Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior
Não basta saber ler que "Eva viu a uva". É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu
contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho. (Paulo Freire)
Às vezes, um tema parece algo pessoal ou familiar, mas tem uma dimensão social e política. Hoje, caboco, quero te falar sobre minha irmã mais velha, Elisângela Souza, para fazer algumas reflexões sobre a carteira do docente. Ela é professora da rede municipal de ensino, com carga horária de 40 horas semanais dentro de sala de aula. Fora dela, no entanto, a jornada talvez seja ainda maior.
Diariamente, dedica atenção a vários alunos com necessidades especiais — é isso que ela gosta de fazer. Enquanto o Ministério Público do Amazonas investigava a irmã do prefeito David Almeida e ex-secretária de Educação, Dulce Almeida, por desvio de recursos do FUNDEB e uso de escolas da SEMED em campanhas eleitorais, minha irmã tirava dinheiro do próprio bolso para dar um pouco mais de alegria aos seus alunos.
Com toda essa carga, ela e suas colegas quase não têm tempo para acompanhar os noticiários. Cabe, então, a mim repassar, nos fins de semana, um pequeno relatório sobre o que anda acontecendo no Brasil e no mundo.
E quando ouvi o discurso do ministro da Educação, Camilo Santana, anunciando o lançamento da Carteira Nacional Docente do Brasil (CNDB) — sancionada agora em setembro —, fiquei ansioso para dar essa boa notícia à minha irmã. Afinal, ela merece. E juro pra ti: não é nepotismo, é merecimento mesmo.
— Mana, querida, nem te conto... Depois de tanto tempo, a tua classe foi reconhecida! Ao contrário do Temer, que congelou o orçamento da Educação por 20 anos, e do Bolsonaro, que negava a ciência, esse governo trouxe novidades positivas...
— Mano, tu estás falando da nossa carteira? É bonito no papel: reconhecimento oficial dos professores, documento físico e digital, promessas de descontos em cinema, teatro, hotel e até em software educacional. É quase um “clube de vantagens” para quem passa a vida explicando regra de três e sujeito oculto.
Mas vamos devagar, leitor(a). Porque, no meio da euforia, aparecem algumas pedras no caminho.
O que é a Carteira?
A CNDB, ao menos em teoria, centraliza a identificação dos professores em um único documento válido nacionalmente. Isso pode facilitar a comprovação de vínculo para concursos, formações e eventos. Para quem atua em mais de um estado ou município, essa unificação reduz parte da papelada e oferece uma identidade profissional mais clara.
Há também o peso simbólico. Ter um documento que reconhece oficialmente o magistério como categoria de interesse nacional tem valor cultural e político. A profissão docente há muito carece de prestígio social, e esse tipo de reconhecimento público — embora não resolva o problema — ajuda a afirmar a importância do professor como figura central da educação e da democracia.
Por fim, as parcerias prometidas — ainda que tímidas — podem abrir caminhos interessantes. Se bem executadas, políticas de acesso a bens culturais, hospedagem e tecnologia podem estimular a formação continuada e o lazer dos educadores, áreas quase sempre negligenciadas. É pouco, mas é algo.
As pedras no caminho
A primeira delas é a burocracia. O professor já carrega crachá, contrato, carteira de trabalho, cadastro municipal, estadual e federal. Mais um documento resolve o quê, exatamente?
Depois, vêm os benefícios. Até agora, a lista parece mais propaganda que realidade. Desconto em cinema? Ótimo. Mas e o salário digno, o plano de carreira, as condições decentes de trabalho? Não dá pra pagar boleto com ingresso de meia.
Outro ponto espinhoso: quem entra nesse clube? Fala-se em educação básica e superior, mas e os temporários, substitutos, horistas, educadores populares? Quem dá aula na quebrada, em cursinho comunitário, também é professor — mas pode ficar de fora se o critério for apenas o vínculo formal. Penso na minha avó, que foi professora de catequese por mais de 60 anos — ela teria direito?
E há, claro, o cheiro de marketing político no ar. Outubro é mês do professor, a carteira chega com pompa e discurso de valorização... mas, no fundo, pode virar só mais um símbolo bonito, sem atacar as questões centrais: piso salarial, respeito à profissão, menos precarização.
Não seria a primeira vez que a Educação vira vitrine de boas intenções. Quem lembra do ProInfo, do PDE, do Todos pela Educação? Bonitos no lançamento, esquecidos na execução.
A realidade dos números
De acordo com o Ministério da Educação, o piso salarial de um professor da rede básica no Brasil gira em torno de R$ 4.800, aproximadamente 10% do salário de um deputado federal. E cá pra nós, minha irmã vale mais de cem Nicolas Ferreira. Isso sem contar a dupla jornada: corrigir provas em casa, preparar aulas até tarde da noite, gastar do próprio bolso com material pedagógico.
Outro dia, enquanto minha irmã imprimia as atividades dos seus alunos, ouviu sua colega de labuta, Marlene Nogueira, dizer:
— A carteira pode até abrir as portas do cinema, mas eu só queria que ela abrisse a porta do supermercado sem tanto sufoco.
Esse contraste entre o simbólico e o essencial é o que torna a CNDB um objeto ambíguo: reconhecimento oficial de um lado, mas lembrança incômoda de que o país ainda não garante o mínimo para quem forma gerações inteiras.
Se olharmos para fora, o contraste fica ainda mais evidente. Em Portugal, por exemplo, o salário inicial de um professor da rede pública ultrapassa os 1.400 euros — o dobro da média brasileira quando convertido. Na Finlândia, onde a carreira docente é altamente prestigiada, o professor não recebe “carteirinha de desconto”: recebe tempo para planejar aulas, turmas reduzidas e condições dignas de trabalho. Lá, o respeito não está no plástico, mas na estrutura.
Entre o papel e a sala de aula
No fim das contas, a CNDB pode ser um passo interessante — desde que saia do papel e não fique apenas na vitrine. Porque, sejamos sinceros: professor precisa mais de dignidade e escola estruturada do que de QR code na carteira.
Quando contei tudo isso pra minha irmã, ela sorriu, ajeitou os cadernos e disse:
— Pagar meia é bom, mas queria que o meu salário me permitisse pagar inteira. Tomara que a carteira venha com respeito dentro.
E foi trabalhar. Porque é isso que o professor faz: segue, mesmo quando o país não acompanha. Segue, mesmo quando a sociedade aplaude o discurso, mas esquece a prática. Segue, mesmo quando a dignidade vem em forma de plástico.
No fim, a CNDB pode até ser simbólica, mas o que o Brasil realmente deve ao professor não cabe em documento, nem em promessa de desconto. Cabe em condições de trabalho, carreira digna e valorização real.
Porque, como diria a Escolinha do Professor Raimundo: professor tem vocação, tem dedicação... mas o salário, ó.
Referências:
https://www.gov.br/mec/pt-br/mais-professores/carteira-nacional-docente-do-brasil
https://pt.indeed.com/career/professor/salaries

