“Escrevo para descobrir o que estou pensando”. (Júlio Cortázar. Entrevista. 1972)
Pode isso, Arnaldo? Será que um estatístico, que mexe com números e modelos matemáticos, pode usar a linguagem das palavras para fazer literatura?
Pode sim. O criador da teoria dos conjuntos, Georg Cantor, se refere à ponte construída entre a matemática e a poesia, que nos permite apreender a beleza e a estrutura de modelos matemáticos com uma abordagem lúdica e criativa. Ele garante que “a essência da matemática é a liberdade”. Não existe reserva de mercado para o exercício da literatura. Se o estatístico liberta sua criatividade e imaginação e domina a linguagem escrita, ele pode transmitir suas experiências, sentimentos, ideias com maior ou menor qualidade. No caso do livro que você vai ler, com admirável qualidade literária.
O autor Geraldo Lopes de Souza Junior, 48 anos, mestre em Estatística pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entrou no paraíso que Cantor criou. Escolheu entre os vários gêneros literários a autobiografia, que é um reencontro com sua memória reconstruída desde o nascimento e repleta de reflexões ancoradas na obra de notáveis pensadores. Dois deles orientam cada capítulo através de epígrafes: o holandês Spinoza (séc. XVII) excomungado pelo poder judaico por criticar dogmas e Paulo Freire, preso, perseguido e exilado pela ditadura militar-empresarial do Brasil.
A matemática está presente no título Do pensamento qui-quadrado a uma vida normal porque “a vida é desordenada e imprevisível” - ele diz - “da mesma forma que a estatística, que é a arte de lidar com a incerteza”. Tais incertezas estão presentes desde sua infância naquela Manaus que se foi, mas também na sua idade adulta nessa outra Manaus que ficou, responsável por despejar nas urnas nas últimas eleições uma pororoca de mais de 62% dos votos no Coiso.
A Rua, a vizinhança
Sua história de vida é contada em 18 capítulos curtos, cada um dando conta dos sonhos, escolhas, indecisões, aventuras, transgressões, relações com pais, família, avó, filhos, amigos, instituições e convivência com os vizinhos.
Na rua, eram trinta casas “repletas de histórias, gestos e aprendizados que moldaram minha infância e adolescência” – ele escreve, reconhecendo implicitamente que aprendeu muito sobre a natureza humana observando a vizinhança sempre solidária. E exceção era a vizinha de muro apelidada de “Maligna”, que furava toda e qualquer bola que caísse em seu quintal. Em alguns casos, a realidade superava a ficção. Um exemplo: a família, que faria inveja à imaginação de Gabriel García Márques, não hesitou em batizar as três filhas com os nomes de Kenyellen, Katyellen e Karyellen.
Nessa época, a vizinhança era sadia e não estava na UTI. Hoje, o vizinho morreu e seu atestado de óbito foi assinado pelo poeta Aldísio Filgueiras:
E os vizinhos
moram tão longe
vivem
e morrem tão longe
como se eu não pudesse
ouvi-los respirar
no endereço ao lado.
As memórias do escritor estatístico dissecam diversos períodos: infância, juventude, idade adulta, inspirado em Spinoza – para quem “se esquecemos o passado, ele volta”.
Destaque para as brincadeiras infantis na rua, que “não era um simples endereço, era o lar eterno”, assim como para suas expectativas no período denominado por ele de Qui-Quadrado, no qual se registra uma dissonância entre o que esperamos e o que realmente acontece.
As fases da vida
A originalidade da escrita reside em grande medida no fato de que as reflexões sobre a vida estão quase sempre apoiadas em modelos estatísticos e em considerações filosóficas, que iluminam o caminho percorrido, como na questão da igualdade de gênero relativa à divisão de tarefas com as irmãs e os irmãos em sua casa, dentro da qual diariamente se discutia a justiça social e os embates políticos e sindicais.
Se alguém me perguntasse no mês passado quem é Weibull, Poisson e Bernoulli, eu responderia: “Nunca os vi mais gordos e, para falar a verdade, nem mais magros”. Hoje, graças ao meu interesse pela literatura e à minha curiosidade de fofoqueiro que me levaram a ler o Qui-Quadrado, eu diria que esses três pesquisadores criaram distribuições de probabilidades capazes de apimentar a narrativa em cada fase da vida.
O matemático suíço Jacob Bernoulli (1654-1705) realizou em sua época trabalho pioneiro, criando um conceito central na estatística e na análise de dados usados em diversas áreas do conhecimento, para descrever a probabilidade de sucesso ou fracasso. A fase Bernoulli ajuda a entender a passagem do autor pelo Rio de Janeiro e por Belo Horizonte.
Já Waloddi Weibull (1887-1979), engenheiro e matemático sueco, criou uma ferramenta usada em probabilidades e estatística, capaz de fazer algumas previsões com base em dados disponíveis. A fase Weibull registra o encontro com Graziela, sua amada, o nascimento dos filhos, cuja educação é produto de profundas reflexões sobre as formas de relacionamento com eles.
Ele manifesta a contradição permanente entre o tempo dedicado ao exercício da paternidade e a sua realização como profissional no trabalho na Secretaria Municipal de Saúde como profissional estatístico. Não é fácil chegar ao equilíbrio. Lança ainda um olhar crítico sobre a questão ética, com uma autocobrança excessivamente rigorosa. Sobre a relevância social do seu trabalho, conclui:
- O que antes via como uma disciplina fria e técnica – a Estatística – se revelou como uma ferramenta poderosa, capaz de transformar profundamente a atenção primária de saúde em Manaus.
Outra fase que norteia um capítulo é aquela baseada em Siméon Poisson (1781-1840), matemático e físico francês, que descobriu a probabilidade de um determinado número de eventos ocorrer em um intervalo fixo de tempo ou espaço. Isso permitiu estudos inclusive na área jurídica como demonstrado por Poisson em sua “Pesquisa sobre a probabilidade em julgamentos sobre matérias criminais e civis”.
No exercício de sua profissão, o escritor Geraldo Júnior revela que se sentia preso a uma equação de Poisson, onde os eventos se multiplicavam e escapavam a seu controle, não permitindo que administrasse os seus impactos.
Para não dar spoiler deixo a leitoras e leitores o prazer de navegar por esse texto de leitura agradável, despretensioso, mas com algumas reflexões profundas que podem nos ajudar a olhar a nossa própria trajetória de vida. A ele cabe a frase retomada pelo escritor argentino Júlio Cortázar, quando perguntado porque escrevia.
- Escrevo para descobrir o que estou pensando.
Efetivamente, na medida em que o escritor coloca suas ideias e sentimentos no papel, produz um conhecimento sobre si mesmo, desenreda alguns mistérios que o afligem e descobre novos mundos. Esperamos que esse seja o primeiro de outros escritos que certamente virão. Queremos saber o que ele continua pensando..
P.S. - Essa crônica havia sido visualizada por 3.212 leitores, com muitos comentários, quando foi hackeada. Tivemos de repartir do zero tanto em relação à quantidade de visualizações quanto a de comentários. A luta continua.
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