Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
De vez em quando, meu caboco, a imprensa se agarra num folhetim — e até dá pra entender. A vida já é dura demais pra gente não se distrair com novela. O problema é quando a ficção vira cortina de fumaça e o debate público se reduz a uma pergunta de corredor: Quem matou?
Lembras da novela dos anos 80? O país inteiro queria saber quem matou Odete Roitman. Era manchete, chamada de intervalo, piada de mesa de bar, até algumas beatas pediram para o pároco rezar para que não matassem a dita cuja. Pois parece que estamos assistindo ao remake das propagandas. De novo, a mesma pergunta, o mesmo suspense, o mesmo frisson. Tem meme nas redes, aposta em grupo de whatsApp — e há quem jure que até o Trump tenha perguntado pro Lula:
- “Mr. President, who killed Odete Roitman?”
Assim se desenrola a lógica da mídia hegemônica: quando a treta favorece os interesses econômicos e políticos das elites, ela é repetida incessantemente, como um produto que nunca se esgota. Mas, quando o conflito vai contra os interesses da classe dominante ou beneficia as camadas populares, ele é rapidamente minimizado, desvalorizado ou até completamente ignorado. A mídia escolhe o que e quando mostrar com base no impacto que isso tem sobre o poder e a manutenção do status quo.
O enredo
Tu lembras daquela brincadeira em que a gente colava um papel na testa e tentava adivinhar quem era? Pois então, bora brincar um pouco. No Brasil recente — em que não precisamos de um roteiro de Janete Clair para termos nossos próprios mistérios — deixemos a novela de lado e tentemos descobrir quem é quem nesse enredo chamado Brasil.
— Quem debochou e matou, pela ausência de uma política de saúde eficaz, mais de 700 mil brasileiros vítimas da Covid-19? Sabes me dizer? Enquanto o mundo buscava formas de proteger suas populações, aqui faltaram investimentos, planejamento e respeito à ciência. O descaso custou vidas que poderiam ter sido salvas — e a negligência virou política oficial. Então, quem sou eu? E quem são os meus cúmplices?
— Tu sabes, parente, quem matou os que sucumbiram à fome, enquanto caminhões carregados de comida apodreciam nos portos? Quando o preço do arroz disparava como foguete, fazendo o Brasil voltar ao mapa da fome, e o salário mínimo mal cobria o básico, milhares de famílias passavam fome em silêncio. A miséria avançava, invisível para muitos, mas letal para aqueles que não tinham o que colocar à mesa. Então, quem sou eu?
— Me diz, mano velho, quem cometeu genocídio contra os povos indígenas — especialmente Yanomami, Guarani e tantos outros — cujas terras foram invadidas por garimpos ilegais, monoculturas extensas e grandes empreendimentos agropecuários? Quem envenenou seus rios com mercúrio, contaminou suas comunidades e deixou seus corpos marcados pelo abandono? Enquanto o Brasil avançava em retrocessos ambientais, esses povos originários lutavam para sobreviver. Então, quem sou eu?
— Me acuda, vizinho, quem tentou matar a democracia, conspirando em quartéis, espalhando ódio nas redes sociais e alimentando mentiras como se fossem pão diário? Quem viu no caos político uma chance de minar instituições, deslegitimar eleições e promover um clima de medo e violência? A democracia não caiu em um único episódio; ela é atacada todos os dias por aqueles que desejam controlar o poder a qualquer custo. Então, quem sou eu?
— Caboco, quem sonhou em assassinar com um punhal verde e amarelo, não personagens de novela, mas pessoas reais, de carne e osso — Lula, Alckmin, Xandão e tantos outros que ousaram contrariar a seita do poder? Não são enredos ficcionais, mas ameaças concretas que ecoam em corredores do poder, em grupos extremistas e em discursos de ódio que pregam a violência como solução. Então, quem sou eu?
— Querido(a) leitor(a), quem matou os brasileiros que morreram à espera de aposentadoria ou auxílio-doença no INSS, vítimas da ineficiência, da burocracia e das fraudes? Enquanto recursos eram desviados e vidas se esvaíam nas filas intermináveis, muitos viram seus direitos negados e seu futuro desmoronar. A lentidão do sistema não foi apenas falha administrativa, mas sentença para quem dependia dessa rede de proteção social. Então, quem sou eu?
Capítulo final
O “quem matou” da novela se resolve em capítulos, entre suspense e publicidade de sabonetes — que também servem para lavar as mãos. Já o “quem matou” da nossa história recente permanece sem resposta. E os culpados não se escondem atrás de cortinas vermelhas, mas em gabinetes acarpetados, palanques eletrônicos e notas oficiais sem alma.
Odete Roitman morreu em uma trama fictícia. Os nossos mortos, não. Eles morreram em um país real, onde vidas são barganhadas em nome de um poder que se eterniza às custas do sofrimento de muitos.
O mistério, meu caboco, não está no roteiro da novela, mas na frieza de quem joga com as vidas alheias como se fossem peças de enredo. O que interessa é saber quem são os autores do genocídio de palestinos na Faixa de Gaza, com mais de 70 mil mortos, entre crianças, mulheres, doentes em hospitais bombardeados e população civil.
O grande enigma não é quem matou Odete Roitman ou quem usou bilhões de dólares para deixar a Palestina sob escombros. A pergunta é quem segue matando o Brasil, um capítulo de cada vez. Será que o autor ou autora do assassinato de Odete Roitman vai reivindicar o Nobel da Paz?
E a pergunta que fica, no silêncio da noite, é outra: Quem vai pagar por tudo isso?
Os créditos
Não é de hoje que o Brasil escreve suas histórias à tinta de morte e exclusão. Desde a senzala até o aplicativo de entrega, o roteiro é o mesmo: corpos cansados sustentando um espetáculo que nunca foi deles. Mudam os atores, trocam-se os cenários, mas o enredo permanece — uma novela longa, cansada, onde o povo é sempre figurante e os poderosos, os protagonistas que jamais saem de cena.
Enquanto a gente se distrai com o capítulo das nove, os verdadeiros roteiristas seguem escrevendo o país à caneta do lucro. Políticos, empresários, donos de tela e de templo — todos reunidos na sala de roteiro, decidindo quem vai morrer no próximo episódio. E nós, cabocos, seguimos assistindo, como se o desfecho não fosse também o nosso.
O problema não é só o enredo, é a anestesia. A cada tragédia televisionada, a dor se torna costume. E o costume, silêncio. Até que a morte vire estatística e o sofrimento, trilha sonora. A novela passa, o capítulo acaba, e o país continua do mesmo jeito — remendado, desigual, distraído.
Mas o “quem matou?” que ecoa nas esquinas do Brasil não é mistério — é memória. Porque o roteiro ainda está sendo escrito, e quem segura o lápis agora somos nós. Ou a gente muda a trama, ou aceita a reprise da tragédia com a mesma audiência de sempre.

