“O que faz de um qualquer número de pérolas um colar é o fio invisível e interior que as une” (Antônio Sérgio. 1972)
- Ele é demasiado teórico.
É assim que o senso comum costuma tratar quem não tem os pés no chão. De vez em quando, até a mídia escorrega na maionese. Usa o termo “teoria” despectivamente para sinalizar o distanciamento de alguém da realidade. No entanto, do ponto de vista epistemológico, não existe melhor caminho para conhecer o mundo real do que a abstração de uma teoria científica. É através dela que nós penetramos na essência das coisas.
Aquele genial barbudo alemão do séc. XIX escreveu: “Se a aparência das coisas se confundisse com sua essência, não haveria necessidade de ciência” (O Capital Livro III, p.196). É mesmo. A realidade material não se entrega a nós simplesmente através dos cinco sentidos. Às vezes, paradoxalmente, é o contrário do que vemos e ouvimos. Vemos o sol girar ao redor da terra e observamos o fogo ser apagado pela água, que é formada por dois gases altamente inflamáveis.
O historiador português Antônio Sérgio (1883-1969) chama a atenção para o fato de que a ciência tem base empírica, ela é feita de dados - as pérolas, mas o conhecimento científico – o colar, só existirá se um fio invisível – a teoria, unir essas pérolas numa certa ordem, segundo uma configuração. O conhecimento científico tem seu suporte na teoria.
É o que o matemático e físico francês Henri Poincaré (1884-1962) definiu em outros termos, afirmando que a ciência é feita de fatos, como uma casa é feita de tijolos. Mas assim como um montão de pedras não faz uma casa, um acúmulo de fatos não constitui a ciência.
O fio invisível
Como se tece esse “fio invisível”? Historicamente é a partir da observação objetiva do dados particulares, que o observador agrupa, organiza e classifica. E, a partir dessa experiência empírica, por indução, se generaliza. Um exemplo de forma simplista: muitas experiências que submeteram barras de ferro ao calor, permitiram generalizar: “todo ferro dilata com o calor”. Na medida em que outros metais passaram pela mesma experiência, a lei foi mais genérica ainda: “todo metal dilata com o calor”.
No entanto, quase todas disciplinas científicas já ampliaram seu campo de observação e elaboraram modelos hipotéticos, leis e teorias universais, a tal ponto que na etapa atual se inverteu esse procedimento: a ciência agora se apoia em leis e teorias gerais para dar conta do particular num processo de dedução. Então, quando se observa um pedaço de ferro ou cobre, já antecipamos a hipótese: “se submeter ao calor, aposto que vai dilatar”. É o que nos diz o linguista francês Nicolas Ruwet da Universidade de Paris na Introdução à Gramática Generativa,
Ruwet conclui que uma teoria nunca poderá ser verificada plenamente. Ninguém pode afirmar que ela é verdadeira de forma acabada e definitiva, o máximo que podemos afirmar é que diante dos fatos comprovados, ela continua válida e se fortalece, mas pode ser falsa se em algum momento a hipótese não se confirmar. Um milhão de comprovações não é suficiente para proclamar uma verdade como eterna, mas um só contraexemplo de negação basta para invalidar a teoria, que terá de ser reformulada.
As pesquisas científicas existem para fazer avançar a teoria: confirmá-la, fortalecê-la ou negá-la. Darwin (1809-1882) em “A Origem das Espécies” (1859) demonstra surpresa: “Como é estranho que ainda existe gente que não compreende que, para ter alguma utilidade, toda observação deve confirmar ou contrariar alguma concepção teórica!”.
O barulho da vida
Mas a ciência produzida nas sociedades letradas não é o único procedimento que usa fios para produzir saberes. Nas sociedades indígenas, de tradição oral, os conhecimentos produzidos e veiculados se baseiam também na observação e em hipóteses genéricas, formuladas com fio de tucum para formar o colar com sementes de jarina - “o marfim da Amazônia”. “A oralidade é o barulho da vida que temos dentro do nosso corpo” – disse um dia o sábio guarani Alcindo Moreira Wherá Tupã (2015).
Esse barulho começou a silenciar diante da invasão europeia ao nosso continente, que provocou um choque entre, de um lado, culturas orais próprias dos povos nativos e, de outro, culturas letradas trazidas pelo colonizador. É o choque entre a Cidade Letrada – título do livro do escritor uruguaio Ángel Rama (1926-1983) e a Comarca Oral do crítico venezuelano Carlos Pacheco (1948-2015), que se tornou uma referência para os estudos sobre oralidade.
O colonizador menosprezou e discriminou os saberes orais, concluindo que essas eram “sociedades carentes de escrita”, quando na realidade eram “independentes da escrita”. Carlos Pacheco constata a vigorosa produção e circulação de textos orais, propõe uma metodologia para superar o preconceito de que o saber só existe se for no registro escrito e defende a necessidade de superar o dualismo oralidade/escrita.
Este autor não idealiza a oralidade e nem podia muito menos rejeitar as culturas letradas, especialmente considerando que a fronteira entre esses dois tipos de registro tem se tornando bastante porosa, de acordo com o conceito de “transculturação narrativa” de Ángel Rama, que constata a incorporação de elementos das culturas letradas em narrativas originais do mundo da oralidade e vice-versa.
Saberes orais
No entanto, como escreveu o ator e filósofo François Vallaeys, professor da PUC-Peru. “um relato oral transcrito no papel impresso é como um doente no leito de um hospital. Sobrevive. Mas é preciso retirá-lo do livro e voltar a contá-lo oralmente para que fique curado”. A “literatura da voz”, que sempre muda e se atualiza cada vez que é contada, não pode ficar permanentemente congelada, emoldurada, imobilizada no papel – ele diz.
No mundo da oralidade, a melhor maneira de transmitir conhecimentos é contando uma história, como registra o antropólogo e linguista britânico Gregory Bateson (1904-1980) em seu livro Mente e Natureza, quando pergunta ao computador:
- Como é que o ser humano aprende?
- Isso me lembra uma história.... – Responde o computador.
Tal aprendizagem havia sido observada pelo botânico João Barbosa Rodrigues (1842-1909), que viveu no Amazonas no final do séc. XIX, quando criou e dirigiu o Museu Botânico de Manaus. Ficou fascinado com as “pérolas” e o “fio invisível” dos colares feitos por povos originários representados pelos sistemas de classificação elaborados com rigor, lógica impecável e método que nada fica a dever à ciência e se insurgiu contra o discurso colonial que busca invisibilizar e desqualificar esse saber considerado como “atrasado”.
“Essa calúnia é difundida pelos ambiciosos e sanguinários que se locupletaram explorando os índios e procuram uma desculpa para esconder seus crimes, condenando os descendentes dos desgraçados a passar à posteridade como brutos, sem sentimento e sem cultura”.
O seu livro intitulado “A botânica – nomenclatura indígena” (1905), está repleto com nomes indígenas de plantas medicinais, algumas até então desconhecidas pela ciência ocidental.
Cada vez que o botânico desconhecia o nome de uma planta amazônica e perguntava a um indígena ou caboclo, ouvia sempre a contação de uma história que continha a resposta. Ele percebeu que numa sociedade sem biblioteca, sem livros, sem escrita alfabética, mas com forte tradição oral, histórias e cantos funcionam como enciclopédias onde estão contidos os saberes necessários para a sobrevivência e a reprodução das culturas.
Literatura da voz
Várias histórias foram narradas no texto da conferência de abertura do 2º Encontro de Pós-Graduação e 23º Seminário de Pesquisas em andamento organizado de 26 a 29 de agosto pelo Programa de Pós-Graduação em Letras do Campus da Universidade Federal do Pará, em Cametá, sob o tema Oralidade, Saberes e Mudanças Climáticas. Enviei o texto para os organizadores, porque uma virose me impediu de comparecer presencialmente.
Entre as histórias mencionadas: 1) Os Três Porquinhos na versão do povo Suruí-Aikewara do Sudeste do Pará 2) o relato oral e a canção de ninar, arquivos de saberes que salvaram as vidas dos povos aborígenes de duas ilhas do golfo de Bengala durante o tsunami que matou em dezembro de 2004 mais de 230 mil pessoas; 3) uma versão da narrativa O Jacamim e sua sogra em busca da beleza, que constitui um minitratado de ornitologia das aves amazônicas; 4) a narrativa mítica da Cobra-Canoa que, entre outras funções, é um mapa de navegação dos rios Uaupés e Negro, responsável por salvar vidas indígenas.
Tais conhecimentos são veiculados também no campo da cultura popular. O exemplo mais acabado de transculturação narrativa é a literatura de cordel, que transita entre o oral e o escrito e retorna ao universo da oralidade. Os conhecimentos que circulam em versos na literatura de cordel muitas vezes dedicaram um olhar atento para a questão ambiental.
Literatura de Cordel
As secas do sertão, as cheias dos rios, as inundações das cidades e outras manifestações da natureza estão presentes nas obras de vários dos 44 cordelistas, cujas biografias são apresentadas ao lado de trechos selecionados dos cordéis registrados por Sebastião Nunes Batista (1925-1982) em sua Antologia da Literatura de Cordel.
Na conferência são citados ainda Os Mosquitos de Itaipu, O Gemido da Lagoa, A Falta d´água no mundo, O Menino que virou rio, Votú – o demônio da Amazônia obras do cordelista João Batista Melo, 87 anos, que escreveu vários cordéis sobre o tema ambiental.
Numa delas, o autor desconstrói a figura demoníaca desse ser fantástico construída pelo discursos colonial – o Votu (vento em língua tupi), com 3 metros de altura e força de 10 homens, que habita a floresta e mostra que sua função é defender as árvores, os rios, a floresta. Concluo citando estrofes com seus versos:
“Esse demônio amazônico / feroz e assustador / era na realidade / da floresta um protetor / e quem tinha ódio dele/ agora só sente amor”.
“Só vai haver Amazônia / com garças e tuiuiús / manguezais abarrotados / de crustáceo e sururus / No dia em que todos nós / virarmos muitos Votus”.
João Batista ouve a floresta e os rios. Em Os Gemidos da lagoa de Itaipu – Niterói, ele canta: “Comecei a ouvir lamentos / vindos da água parada / era a lagoa gemendo / e sua voz parecendo / está morrendo afogada”. Lá, ele lamenta o desastre ecológico através da conversa entre as aves: “O colhereiro tristonho /falou para o maçarico / avise a titia garça / que eu entortei o meu bico / sem ter mais como pescar / daqui eu vou me mandar / a lagoa virou pinico”.
Essa mesma preocupação com igual cuidado e criatividade aparece na obra da pajé Zeneida Lima, de Soure, no Marajó.

Referências bibliográficas
Angel Rama. La Ciudad Letrada. Montevideo. Arca. 1998
Antônio Sérgio. Breve Interpretação da História de Portugal. Lisboa. Livraria São da Costa. 1972
Carlos Pacheco. La Comarca Oral revisitada. Bogotá. Universidad Nacional de Colômbia, 2016.
Ivânia Neves (coord). Poéticas da Oralidade Indígena no Contemporâneo: Cartografias Amazônicas. Belém. UFPA-PPGL.2024
João Barbosa Rodrigues. A Botânica. Nomenclatura Indígena. Rio. Imprensa Nacional. 1905
João Batista Melo. 1) Votu, o Demônio da Amazônia; 2) O Gemido da Lagoa. 3) Mosquitos de Itaipu; 4) A falta d´água no mundo. Niterói. Edição Incopy Serviços Literatura de Cordel. 2009
José Bessa Freire. El estudio de la sociedad. Lima. La Cantuta. 1976
Nicolas Ruwet. Introduction à la grammaire générative. Paris. Plon. 1974
Sebastião Nunes Batista. Antologia da Literatura de Cordel. Natal -RN, Gráfica Manimbu. 1977.
Artigos Jornalísticos:
Taquiprati. A sogra do Jacamim em busca da beleza. Manaus. Diário do Amazonas. 12/09/2010. https://www.taquiprati.com.br/cronica/882-a-sogra-do-jacamim-em-busca-da-beleza
Taquiprati. Casimiro, o índio do Mar Báltico. Manaus. Diário do Amazonas. 26/07/2015. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1154-casimiro-o-indio-do-mar-batico-espanhol
Taquiprati. Saber Tradicional, Índios e Tsunami. Manaus. Diário do Amazonas. 23/01/2005. https://www.taquiprati.com.br/cronica/258-saber-tradicional-indios-e-tsunamis
Taquiprati. Brasil, a Lagoa dos Negros. Manaus. Diário do Amazonas. 17/01/2010. https://www.taquiprati.com.br/cronica/841-brasil-a-lagoa-dos-negros-version-en-espa
Taquiprati. O Cordelista que não se vendeu. Manaus. Diário do Amazonas. 12/12/2010. https://www.taquiprati.com.br/cronica/895-o-cordelista-que-nao-se-vendeu

