CRÔNICAS

Dandara, ponto facultativo e um olhar sobre o cuidado

Em: 20 de Novembro de 2025 Visualizações: 462
Dandara, ponto facultativo e um olhar sobre o cuidado

 

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“É preciso ousar para dizer o óbvio.”

(Paulo Freire)

 

No dia em que celebramos Zumbi e a Consciência Negra — data em que muita gente no país finge lembrar que existe uma dívida histórica — fui almoçar com Dandara, uma grande amiga, que tem o mesmo nome da mulher do Zumbi dos Palmares. Justamente nesse dia, percebi o tamanho da contradição entre os discursos sobre igualdade e a prática cotidiana do próprio Estado.

Depois de anos trabalhando como funcionária pública, enfrentando jornadas que começam cedo e terminam tarde, acaba de ser aposentada.

Guerreira por teimosia, e profissional por vocação, ela sempre carregou um olhar que só quem está na ponta, sentido o calor humano do usuário sofrido, conhece: aquele que atravessa a estatística e enxerga o ser humano vivo escondido atrás do número morto. Aprendi com ela que “dado” é apenas o meio do caminho. O resto é pele, suor, dente nascendo, mãe chorando. Ensinou-me sem aula, sem quadro, sem decreto — ensinou vivendo. Pois bem. Aposentou-se. E sabe o que ganhou? Nada.

Caboco, tu achas que ela ganhou um obrigado? Não. Nenhum “obrigado”.

É parente, não teve nenhum e-mail sem alma. Nenhuma ligação burocrática.

Nada. Nadinha! Ela ficou até o tucupi de vazios institucionais.

É o normal num governo que só lembra dos trabalhadores quando precisa de foto com bandeira atrás.

A Secretaria Municipal de Saúde (SEMSA) — que ajudamos a reorganizar lá atrás, tentando dar mais dignidade aos números e mais verdade aos relatórios — segue fazendo vista grossa para quem a ergueu. A máquina gira, mas esquece quem a lubrificou. E o prefeito David Almeida? Esse aí só se preocupa com alimentação quando pode usar criança faminta como argumento político. Não é de se surpreender que nunca tenha perguntado o que sustenta Dandara. Ela não rende vídeo lacrador. Não chora no momento certo. Não cabe no roteiro.

O povo é um só

As crianças que o prefeito diz precisar ir para a escola para garantir sua única refeição do dia são as mesmas crianças atendidas pela Saúde. São as mesmas que, quando sorriem com o esquema vacinal completo e os dentes sem cáries, alimentam Dandara com um tipo de esperança que não cabe em planilha.

Mas não são só as crianças que precisam ser nutridas. Todos nós — crianças, adultos, idosos, cuidadores, servidores públicos — precisamos de alimento: comida, saúde, respeito, políticas públicas que funcionem. Porque o povo é um só. E o olhar sobre esse povo precisa ser integral.

É maninho, não existe educação sem saúde. Não existe segurança com fome. Não existe bem-estar onde o Estado se ausenta.

E quando olhamos para Manaus, onde 55% da população vive em favelas, essa ausência do Estado se torna escancarada. É impossível falar de desigualdade sem reconhecer que mais da metade dos manauaras encara enchentes, isolamento, transporte precário, calor extremo, insegurança alimentar e serviços públicos que chegam tarde — quando chegam.

Se o prefeito estivesse realmente preocupado com alimentação, trataria melhor não só as crianças que usa como argumento político, mas todo o conjunto de políticas públicas que sustentam a vida. E, sobretudo, trataria melhor os servidores que fazem a máquina funcionar mesmo quando o governo falha.

E o mais irônico — ou triste — é que não estamos falando de luxo. Veja bem, caboco:

Não estamos pedindo nada daquilo que envolveu o prefeito no noticiário local. Nem Caribe com ponto facultativo no meio.

Nem pra ter condições de pagar R$ 20 mil por mês à sogra.

Nem relógio Baume & Mercier de mais de R$ 20 mil.

Nem mocassim Ferragamo de R$ 8 mil.

Nada disso. Nadinha!!!

Estamos pedindo o básico — aquilo que já está na Constituição: saúde, educação, segurança, assistência, moradia, dignidade. Apenas isso. E já seria suficiente para transformar a vida do povo.

Enquanto o mínimo não chega, seguimos nós: alimentando uns aos outros com afeto, solidariedade e resistência. Dandara se alimenta dos sorrisos das crianças saudáveis; nós nos alimentamos da força de pessoas como ela; e a cidade tenta se alimentar da esperança que o poder público insiste em não servir.

O povo é um só.

E, quando o Estado fecha a porta, é sempre o povo que se abraça.

Me fingindo de bobo

Caboco, preciso me fingir de bobo — porque às vezes é a única forma de ouvir certos discursos sem levar as mãos à cabeça. Fico imaginando o que aconteceria se o prefeito realmente estivesse preocupado com as crianças da rede municipal. Preocupado de verdade, não apenas naquela voz ensaiada dos vídeos em que ele enche a boca para falar de “refeição” como quem recita slogan publicitário.

Se a preocupação fosse genuína, ele aproveitaria feriados e pontos facultativos para ampliar caminhos de crescimento. Em vez de tratar escola como depósito de crianças, incentivaria visitas a museus, teatros, apresentações culturais, práticas esportivas, atividades comunitárias. Educação também é corpo em movimento, arte, descoberta — e isso não vive trancado em sala de aula. Tenório Telles, como você faz falta.

Se a preocupação fosse real, investiria em emprego e renda para os pais, para que nenhuma criança precisasse atravessar a cidade apenas pelo almoço. Famílias com autonomia financeira criam crianças com autonomia emocional. Crianças alimentadas em casa aprendem com dignidade na escola.

E, já que estamos nessa fantasia, imaginemos outro cenário: escolas abertas nos fins de semana e feriados — não como prisões de tempo integral, mas como centros de vida pulsante. Para isso, precisaria concursar profissionais competentes, garantir um olhar técnico e carinhoso. Espaços multifuncionais onde mães busquem orientação, pais aprendam uma profissão, jovens pratiquem esportes, idosos convivam, e a infância exista sem medo.

E, navegando ainda nesse devaneio, imagino que, nessa cidade onde quase 70% das crianças nascem sem a presença do pai, cada criança pudesse ter ao seu redor uma rede de proteção. Não é obrigação do prefeito “dar um pai” a ninguém, mas é obrigação dele criar políticas que fortaleçam famílias e acolham vulnerabilidades — para que mães solo não carreguem uma sociedade inteira nas costas.

Me fingindo de bobo, percebo que não é difícil imaginar um mundo onde o cuidado fosse política pública e não improviso; onde a infância fosse prioridade e não propaganda; onde servidor fosse tratado como ser humano, não como número descartável. Difícil é imaginar esse mundo sendo construído pelo governo que temos hoje.

Ponto facultativo não decretado

Seguimos, então, fingindo para suportar a fala oficial, enquanto mostramos, com a vida real, aquilo que o poder público insiste em não aprender.

E quero acreditar — ainda me fingindo de bobo — que o almoço que tive com Dandara, justamente num feriado, foi um ponto facultativo concedido especialmente a ela. Um feriado íntimo, singelo, silencioso, não decretado no Diário Oficial, mas no coração de quem reconhece sua história.

Um feriado pela sua aposentadoria.

Pelo corpo que lutou todos os dias para continuar servindo.

Pela postura idônea, que não se dobra e nem teme os desmandos politiqueiros de gestores incompetentes.

Pelo serviço extraordinário prestado à saúde pública de Manaus.

Quero acreditar que, sem perceber, o Estado abriu espaço para que eu celebrasse uma mulher que ele próprio esqueceu. E que, nesse pequeno gesto — esse almoço simples, esse intervalo de cuidado — tenha nascido o único ponto facultativo que realmente valeu a pena: aquele decretado não pelo governo, mas pela dignidade de quem serviu com amor.

E, antes de fechar este texto, deixo aqui um caloroso abraço a todas as Dandaras — essas mulheres que sustentam o serviço público com a própria coluna, o próprio corpo, a própria história e que, com a reforma da previdência, o Estado insiste que trabalhem até virarem Zumbis nessa casa-grande ou senzala chamada Prefeitura Municipal de Manaus.

Porque, no fim das contas, se o governo insiste em negar cuidado, somos nós que seguimos cuidando uns dos outros — mesmo que seja à base de humor, resistência e um trocadilho para espantar o desânimo.

PS1: Gostaria de ter tido dinheiro para levar Dandara para almoçar no Caribe, mas isso é privilégio de pouquíssimos. Acabamos indo à um restaurante simples, onde o nosso almoço custou um pouco menos de R$ 60 e a companhia não tem preço.

PS2: Pensei em usar outra epigrafe, também de Paulo Freire, e dedicar ao prefeito que parece não ter tido uma educação libertadora.

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2 Comentário(s)

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Dev botânico comentou:
21/11/2025
Excelente texto, Geraldo. Por uma gestão menos demagoga e mais preocupada com a saúde e bem estar dos nossos servidores. Eleição tá chegando ai, quais são as nossas alternativas reais?
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Douglas Pôrto comentou:
20/11/2025
É caboclo, o bicho tá pegando, antes o gestor vivia vigiado e com medo de fazer besteira administrativa, hoje é Intrépido, ousado, descarado mesmo; ora pela inércia dos órgãos de controle, ora pela apatia dos cidadãos. Como diria Rita Von Hant, o que faltou no brasil, foi guilhotina, mas penso que precisamos é revisitar a história e resgatar instrumentos mais efetivos de correção pública dos gestores.
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