“Eu sou apenas um rapaz latino-americano. Sem dinheiro no banco,
sem parentes importantes. E vindo do interior”. (Belchior. 1876)
(17 de julho de 2026) As pesquisas apontam, com margem de erro de 2 Messi para mais ou 2 Messi para menos, que 82% dos brasileiros, segundo O Globo, ligaram o “secador” contra a Argentina. Torcem por sua derrota, mas na plataforma de apostas arriscam na sua vitória. A torcida brasileira está “betsficada”: 34.8% da população se endividou mais ainda, enganada pela propaganda feita por craques, cujo patrimônio aumenta com as bençãos da FIFA e do presidente Infantino que, obedecendo ordens de Trump, concedeu a ele o prêmio da paz - quanto escárnio! – a ele, um fazedor de guerras, o super VAR, anulador de cartão vermelho.
Os “argumentos” são todos extracampo: “A Argentina tetracampeã vai se aproximar do penta do Brasil” – diz o porteiro do meu edifício. E daí? “A torcida deles é racista”, diz um amigo de esquerda, que esqueceu a violência discriminatória dos espanhóis contra o Vini em campo e nas arquibancadas e ignorou o discurso racista de Mariano Rajoy, ex-presidente do Governo da Espanha. Racistas abjetos existem em todos os países e devem ser combatidos, mas existem também, felizmente, antiracistas na Argentina e na Espanha. “Ah, o tetra vai fortalecer o Milei” – justificam os que torceram pelo Brasil durante 20 anos de ditadura e até no recente governo do Coiso. A relação política x futebol parece ser mais complexa do que isso. Lembro que na Copa de 1970, alguns de nós, no exílio, queríamos torcer contra o Brasil da ditadura, o que aconteceu até a primeira vitória de 4 x 1 contra a Tchecoslováquia, quando a partir daí vestimos a camisa amarela.
- Vocês não querem que a Argentina ganhe por inveja, porque ela joga bonito, com raça, tem vários craques e um extraterrestre – escreveu Mauro Iasi, professor aposentado da UFRJ, desmistificando toda essa xaropada.
Torcida não decide jogo. Mas é uma escolha que diz muito sobre cada um de nós. Atualizo aqui artigo antes da final Argentina x Alemanha de 2014, quando Galvão Bueno, com sua aversão contra os hermanos, era a principal voz da emissora na cobertura da Copa. Repito aqui que a torcida brasileira estará dividida no próximo domingo, mas não entre Espanha e Argentina. Uma grande parte, em função da rivalidade tradicional, torce contra a Argentina. A outra, a favor. É uma rixa antiga. Brasileiros amam odiar argentinos, já os argentinos odeiam amar os brasileiros.
O jogo é entre Amor x Ódio à Argentina. Há muitas razões para amar os hermanos. Escolho cinco, a primeira no campo de futebol, as outras nos campos da música, literatura, cinema e história. E um motivo usado para odiá-los: o ethos nacional.
O futebol
Merece aplausos o belo futebol coletivo da Espanha com o menino Lamine Yamal, que já foi embalado no colo do Messi. Porém – aaaaai, porém – há um caso diferente. Quem gosta de belas jogadas, ama os argentinos. Contra o Egito, perdendo de 2 x 0, fez três gols nos minutos finais. Sem falar na surpreendente virada contra a Inglaterra, que tinha uma senhora defesa. Não dá para deixar de amar um time, que tem um Messi e já teve um Maradona. É gol. Amor 1 x 0 Ódio à Argentina. Desta vez não foi a “mão”, mas Messi, o pé de Deus, que arquitetou dois gols no final da partida.
A música
Saímos do campo de futebol e entramos no palco da música. Fica deslumbrado com a Argentina quem ouviu Lunita Tucumana de Atahualpa Yupanqui na voz de Mercedes Sosa, que cantou no Teatro Amazonas, em Manaus, em 1980:
Yo no le canto a la luna / porque alumbra nada mas /
le canto porque ella sabe / de mi largo caminar.
O amor pela música argentina é um patrimônio compartilhado por qualquer latino-americano que tem o privilégio de conhecê-la. Numa noitada em Santa Cruz de La Sierra, com Marco Lucchesi, presidente da Fundação Biblioteca Nacional, vimos engenheiros bolivianos da Petrobrás chorarem com a lembrança de Catamarca: "un pueblito aqui, otro más allá" e despirocarem com Guitarra Nochera cantada pelos saltenhos Los Chalchaleros - um grupo de folclore tradicional que, lamentavelmente, atuou em sintonia com a ditadura argentina:
Mojada de luz, es mi guitarra nochera,
ciñendo voy tu cintura encendida por las estrellas.
Não é possível omitir o genial Jorge Cafrune, que morreu tão cedo, aos 41 anos, num "acidente" misterioso, com suspeitas de ter sido assassinado pelas forças da repressão. Ele cantou a morte de Tata Juancho, que "se fue despacito, despacito, p´a quedar un poco más" e - coitado - "en su vida sin domingos, nunca tuvo un guitarrear". Cafrune tornou célebre no mundo todo o Zamba de mi esperanza, que é para ouvir de joelhos:
- Zamba, ya no me dejes, Yo, sin tu canto, no vivo más.
São tantos os ritmos: tango, milonga, chacarera, chamamé, gato, cueca, samba – sim, eles têm até samba, que lá é feminino: la zamba. O Brasil certamente torceria pela Argentina se, no lugar do hino nacional - "al gran pueblo argentino, salud!" - os jogadores entoassem na final da Copa a Zamba de la Candelaria, de Eduardo Falú, nascida na boquinha da noite, “cuando la luna lloraba astillas de plata la muerte del sol”. Ou Caminito. Ou ainda a Tonada del viejo amor:
“No tengo miedo al invierno con tu recuerdo lleno de sol”.
Descobri, numa peña em Buenos Aires, que o bairro de Aparecida e toda Manaus cabiam dentro de Santiago del Estero, ao ouvir Como um pájaro en el aire de Cuti e Roberto Carabajal. Lá estava dona Elisa e suas proezas culinárias:
¨As mãos de minha mãe / parecem pássaros no ar.
Histórias de cozinha / entre suas asas feridas de fome.
Não foi sequer preciso recorrer a Gardel, o Martín Fierro do tango, para fazer um golaço na arena da música. No placar: Amor pelos argentinos 2 x 0 Ódio. O jogo podia terminar aqui, mas está apenas começando.
A literatura
No meio de campo da literatura, os argentinos têm muitos craques que nos fazem amá-los. O maior deles, Jorge Luis Borges, romancista e poeta, produziu uma obra que contém todo o fervor de Buenos Aires e a história universal da infâmia: fantasias, delírios, jogos de espelhos, labirintos, sendeiros que se bifurcam. Cego e poeta, via no escuro, e ainda assim sempre acertava o gol como em El Aleph com suas metáforas em histórias inventadas. Fazia com as palavras o que Messi faz com a bola: criava. Para o deleite de quem aprecia palavras e bola.
Nos anos 1960, o sonho de todo latino-americano era viver em Paris para escrever como o "cronópio" Júlio Cortázar, o outro craque argentino que lá morava e que criou tantos personagens inesquecíveis no jogo de amarelinha: Horácio, a distraída Maga e seu filho Rocamadour, Morelli e Perico Romero do romance Rayuela. Um dia, em 1972, ouvi Cortázar falar no Congresso de Literatura Latino-americana organizado em Paris por Jacques Leenhardt, nosso professor de sociologia da literatura. Foi nesse encantamento que redimensionei a nossa identidade. Somos todos cronópios.
Ernesto Sábato, com seu desconcertante informe sobre os cegos; Bioy Casares, o inventor de Morel, e Ricardo Piglia com nome falso e respiração artificial seriam escalados em qualquer seleção literária do planeta, da mesma forma que Juan Gelman, esse filho de judeu ucraniano, cuja poesia tem ironia, humor, amor – Amor que serena, termina? – e está marcada pela dor e pela morte. Lutou contra a ditadura militar que assassinou seu filho e viveu como "um esperançoso sem remédio". No campo da literatura, o terceiro gol: Amor 3 x 0 Ódio. Pausa para hidratação e visita a uma livraria.
Biblioteca de rua
Merece ser amado um país letrado, com tradição de leitura, cuja capital tem 365 livrarias, que contam muitas histórias, uma delas vivida por meu amigo escritor Guillermo David, diretor da Biblioteca Nacional de Buenos Aires. Uma noite, ao voltar para sua residência no bairro de Caballito, Guille encontrou na frente do seu edifício um jovem casal de moradores de rua deitados em um velho colchão. Chamemos o rapaz de Júlio e a menina de Aurora para homenagear dois cronópios porretas.
Os dois fizeram amizade com Guille, que lhes servia toda noite uma quentinha. Um belo dia o escritor, que já escreveu sobre o povo Baré do rio Negro (Amazonas), onde fez trabalho de campo, chega carregado de livros comprados no sebo do Parque Centenário, ali perto. Júlio pergunta:
- Mestre, aí tem livro de poesia? Pode me emprestar?
Ele queria uma quentinha para aquecer a alma. Ganhou de presente “Veinte poemas de amor y una canción desesperada” e, com a voz embargada de emoção, começou a recitar os versos de Neruda para Aurora:
“Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido”.

Com ajuda de Guille, o casal organizou ali uma pequena biblioteca de rua que eu tive a sorte de visitar. É extraordinário um país com povo tão letrado, onde um morador de rua curte literatura e lê poesia para sua amada.
O cinema
Segundo tempo. O jogo prossegue com a história recente. Se você quer torcer neste domingo pela Espanha, não veja nenhum filme argentino, porque ficará enfeitiçado. Como eles sabem contar uma boa história! Os hermanos, com pouca grana, estão fazendo filmes de tirar o fôlego. Não foi por ação marqueteira que O Segredo dos seus olhos ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2010. A História oficial, Nove Rainhas, Buenos Aires na era do amor virtual são obras primas.
Os que torcem contra a Argentina podem alegar que os filmes são geniais, mas que eles têm um único e solitário ator: Ricardo Darín. E eu vos digo que é verdade, mas que não precisam de outros atores, porque Darín vale por mil. Ele é protagonista de Kamchatka – lugar de resistência, um filme gravado totalmente na Argentina com apoio financeiro da Espanha. Narra as lembranças de um menino de dez anos, cuja família é perseguida pela ditadura militar. Numa bobeada do Ódio, o Amor da Argentina faz seu quarto gol: Amor 4 x 0 Ódio.
Locas de Mayo
Desesperado com a derrota iminente, o Ódio joga violento, dá um golpe militar e instaura a ditadura (1976-1983). Milhares de hermanos são torturados em mais de 700 centros de prisões clandestinas, o mais conhecido sediado na Escuela Superior de Mecánica de la Armada (ESMA), atual sede do Museu da Memória e dos Direitos Humanos inaugurado em 2015, graças à resistência ao Ódio. A UNESCO declarou o Museu como “patrimônio da humanidade de valor excepcional” por documentar crimes contra o gênero humano, que extrapolaram os limites da crueldade e da perversão. Mortos e desaparecidos foram estimados em cerca de 30.000.

Da arquibancada, acompanhei o jogo no dia 15 de novembro de 2023, quando durante quatro horas visitei o Museu, percorri seus jardins, em um dos quais está exposto o avião usado em dezembro de 1977 no “voo da morte”, que arrojou ao mar 12 pessoas, entre elas duas freiras francesas e três mães da Praça de Mayo, cujos corpos apareceram boiando na beira-mar na costa de Buenos Aires. Circulei, horrorizado, pelos prédios – são mais de 20 - um deles dedicado às crianças, outro às avós de netas e netos sequestrados, outro ainda ao Instituto Nacional de Assuntos Indigenas.
O juiz marca um pênalti contra o Ódio. A penalidade máxima é cobrada por uma das avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto. O Ódio pula para o lado errado. Goooool: Amor 5 x 0 Ódio. O VAR confirma o veredito do Juiz, que condenou 1.058 réus, entre eles generais quatro estrelas, almirantes e brigadeiros, por crimes de tortura, homicídio, roubo, sequestro, estupro, feminicídio de mulheres grávidas, sequestro e venda de bebês. Um deles, o ditador general Videla, punido com prisão perpétua num presídio (negada a prisão domiciliar), morreu soluçando sentado no vaso sanitário de sua cela, com um rolo de papel higiênico na mão.
As benditas locas de Plaza de Mayo continuaram o combate. Reconquistaram a sua história roubada. Na luta, às vezes é preciso conciliar, nesse caso não chame argentinos, mas brasileiros - e essa parece ser uma virtude nossa. Mas se for pra sair pro pau, chamem um argentino - essa é a virtude deles. É o que chamamos popularmente de “raça”, que se reflete no futebol. Quando nas Eliminatórias da Copa de 1994, no Monumental de Nuñez, a Colômbia derrotou a Argentina por 5 x 0, os hermanos morreram lutando com garra até o último minuto.
Gol do Ódio
Aos 45 minutos do segundo tempo, nasce o gol de honra do Ódio na grande área do ethos nacional. Os hermanos são pretensiosos, arrogantes, desabusados, cheios de empáfia, marrentos – dizem as más línguas. No Congresso de Americanistas na Polônia, no ano 2000, numa roda de conversas com latino-americanos, perguntei aos autores de tais acusações, se os argentinos que conhecem se enquadravam nesse perfil. A resposta foi sempre: "No, ese es diferente, es mi argentino".
Formulei, então, a tese de que argentinos genéricos são arrogantes, mas os de carne e osso, os amigos, são afáveis e doces.
- Qué raro, che! A gente pensa exatamente o contrário de vocês: o brasileiro genérico é divertido, alegre, extrovertido, mas o concreto é uma porcaria - me disse um sociólogo argentino de brincadeirinha, só pra sacanear. O fato de os hermanos concretos cultivarem como ninguém o dom da amizade pessoal não foi considerado impedimento pelo bandeirinha. O juiz validou o gol. O jogo terminou: Amor 5 x Ódio 1.
Com tal resultado, neste domingo, estarei torcendo apaixonadamente pela Argentina. Em lunfardo. Afinal, “eu sou apenas um rapaz latino-americano". Esta declaração de amor não impede que, na Copa de 2030, a gente não queira comer o fígado dos hermanos, o que pode ocorrer se o mister Ancelotti deixar de mastigar chiclete. Sei que se derrotarem a Espanha, ficarão in-su-por-tá-veis, mas vai ser um prazer esmagar os tetracampeões em 2030.
O que seria de nós, brasileiros, se os argentinos não existissem? Sem a rivalidade com eles, o espelho se quebraria e não veríamos mais nele a nossa imagem.
P.S. Seria pretencioso pensar que alguém vai mudar de lado por conhecer melhor o adversário. O objetivo desse texto é tornar mais conhecida a Argentina por aqueles que vão torcer contra. Aos torcedores da Espanha, envio daqui calorosas saudações, mas espero que preparem o lencinho. Vai dar zebra. Meu coração é hermano.
Referências:
Mauro Iasi. O futebol e a alma expropriada. 15/07/2026. Blog Boi Tempo. https://blogdaboitempo.com.br/2026/07/15/o-futebol-e-a-alma-expropriada/?
Guillermo David: El puchero misterioso: plagios, simulacros, embustes y otros ademanes peronistas. B. Aires. Meridión. 2021.
Artigos do Taquiprati
A Copa do Mundo: a seleção brasileira no divã. 06/08/2014. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1094-copa-do-mundo-a-selecao-brasileira-no-diva
A Copa do Mundo: o pirarucu e o tambaqui. 26/11/2022. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1668-a-copa-do-mundo-o-pirarucu-e-o-tambaqui
Copa do Mundo: o jogo indígena na Escola Oga Mita. 01/07/2018. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1402-copa-do-mundo-o-jogo-indigena-na-escola-oga-mita
Japoneses no Estádio, Dersu Uzala na Copa. 22/06/2014. https://www.taquiprati.com.br/cronica/1092-japoneses-no-estadio-dersu-uzala-na-copa
E se Jesus tivesse nascido em Buenos Aires? 17/12/2023 https://www.taquiprati.com.br/cronica/1726-e-se-jesus-tivesse-nascido-em-buenos-aires
NÃO CHORES POR MIM, ARGENTINA
(13/07/2014)
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Niños del mundo, si cae Argentina - digo, es un decir -
salid, niños del mundo; id a buscarla! (*)
Começo por onde? Ah, a música! Fica deslumbrado com a Argentina quem ouviu Mercedes Sosa, frágil como um segundo, cantar o clássico chileno de Violeta Parra Gracias a la vida com Chico, Caetano, Milton e Gal. Ou quem escutou La Lunita Tucumana, tamborcito calchaqui, de Atahualpa Yupanqui:
Ernesto Sábato, com seu desconcertante informe sobre os cegos; Bioy Casares, o inventor de Morel, e Ricardo Piglia com nome falso e respiração artificial seriam escalados em qualquer seleção literária do planeta, da mesma forma que Juan Gelman, esse filho de judeu ucraniano, cuja poesia tem ironia, humor, amor – Amor que serena, termina? – e está marcada pela dor e pela morte. Lutou contra a ditadura militar que assassinou seu filho e viveu como "um esperançoso sem remédio". No campo da literatura, o segundo gol: Amor 2 x 0 Ódio. Terminou o primeiro tempo.
Aos 45 minutos do segundo tempo, nasce o gol de honra da Alemanha na grande área do ethos nacional. Os hermanos são pretensiosos, arrogantes, desabusados, cheios de empáfia, marrentos – dizem as más línguas. Já perguntei a amigos latino-americanos, autores de tais acusações, se os argentinos que conhecem se enquadram nesse perfil. A resposta é sempre: "no, ese es diferente, es mi argentino". Formulei, então, a tese de que argentinos em abstrato são arrogantes, mas os de carne e osso, os amigos, são afáveis e doces. Exatamente como meu gato León, que se mostra indiferente com quem não conhece, mas não é de porra nenhuma, se desmancha todo com quem gosta.
Agora, se a Argentina perder no Maracanã - digo, é uma forma de dizer e bato três vezes na madeira toc toc toc - ah, se a Argentina perder, meninos do mundo, ide a salvá-la. salid, niños del mundo;¡ id a buscarla!(*)
¿Quién va a caer este domingo épico en el Maracaná? Los brasileños están divididos, pero no entre Alemania y Argentina. No! Les aconsejo a los alemanes que no confíen en las silbatinas ni en los aplausos. No hay brasileño contra ni a favor de Alemania, ni siquiera un mísero hincha. Hans y Fritz, aunque sean campeones de bola, no despiertan pasiones entre nosotros. Nuestra pasión es azul y blanca. Una parte de Brasil hace barra CONTRA Argentina. La otra, a FAVOR de Argentina. Esta pasión será la única en campo. Alemania es apenas un detalle. Podía ser Kulodelmundistán que no sería diferente.
Son tantos los ritmos: tango, milonga, chacarera, chamamé, gato, cueca, zamba – sí, ellos tienen zamba, con ‘z’, en femenino. Brasil con certeza haría barra por Argentina si, en lugar del himno nacional - "al gran pueblo argentino, salud!" – los jugadores entonasen en el Maracaná laZamba de la Candelaria, de Eduardo Falú, nacida al comienzo de la noche, “cuando la luna lloraba astillas de plata la muerte del sol”. O Caminito. O aún la Tonada del viejo amor:
El segundo tiempo comienza con la historia reciente. Un penalti contra el odio. Penalidad máxima. Los argentinos prendieron a los torturadores, incluyendo ex-presidentes y generales de cuatro estrellas. Reconquistaron su historia robada. Golazo: 3 x 0 de Amor a los hermanos. A veces, se necesita conciliar, en ese caso que no se llame a argentinos, sino a brasileños - esa parece ser una virtud nuestra. Pero si se trata de confrontar, llamen un argentino - esa es su virtud. Las benditas locas de Plaza de Mayo no me dejan mentir. Es lo que llamamos popularmente de raza. Cuando en el Monumental de Núñez en 1993, Colombia derrotó a Argentina por 5 x 0, los hermanos murieron luchando con garra hasta el último minuto.
Con ese resultado, este domingo estaré haciendo barra con pasión por Argentina. En lunfardo. Al final, como ya cantó Belchior, soy "apenas um rapaz latino-americano". Podéis contra argumentar que los inmigrantes alemanes dieron un color nuevo al Brasil, que Alemania tiene créditos para ser amada, con un equipo de primera en los campos citados: Wagner, Goethe, Thomas Mann, Brecht, Marx, Engels, Hegel, Rosa Luxemburgo, Murnau, Fritz Lang, Fassbinder, Dietrich - o Gerhard, así como Marlene de Ángel Azul, cantando con su voz sensual, hasta los artilleros Müller y Klose.
Ahora, si Argentina pierde - digo, es un decir – y doy tres toques en la madera toc toc toc - ah, si Argentina pierde, niños del mundo, id a buscarla.
