasses milionários que resultaram no fechamento de uma unidade da congregação.
Em outro registro, João de Deus se tornou símbolo de algo talvez mais doloroso: não da riqueza, mas do colapso da confiança espiritual quando autoridade vira instrumento de abuso.
E até o papado — numa escala histórica completamente diferente — convive há séculos com uma pergunta desconfortável: como uma tradição fundada nas ações de um pregador pobre administra estruturas tão grandiosas sem perder o vínculo com sua origem?
Mas seria injusto terminar aí.
E seria confortável imaginar que esse casamento entre fé e poder mora apenas na televisão ou em templos gigantes do sudeste brasileiro.
Mas não mora. Manaus também conhece essa liturgia.
Por aqui, aprendemos que existe político que descobre Deus com uma frequência curiosamente sincronizada com o calendário eleitoral. Multiplica versículos, visita púlpitos, participa de conferências, agradece ao Senhor em discurso e, terminado o culto, volta para a gestão como quem deixa o figurino no camarim.
Não estou falando do eleitor que vota guiado pela fé. Nem do religioso que entra na política — democracia é justamente isso. Estou falando do governante que percebe que capital espiritual e capital eleitoral podem ser administrados na mesma planilha.
David Almeida, que publicamente se apresenta como cristão e já falou sobre a importância da presença religiosa na vida pública, não é fenômeno isolado. É personagem de um modelo que o Brasil conhece bem: o político que sobe ao altar em busca de legitimidade e desce para pedir votos.
Talvez por isso uma frase atribuída a Cristo continue tão desconfortável dois mil anos depois: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.”
Porque, olhando para certas cenas da política brasileira, às vezes dá a impressão de que alguns resolveram atualizar o versículo:
a Deus, o discurso;
a César, o orçamento;
e ao marqueteiro, todo o resto.
E aí mora o problema. Quando religião entra na política para humanizar o poder, ela presta serviço. Quando entra para blindar o poder, presta desserviço.
Porque existe o outro lado. Existem padres organizando cozinha solidária. Existem pastores visitando hospital sem fotógrafo. Existem lideranças religiosas sustentando comunidades inteiras sem aparecer em ranking nenhum. Existem pessoas comuns que fazem mais evangelho numa quarta-feira chuvosa do que muito empresário da fé em dez temporadas de programa televisivo.
Talvez por isso os cafetões incomodem tanto. Porque sequestram uma linguagem que não inventaram. Pegam palavras como amor, esperança, milagre e salvação — e colocam etiqueta de preço, com QR Code, código de barras e data de validade.
Benção final
No fim, fechei o computador com aquela sensação estranha que o Roda Viva às vezes produz. A entrevista parecia ser sobre Erika Hilton. Mas talvez fosse sobre nós. Sobre esse país que continua sem decidir se quer líderes, sacerdotes, influenciadores ou vendedores.
E, apesar de tudo, saí menos pessimista do que entrei.
Porque existe algo curioso acontecendo no Brasil: entre muito barulho e muito espetáculo, começaram a aparecer figuras públicas tentando fazer o caminho inverso. Em vez de transformar identidade em trincheira, tentam transformá-la em ponte. Em vez de transformar religião em mercado, tentam devolvê-la ao campo do cuidado.
Erika Hilton, concorde-se ou não com suas posições, me parece representar um esforço de dizer que representação não pode virar vitrine institucional. Que ocupar espaço não basta. Que política não deveria servir apenas para administrar a realidade, mas para disputar o seu sentido. E tudo isso com uma inacreditável fluência verbal e discursiva de derrubar poste.
E o padre Júlio Lancellotti e o pastor Henrique Vieira aparecem para muita gente como outro sinal interessante. Não porque sejam donos da verdade — desconfio profundamente de qualquer pessoa que acorde convencida disso — mas porque insistem em uma ideia quase revolucionária para os nossos tempos: fé não precisa ser medo, e religião não precisa ser empreendimento.
Num país acostumado a ouvir que Deus está sempre do lado do mais forte, do mais rico ou do mais influente, talvez exista alguma beleza em lembrar que os evangelhos contam justamente a história de alguém que preferia mesa compartilhada a camarote.
Talvez seja ingenuidade. Talvez seja pouco. Talvez seja apenas uma fresta. Mas país nenhum melhora quando abandona completamente a esperança. E esperança, ao contrário do que alguns vendedores profissionais da fé descobriram, não se compra. Se constrói: com política, com afeto, com fé, com gente comum tentando fazer o certo num mundo que recompensa o contrário. E esperança, aqui, neste caso, tem um nome: Erika Hilton.
Agora eu preciso me despedir.
Porque já está na hora de eu fazer minhas orações.
