CRÔNICAS

Remédios de Manaus: a praça é um placebo?

Em: 28 de Outubro de 2025 Visualizações: 649
Remédios de Manaus: a praça é um placebo?

 

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

“Teve um tempo em que nós, para viver, precisávamos nos calar. Hoje, nós, para viver, precisamos falar.” (Pajé Luiz Caboclo, Tremembé, citado no Taquiprati, 2009).

Sabe, caboco, lembro como se fosse ontem, das manhãs em que o Rio Negro acordava energizado pelo espírito da floresta, e a cidade respirava junto com ele. O cheiro da água misturava-se ao do pão e do café quente saindo das padarias, às conversas de esquina e ao som distante dos barcos subindo o rio.

Em 2021, essa memória ganhou outro peso: o porto desapareceu sob as águas. O Rio Negro, que atingiu o nível histórico, subiu feito gigante cansado de ser margem e promessa quebrada, cansado de não ser ouvido. Subiu engolindo cais, tapumes, lojas e barracas — e nos obrigou a encarar nosso próprio reflexo.

“Olha a raiva do rio”, diria o pai do meu pai, se vivo fosse. E eu queria acreditar que ele falava de mim, da cidade, de cada um que insiste em continuar aqui, mesmo com enchentes, promessas quebradas e ausências. Talvez fosse isso mesmo — ou talvez só a natureza, exausta de tanto esquecimento.

Aquela cena — pessoas se equilibrando em tábuas flutuantes, barcos amarrados ao nada, o Centro alagado — ficou gravada na memória como a fotografia perfeita de Manaus: um lugar que insiste em não afundar, mesmo quando tudo conspira para isso.

Para fugir da inundação, é preciso estar em parte alta. E a Praça dos Remédios está.

Praça dos “remédios”

No aniversário de 356 anos, a prefeitura coloca a praça nova em cartaz: “Praça dos Remédios revitalizada”. Pedra portuguesa, bancos remendados, iluminação moderninha — foto do prefeito sorrindo em frente ao paralelepípedo reluzente. Bonito de ver, fácil de elogiar. A própria administração garante que é “recuperação da memória do centro histórico”.

O David Almeida sorri diante da pedra nova — como se dissesse: “Tomem a praça, é o remédio para curar nossa gestão adoecida!” O trocadalho, irresistível, é do carilho. Por um instante, até queremos acreditar que com paralelepípedos bem assentados e bancos reluzentes a vida do manauara vai melhorar.

Mas, caboco, o efeito é só placebo. A pedra não aquece quem dorme na calçada; o paralelepípedo não dá oxigênio pra quem luta pela sobrevivência; o verniz da inauguração não cura fome nem exclusão. O “remédio” existe apenas nas fotos e na propaganda: bonito, cheiroso, inútil para quem realmente precisa de cura.

E a praça não era só pedra e memória; era abrigo. Quem passava a madrugada nos bancos — pessoas em situação de rua, idosos sem teto, gente que ganhou do destino o papel de morador de rua — foi removido em nome da obra. Houve adiamentos, ações de desocupação e registros da imprensa sobre as tentativas da prefeitura de “desocupar” o espaço para a reforma.

Presente ou dignidade

Não sou contra reformas de espaços públicos. Pelo contrário, sou a favor. Sou a favor de verdadeiras reformas, daquelas que realmente melhoram a vida das pessoas, que unem cuidado com o patrimônio e cuidado com quem ocupa o espaço.

O que me incomoda — e muito — são as maquiagens: vernizes que parecem obra, mas não mudam nada na prática. Falam em “recuperar o espaço público” e em “devolver identidade” — palavras bonitas para release e selfie de inauguração — enquanto quem vivia ali recebe, no melhor dos casos, um novo local; no pior, o esquecimento.

A Prefeitura diz que ampliou equipamentos de assistência social: Centro Pop, Casa de Passagem, CADS. Mas esses serviços muitas vezes não acompanham a velocidade da obra nem resolvem a urgência de quem dorme na calçada.

É como aqueles presentes cheios de promessas: caixa grande, colorida, laço dourado. Dentro, outra caixa menor, e outra menor ainda, até sobrar só uma caixinha boba — tipo o resto do FUNDEB dividido entre professores no final do ano. Assim é a “revitalização”: muita embalagem, discurso pomposo, cerimônia — e no fim, o conteúdo é pequeno demais para quem esperava mudança de verdade.

Tudo isso numa cidade que já respirou crise de outro jeito: quando faltou oxigênio nos hospitais, o país olhou — por uns dias — para nosso desespero. Ironia de novo: só quando falta ar se percebe o quanto o “bem público” é, na prática, uma escolha de quem merece socorro primeiro. Na praça, escolheu-se a pedra bem assentada, o post instagramável, e não a gente que precisava de abrigo.

Ainda assim — e aí está a grandeza amarga desta terra — o povo não deixa a praça ser só cenário. Dona Marisa varre a calçada, o ambulante volta com sua barraca, o diácono distribui o pão, vizinhos recolhem o que resta de colchão pra doação. O brilho da pedra engana o visitante, mas quem mora aqui sabe: cuidar do patrimônio só vale se cuidar das pessoas. Se não, é só verniz. As áreas degradadas devem ser requalificadas. Mas os moradores de rua não podem ser tratados como lixo.

Parabéns, Manaus. Pela história, pelo Teatro, pelo Rio. Mas se o aniversário serve para algo de verdade, que seja para lembrar que zelar pelo bem público significa, antes de tudo, zelar pelas pessoas que o ocupavam. Que as pedras novas não sejam consolo para corações vazios.

Porque tu és assim: metade rio, metade esquecimento — inteira de gente que precisa, mais do que de pedra nova, de café forte, rede confortável e, de vez em quando, uma prefeitura que aprenda a fazer remédio que funcione de verdade.

 

Referencias

https://www.manaus.am.gov.br/noticia/infraestrutura/revitaliza-praca-dos-remedios/

https://www.acritica.com/geral/prefeitura-adia-abordagem-a-pessoas-em-situac-o-de-rua-no-centro-de-manaus-1.340468

https://www.manaus.am.gov.br/noticia/obras/obras-no-centro-de-manaus/

 

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1 Comentário(s)

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Douglas Pôrto comentou:
03/11/2025
Pura poesia concreta, na inspiração, no chamamento a responsabilidade e nas contradições de uma prefeitura que engana com muito confete e pouco carnaval.
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