CRÔNICAS

A fome, os filósofos e a PL da bandidagem

Em: 22 de Setembro de 2025 Visualizações: 3745
A fome, os filósofos e a PL da bandidagem

     

 

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

Manaus, manhã de domingo. O galo mal cantou e minha mãe já estava de pé, sovando a massa, aquecendo o forno. O cheiro de pão recém-assado invadia a cozinha, escapava pela janela, perfumava a rua. Em poucas horas, aqueles pães virariam gesto. Não era discurso, promessa ou propaganda: era pão de verdade, aquele pão nosso que a gente pede para nos dar hoje, capaz de alimentar, por uma manhã inteira, bocas famintas.

Aqui, pão nunca é só pão; é símbolo, presença, resistência. Resistência contra a fome que se esconde nos becos, se insinua nas esquinas e, às vezes, mora em casas que ninguém quer ver. Enquanto PSOL, PCdoB e Rede votam em Brasília contra a hipocrisia, minha mãe, no centro de Manaus, distribui pão cada domingo para cem moradores de rua. Ambos, em seu campo de ação, rejeitam a normalidade que tolera a miséria.

O Congresso Nacional se diverte com suas barbaridades — PEC da Blindagem, PL da Anistia ou Anistia para o PL, medidas que protegem poucos e esquecem milhões, e faz obstrução à votação de leis que poderiam aliviar a fome. Justiça social? Que ideia boba. O que interessa é poder, palco e discurso vazio.

Mas há exceções, ainda que raras: PSOL, PCdoB e Rede. Em 100% de seus votos, seus deputados disseram “não” à blindagem de privilégios. Um gesto de coerência, quase tão silencioso quanto a solidariedade cotidiana. Aliás, a única semelhança entre a PEC da Blindagem e um ato de caridade é que ambos parecem gostar do anonimato — só que um privilegia alguns, e o outro alimenta muitos.

O clamor das ruas

Neste domingo  as ruas também falaram — em protestos que ecoam indignação. Homens e mulheres carregam faixas, entoam palavras de ordem, denunciam o descaso, a fome, a promessa enganosa. Manifestam-se não apenas contra leis que favorecem poucos, mas contra o silêncio cúmplice de quem poderia fazer mais — o prefeito que passa despercebido, o governador que promete muito e faz pouco, o deputado que é presença nas redes e ausência nas padarias vazias.

É o clamor de quem carrega fome no corpo e esperança no peito, misturando gritos e passos, mostrando que a cidadania não se reduz ao voto: exige presença, exige ação. E aqui confesso, com uma ponta de ironia: quase me sinto grato aos deputados bolsonaristas e do centrão, que, com sua voracidade por privilégios, acabaram prestando um serviço involuntário à democracia — empurraram a esquerda de volta às ruas.

Convém lembrar: o papel de um deputado federal não é legislar e fiscalizar em benefício próprio, mas em favor do povo que o elegeu. No entanto, 344 dos 513 deputados pareceram esquecer disso, votando para blindar a si mesmos em vez de defender os milhões que enfrentam a fome e a miséria.

O gesto da minha mãe é apenas um recorte de um cenário mais amplo, espalhado pelo Brasil. Assim como ela e meu pai, existem milhares de pessoas que transformam farinha, água e forno em instrumentos de justiça. Além delas, grupos como a Pastoral da Fome, a Casa da Sopa Fraterna e inúmeras outras iniciativas silenciosas combatem diariamente a fome e devolvem dignidade a quem o sistema insiste em ignorar.

O pão nosso        

Meus pais não são deputados passeando na Disney às custas do povo, nem empresários que transformam adegas em fornecedoras de respiradores superfaturados. Não. O sobrenome deles não é Malafaia, Marinho ou Almeida. Eles são professores aposentados, contando trocados, mas nunca deixando faltar um prato de comida a quem bate à porta. Quase um milagre.

Oficialmente, o Brasil saiu do mapa da fome. Ótimo! Mas ainda há cinco milhões de pessoas que enfrentam insegurança alimentar severa. Estatística para relatório? Talvez. Estômago vazio? Com certeza. Otimismo, sim — mas com compromisso: erradicar a fome ainda é urgente.

Quem dorme em papelão na Avenida Eduardo Ribeiro ou na Praça dos Remédios não lê IBGE; lê semáforo fechado, calçada dura, fila invisível, estômago roncando e o desfile de preconceitos e esquecimentos. Vê a cidade seguir indiferente. É nesse cenário que minha mãe, ao lado do diácono Ruzeval, reparte pães como quem devolve ao mundo uma dignidade que Brasília prefere ignorar. O voto coerente dos deputados é registrado em ata; o pão quente é registrado no silêncio de quem recebe. Ambos confirmam: é possível agir contra a hipocrisia, mesmo quando a maioria prefere discursos vazios.

Aristóteles dizia que virtude não é discurso, é prática. Minha mãe nunca leu a Ética a Nicômaco, mas parece ter entendido melhor que muito doutor: não proclama o bem, age. Montaigne defenderia a autenticidade contra a hipocrisia; Pascal lembraria que o homem fala uma coisa e faz outra — especialmente se estiver com cargo, paletó e microfone. Pois bem: numa cidade que prega fé — do vereador ao prefeito — e fecha os olhos aos pobres, o gesto silencioso soa quase como bofetada.

Kant insistiria que o valor moral não está no aplauso, mas no motivo. A ação vale pelo dever. Minha mãe entende: a obrigação não é discursar sobre a fome, mas combatê-la. E ela faz isso em pedaços de pão. Nietzsche denunciaria máscaras morais; Marx, a hipocrisia burguesa que lucra com a miséria. Talvez não pensassem em Manaus, mas o ato dela desmonta, na prática, essas ironias da história. PSOL, PCdoB e Rede também denunciam, com votos claros, a mesma hipocrisia de outro modo.

Repartindo esperança

Sartre chamaria de “má-fé” fingir ser o que não se é. Minha mãe, ao contrário, lembra Paulo Freire: diminui a distância entre fala e prática até que ambas se confundam. Não diz caridade, faz caridade. Padre Júlio Lancellotti repete que esmola não resolve fome, mas compaixão desarma cinismo. Ela entende: não é só pão; é olhar, é reconhecimento de humanidade. É ouvir o silêncio de quem recebe, sorrir mesmo quando ninguém vê, resgatar a dignidade onde o poder ignora.

No fim, a verdadeira solidariedade não mora nas manchetes, mas nas mãos: de quem faz mais que o esperado, seja o servidor público que não abandona o posto, seja a dona de casa que transforma forno e farinha em instrumentos de justiça. Aristóteles chamaria de hábito virtuoso. Montaigne, de autenticidade. Pascal, de antídoto contra a incoerência. Kant, de dever moral. Nietzsche e Marx, de denúncia viva da hipocrisia. Sartre, de liberdade assumida. Eu chamo de minha mãe. PSOL, PCdoB e Rede chamam de voto coerente.

E o Congresso? Continua em viagem à Disney, brindando enquanto milhões esperam um pedaço de pão. Mas enquanto eles celebram privilégios, minha mãe entrega dignidade. Enquanto eles acumulam discursos, minha mãe distribui esperança. Enquanto eles se escondem atrás de microfones, minha mãe se coloca diante da necessidade.

E dignidade, diferentemente de privilégios, não se engaveta. Não se oculta. Não se vende. Dignidade se dá. E ela se dá, todos os domingos, em pedaços de pão. Do pão nosso de cada dia que é preciso nos dar hoje e sempre.

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10 Comentário(s)

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Emmanuel Ribeiro de Aguiar comentou:
24/09/2025
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Lia Aurora comentou:
24/09/2025
Verdade! E o traidor da pátria ajudou Lula nas pesquisas, um bom cabo eleitoral. O Sostenes Cavalcante também tem ajuntado com seu esforço em defender o inelegível, está destruindo o PL.
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José Ribamar Abreu Cardoso comentou:
24/09/2025
Sabe aquele estilingue que duas pessoas puxam simultaneamente suas extremidades e um solta a ponta, pois a democracia soltou a ponta e os extremistas pegaram uma chicotada por sua burrice.
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Douglas Fabiam de Oliveira Porto comentou:
23/09/2025
Grato Gê! Vem vumbora, Festejar a esquerda de volta, Enaltecer a mãe que não espera acontecer, Dar voz às ruas De muitos tons, faces e gestos! Ter fé para os de fé, ...Fé pra enfrentar esses FDPs!
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Ivone Andrade comentou:
22/09/2025
Vivaaaaah a Democracia. A esquerda de volta à rua.
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Maria Cecilia Alcure (FB) comentou:
22/09/2025
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Magela De Andrade Ranciaro comentou:
22/09/2025
É bem verdade; o absurdo criando condições de RESISTÊNCIA frente ao caos
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Teka Rosso (via FB) comentou:
22/09/2025
E mais ainda, nos deram de presente a bandeira do Brasil de volta.
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Ana Chrystina Mignot comentou:
22/09/2025
Fiquei tão animada ontem que estou convencida que a próxima manifestação deve ser contra as emendas parlamentares. Elas estão na base da PEC da Bandidagem. Só uma grande mobilização popular para dar um basta nesta pouca vergonha. Só assim Lula poderá governar para quem mais precisa!
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Astrid Lima (via FB) comentou:
22/09/2025
É isso mesmo, Taquiprati,, puxaram tanto mas tanto a corda que a esquerda e os democratas em geral se levantaram!
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