Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
“Chove chuva, chove sem parar, pois eu vou fazer uma prece para Deus, nosso Senhor, pedindo para a chuva parar”. (Jorge Ben Jor)
Caro(a) leitor(a), quero começar a crônica de hoje com uma piada que já fez muito engenheiro rir de nervoso e pode nos servir de alerta para o alerta do prefeito David Almeida na última terça-feira, 14 de outubro sobre o dilúvio que deixaria Manaus fazer inveja à Arca de Noé. Conto a primeira piada, depois a piada do alerta do David, o alertador lerdo.
Dois homens viajam em um balão e estão perdidos sobre um deserto. De repente, veem um sujeito meditando à sombra de uma árvore.
— Onde estamos, por favor? — grita um deles.
O homem pensa, pensa, reflete e responde:
— Vocês estão em um balão.
— Obrigado, senhor matemático!
Surpreso, o homem pergunta:
— Como vocês sabem que eu sou matemático?
— Por três motivos — responde um dos aeronautas. — Primeiro, o senhor pensou muito antes de responder. Segundo, sua resposta foi precisa. Terceiro, ela não serve para nada.
Pois bem, na última terça-feira, 14 de outubro, o prefeito David Almeida resolveu soltar sua própria versão da piada — só que sem graça — na conta do Instagram:
“Olá, amigo! São 15 horas e 10 minutos desta terça-feira. Estamos acompanhando as fortes chuvas que estão caindo na cidade de Manaus. Daqui a pouco, teremos o alerta da Defesa Civil sobre as fortes chuvas que estão ocorrendo na tarde de hoje. Peço atenção a você que mora em áreas de risco, a você que está próximo de locais onde há perigo, para que possamos ter máxima atenção, pois estamos com uma chuva bem intensa na nossa cidade.”
Seria o prefeito um matemático? Vamos ver: primeiro, pensou muito antes de gravar. Segundo: sua fala foi precisa — realmente estava chovendo bastante. Terceiro: anunciar uma chuva forte meia hora depois de ela já ter começado é tipo avisar que o barco está afundando quando a água já chegou no pescoço.
Falta ciência, meu caro. Falta antecipar o óbvio.
O Alerta
Logo depois, pipocou no celular de muitos manauaras o aviso:
“Alerta severo Defesa Civil: Alerta de alagamento em zona de risco de Manaus. Em caso de emergência, ligue 199/193. Prepare-se para deixar o local.”
E aí, caboco, me diz: o que é exatamente uma “área de risco”? E se o perigo for iminente, o povo deve sair e ir para onde? E, principalmente: como sair, se o alerta só chega depois que a água já bateu na canela?
Para resolver essas dúvidas existenciais, consultei o ChatGPT — aquele oráculo moderno que entende de tudo, menos de Manaus. Ele me respondeu, todo técnico:
“Uma área de risco para a Defesa Civil é um local geográfico que apresenta alta probabilidade de ser atingido por fenômenos naturais ou induzidos (causados pelo homem), podendo resultar em danos à integridade física das pessoas e perdas materiais. Esses locais são identificados por meio do mapeamento de características como relevo, geologia, hidrologia e clima, além de considerar a ocupação do solo, sendo impróprios para o assentamento humano.”
Traduzindo: “favela”.
E o IBGE confirma — segundo o Censo 2022, 55,8% da população manauara mora em favelas, e só 50,6% dos domicílios estão ligados à rede de esgoto.
Ou seja: metade da cidade mora onde não deveria, e a outra metade finge que não vê. Então, fico aqui pensando, caboco: para onde iria metade de Manaus quando viesse o tal “alerta severo”? Para casa da outra metade? Seria esse o primeiro passo de um plano comunista de desapropriação das classes média e alta?
Se for isso mesmo, que o prefeito comece logo pelos bairros Ponta Negra e Tarumã. Ali tem muita marina precisando ser “desapropriada” em nome da equidade aquática.
Mas, antes, que ele providencie botes salva-vidas para as famílias das áreas de risco — afinal, só com boia é que o povo vai conseguir remar dos barracos até as mansões das “famílias de bem”.
A Previsão
O curioso é que, se o problema fosse só prever a chuva, a gente nem precisaria da prefeitura.
O INMET — o Instituto Nacional de Meteorologia — já faz um excelente trabalho. Tem estação meteorológica, sensor, radar, dados pluviométricos atualizados, gráficos, boletins e até aplicativo. Dá para saber quando vai chover, quanto vai chover e até de que lado a nuvem vem chegando.
Ou seja, ciência tem.
O que falta é vontade de usar.
Porque a verdade, caboco, é simples: o problema não é a chuva cair. É o descaso que não seca.
Só existe “área de risco” porque existe descaso.
O solo não cede sozinho.
O igarapé não transborda por vontade própria.
A árvore não cai por rebeldia.
Tudo isso é o retrato de uma cidade largada — uma Manaus que vive de improviso, torcendo para que o próximo alerta venha com bote incluso.
E, como estatístico, posso servir de ponte entre a prefeitura e o Departamento de Estatística da UFAM — caso David Almeida ache que o INMET não consegue avisar quando a cidade vai virar piscina. Aposto que o professor Dr. Max Sousa faria isso com muito mais zelo e bem menos atraso do que qualquer alerta oficial da prefeitura.
E, como aqui o povo também aprendeu a fazer previsões — só que sem radar, apenas com experiência —, eu me arrisco também, com base na minha experiência, a listar 13 delas, mais brilhantes que uma estrela:
- Novos alertas de chuva aparecerão no teu celular — depois que a chuva começar.
- O igarapé da Avenida Brasil, na Compensa, vai transbordar.
- O Centro da cidade, próximo ao porto, vai alagar.
- Árvores vão cair por toda Manaus.
- Haverá banheiros químicos flutuando numa avenida próxima de ti.
- No rádio, o Ronaldo Tiradentes vai bater no Eduardo Braga.
- A Patixa Teló vai ser notícia.
- O trânsito vai congestionar.
- Ônibus serão assaltados.
- A Nova Igreja Batista realizará o evento “Sonho de Natal”.
- A Prefeitura vai promover o “Natal dos Sonhos” — como se a prosperidade estivesse em barracos flutuando e ruas alagadas.
- Todo pedido da oposição na Câmara Municipal será rejeitado pela base do prefeito — numa blindagem mais dura que ouriço de castanha.
- E, claro, na próxima chuva, vai faltar energia na minha casa.
Mas, diferente do prefeito, eu pelo menos estou avisando antes.
E se o prefeito quiser, eu empresto meu balde, meu rodo e minha bola de cristal — mas só se ele prometer devolver antes da próxima chuva, pois vou precisar.
Porque aqui em Manaus, caboco, a gente já aprendeu a viver de alerta: alerta de chuva, de buraco na rua, de descaso e de promessa.
No fim, só não inventaram ainda o alerta de vergonha na cara – por isso, alerta por alerta, sou mais os meus.
Referencias
https://www.instagram.com/reels/DPzQy5HCXon/
https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/
https://portal.inmet.gov.br/

