CRÔNICAS

Eu e Descartes na hora neutra da madrugada

Em: 13 de Setembro de 2025 Visualizações: 1663
Eu e Descartes na hora neutra da madrugada

     

 

Autor: Geraldo Lopes de Souza Júnior

Quando fazia meu mestrado em Estatística, uma das condições para manter meu crédito educativo era a leitura de obras diversas. Confesso, caro leitor, que naquela época, aos 25 anos, eu ainda não havia descoberto o prazer da leitura. Por isso, era um desafio encontrar tempo, em meio a tantos artigos científicos na fila de estudos, para ler um romance. Talvez daí tenha surgido meu grande interesse por crônicas: leitura rápida, mas capaz de oferecer um bom descanso dos números.

Lembro-me como se fosse hoje: tio Babá — financiador do meu crédito estudantil — me entregou 200 Crônicas Escolhidas, de Rubem Braga. Entre todas, destaco Eu e Bebu na Hora Neutra da Madrugada. Nela, Braga afirma ter passado um dia inteiro em companhia do Diabo. Sempre achei que aquilo fosse apenas uma licença poética, uma brincadeira gostosa com as palavras.

Mas o sobrenatural é, de fato, impressionante e imprevisível. Ontem, de madrugada, sozinho, levei um grande susto: recebi a visita dele. Reconheci-o na hora: René Descartes.

Lá estava ele, o criador do plano cartesiano, no ponto P(1;2) do meu escritório. A empolgação foi instantânea. Não podia perder a oportunidade de conversar com o pai do racionalismo. Talvez ele pudesse elucidar algumas das minhas dúvidas sobre o grande tema do momento. Fui direto, sem rodeios:

— René, e a prisão de Bolsonaro?

Ora, caboclo, por que eu não iria tirar proveito dessa situação fantasmagórica?

Descartes me olhou sério, ajeitou a gola da camisa rendada, lançou um olhar de desdém à minha modesta biblioteca e disse, com aquele sotaque francês que parecia deslizar por cada sílaba:

Mon ami, vamos aplicar o meu método. Só assim entenderemos o que se passa neste país tropical e, ao que me parece, profundamente febril.

Peguei um café forte, abri meu bloco de notas e preparei-me para a aula. Ele começou passo a passo:

1. Evidência

— Nunca aceitar nada como verdadeiro sem provas.

Quase gargalhei. Se o mestre viesse a público no Brasil de hoje, seria chamado de “comunista”, “esquerdopata” e “inimigo da família tradicional” só por falar em provas.

Apontei para a pilha de reportagens: vídeos de gente pedindo golpe, áudios de generais fardados de verde-oliva querendo brincar de ditadura, lives transmitidas do Alvorada, caminhões bloqueando estradas, discursos inflamados contra o Supremo Tribunal Federal (STF). Isso sem falar nas boiadas passando pela Amazônia e nos respiradores comprados a preço de Ferrari em lojas de vinho durante a pandemia. Aliás, Descartes preferia o contrário: comprar vinhos a preço de banana. 

Descartes arregalou os olhos azuis:

Mon Dieu… com tantas provas, parece que alguns ainda preferem acreditar apenas no que lhes convém. Isso não é racionalismo, é fanatismo.

Expliquei que aqui a lógica é invertida: se o fato não agrada, vira “narrativa”. Se não encaixa na fé política, é “armação da mídia hegemônica”. Se o vídeo mostra o próprio líder cometendo o crime, a desculpa é simples: “Foi tirado de contexto”. E, se for parar no STF, o ministro Fux, temeroso da aplicação da Lei Magnitsky à sua conta bancária nos Estados Unidos, dirá que não há provas suficientes.

Descartes suspirou. Anotou:

— Brasil = lugar onde a prova prova apenas a inutilidade da prova.

Senti que ele coçava o queixo, como se ponderasse entre horror e divertimento. E eu comecei a perceber: o plano cartesiano dele — aquele mundo ordenado, racional e simétrico — jamais caberia no nosso plano cartunesco. É como explicar para um norueguês o que é "ponto facultativo" como dizia o saudoso Stanislaw Ponte Preta. 

2. Análise

— Dividir cada dificuldade em partes pequenas. Sem isso, não há clareza.

Concordei. Porque, convenhamos, aqui está tudo misturado: cloroquina com Bíblia, golpe de Estado com churrasco na laje, preconceitos de Leo Lins com piadas, misoginia com transmissão ao vivo.

Descartes pediu exemplos. Rabiscamos juntos:

• Para Bolsonaro, a pandemia não foi uma crise sanitária, mas uma gripezinha, com direito a piadas com caixões, cloroquina na veia e oxigênio faltando em Manaus.
• A tentativa de golpe teve um “ensaio geral” no dia 7 de setembro e 8 de janeiro como grand finale do caos.
• Bolsonaro tratou negros medindo-os em arrobas, como se fossem gado de leilão.
• Conceição Aparecida Aguiar, Preta Gil, Maria do Rosário e tantas mães que necessitam de licença-maternidade comprovaram a infeliz “fraquejada” do capitão em relação ao trato com as mulheres.
• Amazônia virando pó de serra e mercúrio no igarapé.
• Espionagem ilegal: jornalistas, opositores, servidores — ninguém escapa.

Ele comentou, coçando o queixo novamente:

— Quando tudo vira um caldeirão de horrores, o pensamento se perde. O truque dos poderosos é justamente esse: confundir.

— Aqui até a minuta de golpe vem carimbada em papel timbrado — brinquei.

Descartes sorriu pela primeira vez. Um sorriso leve, quase invisível, mas carregado de ironia: o plano cartesiano perfeito versus o nosso Brasil, distorcido e imprevisível.

3. Síntese

— Agora, devemos conduzir ordenadamente o raciocínio.

Ele pediu que eu dissesse, com simplicidade, o que é uma democracia. Respondi: instituições fortes, respeito às leis, liberdade de expressão, direitos humanos.

Ele retrucou:

— E o que temos quando líderes atacam as instituições, zombam das leis, perseguem opositores e transformam ódio em programa de governo?

Olhei para ele, sem coragem de responder. Ele mesmo concluiu:

— Não temos mais democracia. Temos um teatro com cenário democrático, mas roteiro autoritário.

Nesse momento, vi sentido na metáfora usada recentemente pelo ministro Flávio Dino no STF: é como cortar um boi em bifes e perguntar a cada pedaço se ele é um boi. Nenhum pedaço responderá que sim — mas, somados, não deixam dúvidas sobre a existência do animal.

No meu computador, escrevi em letras grandes: no Brasil, muitos preferem fingir que só existem bifes desconexos, ignorando o conjunto. Mas a soma é inescapável: quando juntamos negacionismo, misoginia, racismo, vigilância ilegal, destruição da Amazônia com desmatamento e garimpo, golpe de Estado e abuso de poder, o resultado não é um amontoado de fragmentos — é o boi inteiro. Trata-se de uma erosão sistemática do pacto social.

Fiquei orgulhoso: parecia título de artigo acadêmico. Mas, no fundo, era só um resumo do noticiário das sete.

 

4. Enumeração

— Revisar tudo para ter certeza de que nada foi omitido.

Descartes fez uma lista com letra impecável, de quem aprendeu a escrever em cadernos de caligrafia:

• Organização criminosa armada.
• Tentativa de golpe de Estado.
• Dano qualificado e depredação de patrimônio público.
• Inelegibilidade por abuso de poder e uso indevido dos meios de comunicação.
• Negacionismo durante a pandemia.
• Vigilância ilegal e perseguição política.
• Racismo explícito.
• Misoginia e desumanização das mulheres.

Levantou o olhar e disse:

Voilà! Não estamos diante de política, mas de ética corrompida: um projeto de poder que se mantém firme sobre pilares de medo, mentira e violência, minando a própria humanidade que deveria proteger.

Pensei em perguntar o que ele acharia da “intervenção divina” pregada em certos cultos neopentecostais, mas concluí que o choque cultural seria grande demais para um fantasma do século XVII que, com o susto, voltaria a morrer de novo.

A partida

Descartes levantou-se, caminhou até o ponto Z(0;0) do meu escritório e desapareceu entre os eixos. Antes, deixou a frase que ainda ecoava como um raio:

Cogito, ergo sum… mas se a razão for abandonada, o ser também se perde, ouviu Fux? 

Fiquei sozinho, madrugada adentro. O café já frio, o monitor piscando notificações inúteis: promoções de instituições bancárias, mensagens de WhatsApp com fake news recicladas, convites para lives de pastores que garantem, desde que o dízimo seja pago, cura para tudo — menos para a estupidez.

Pensei em Descartes voltando ao além, desapontado com nosso “planalto cartesiano”. Mas, antes que a desesperança me tomasse por completo, lembrei-me do meu amigo enfermeiro Douglas Porto — um daqueles raros que, mesmo em meio ao caos, ainda conseguem manter o olhar firme e a mente desperta, acostumado que está a cuidar da saúde do usuário. A alegria serena que vi nele nos últimos dias não era de revanche, mas de alívio: como se, pela primeira vez em muito tempo, a razão tivesse finalmente conseguido espaço para respirar. Em seu semblante, vi refletido o sentimento de uma parcela lúcida da população — não a que espera milagres, mas a que entende o valor simbólico de um gesto que rompe, ainda que timidamente, o ciclo da impunidade.

Foi então que uma ideia me acendeu: talvez estejamos, enfim, no início de um movimento inverso.

Não porque todos os crimes tenham sido punidos — longe disso. Nem porque a razão tenha triunfado sobre a mentira — ainda não.

Mas porque a condenação de Bolsonaro e de seus asseclas inaugura algo simbólico: um corte no fio da impunidade, uma interrupção no círculo vicioso que parecia eterno.

Não é a vitória da verdade sobre a mentira, nem da justiça plena sobre a barbárie. É apenas um degrau — e talvez vacilante. Mas todo degrau aponta para cima. Se a História for generosa, daqui a alguns anos veremos este instante como o momento em que o Brasil começou a despertar de sua madrugada febril.

E talvez — só talvez — esse despertar seja mais profundo do que parece: talvez comece também por encarar os próprios fantasmas da História. Pois se 1964 nos ensinou algo, é que golpes nem sempre chegam de farda e tanques — às vezes, vêm disfarçados de voto, de live, de slogan patriótico. E ignorar os sinais do passado é abrir caminho para repeti-los no futuro.

Então, quem sabe, Descartes tivesse sorrido, descartando a seriedade. E, em vez de desaparecer correndo para o além, tivesse deixado no ar não um suspiro de desalento, mas uma advertência esperançosa:

Mon ami, a razão cambaleia, mas ainda respira. E, enquanto houver um sopro de razão, há também a possibilidade de recomeço.

Segurei a xícara fria nas mãos e percebi o que Rubem Braga sempre soube: cada instante, por mais neutro, pode revelar profundidade. E Descartes, sussurrando através do tempo, lembrava que pensar ilumina o mundo.

Naquele instante, a madrugada deixou de ser silêncio; tornou-se clareza. E cada pequeno detalhe carregava a esperança de um novo dia.

REFERENCIAS

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/por-quais-crimes-bolsonaro-se-tornou-reu-entenda/

https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2023/Junho/por-maioria-de-votos-tse-declara-bolsonaro-inelegivel-por-8-anos

https://www.cnnbrasil.com.br/politica/stf-retira-sigilo-e-cita-jair-e-carlos-como-articuladores-da-abin-paralela/

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2022/05/bolsonaro-volta-dizer-que-negro-e-pesado-em-arrobas-e-ironiza-sua-condenacao.shtml

https://www.stj.jus.br/sites/portalp/Paginas/Comunicacao/Noticias-antigas/2017/2017-08-15_18-37_Jair-Bolsonaro-tera-de-indenizar-deputada-Maria-do-Rosario-por-danos-morais.aspx

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-55107536

https://www.brasildefato.com.br/2022/03/07/veja-nove-vezes-em-que-bolsonaro-atacou-os-direitos-das-mulheres/

 

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5 Comentário(s)

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Erickson Medeiros comentou:
12/10/2025
Um grande estatístico se mostrando um excelente escritor. Parabéns Geraldo Jr, essa crônica me deixou com aquele sorriso do Descartes quando soube do golpe impresso em papel timbrado.
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Douglas Pôrto comentou:
13/09/2025
Para além da vaidade pela citação de minha pessoa em meio a um novo texto, o qual incorpora contexto denso, complexo e recentemente vívido pelo qual passamos, há a sensação de estarmos a fazer justiça — não com as próprias mãos, mas com instituições fortalecidas, e principalmente pela sensibilidade e altivez de uma mulher. O processo não está totalizado; é importante ter essa visão e nos prepararmos. Atentos e fortes, foi o que nos devolveu a serena esperança de dias democráticos melhores. Grato,GÊ
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Simone Lopes comentou:
13/09/2025
A lógica cartesiana, aplicada magistralmente aos "acontecimentos" políticos dos últimos anos, prova que a verdade, ainda que intangível, pode ser resumida a fatos. O problema, no entanto, continua sendo a parcela de analfabetos funcionais que é incapaz de interpretar o texto escrito nas entrelinhas dos fatos. Que a aurora seja longa e que as sombras da madrugada sejam incineradas como vampiros ao sol. Parabéns pela crônica muito bem escrita! Ah, por favor estenda a Descartes a minha admiração de sempre, e lhe dê uma ideia, se não for pedir muito: visitar as mentes obtusas que não conseguem enxergar um palmo adiante dos narizes, cegos pela cortina de fumaça criada por seus macabros e tacanhos engenhos cerebrais.
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Angela Dile comentou:
13/09/2025
Esse menino vai acabar superando o mestre
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Marcelo Magaldi Alves comentou:
12/09/2025