CRÔNICAS

Quem tem medo de Rita Loureiro?

Em: 27 de Novembro de 1988 Visualizações: 1944
Quem tem medo de Rita Loureiro?

.Pode alguém pretender ser o reitor da Universidade do Amazonas (UA) sem saber quem é Rita Loureiro? Pode? Pode mesmo? Vamos ver.

Reitores de todo o Brasil se encontraram de 8 a 11 de março do corrente ano em Florianópolis (SC), na 46ª Reunião Plenária do Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB) para discutir propostas de ensino público para a Constituinte. Este locutor que vos fala participou do evento na qualidade de assessor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Qual a primeira coisa que você faria, leitor (a), em tanto que amazonense, se estivesse no meu lugar em Santa Catarina? É isso aí. Eu também fiz. Procurei logo no meio das magnificências o nosso reitor Roberto Vieira. Infelizmente, impossibilitado de comparecer, ele mandou como representante da UA o vice magnífico Ademar Mauro.

- Oi, tudo bem? Você por aqui? Pois é, né rapaz, quem diria? Como vai o pessoal lá de Manaus? Coisa e tal, e lesco-lesco, e papo-vai, e papo-vem e rola-papo e birinaite e overnáite.

Por falar em overnáite, houve um constrangimento inicial no papo, porque em 1985 a Associação de Docentes (ADUA) exigiu do MEC a apuração de corrupção na UA. Verbas públicas da folha de pagamento foram aplicadas em benefício próprio pelo então reitor Octávio (com “c”) Mourão no overnight – que na época da hiperinflação era um investimento de curtíssimo prazo (da noite para o dia) para não deixar o dinheiro desvalorizar, com resgate imediato no dia seguinte.

O reitor overnight

O constrangimento se deve ao fato de que nós ficamos de um lado, denunciando a corrupção do Mourão, e o Ademar ficou do outro. Ele redigiu e recolheu assinaturas para um documento que atacava a ADUA e nos chamava de “caluniadores”. A Comissão do MEC apurou tudo, confirmou com provas as nossas suspeitas, o reitor foi destronado e o Ademar ficou de queixo caído.

Mas o tempo tudo apaga. Errar é humano. E o Ademar é um cara ultra simpático, boa gente, legal pacas. Durante os quatro dias de reunião nós deixamos de lado o overnight, que nos separava e escolhemos a birináite, que nos unia. Foi aí que pintou o lance...

Havia uma exposição das editoras universitárias ao lado do auditório onde se realizava a reunião do CRUB. Nenhuma publicação da Universidade do Amazonas, o que já deixa a gente meio humilhado.

De repente – tcham tcham tcham tcham! – na barraquinha da Edusp – Editora da Universidade de São Paulo – encontrei uma surpresa capaz de revigorar o meu orgulho baré: um álbum intitulado Boi- Tema reproduz telas da artista amazonense Rita Loureiro. Sua exposição no Museu de Arte de São Paulo, em 1984, levou a USP a editar um livro, com uma bela edição que reproduz 26 dos seus quadros, apoiados por um texto bilingue inglês-português.

Comprei o livro e sai doidão de alegria para mostrá-lo aos reitores. Aproximei-me de uma roda durante o intervalo, tufei o peito de vaidade e exclamei radiante:

- Olhem só que álbum belíssimo! Os quadros são de Rita Loureiro. Ela é amazonense. Eu também sou amazonense. (É claro, leitor (a) que eu queria tirar uma casquinha da glória, estava explodindo de orgulho da minha identidade. Contei a maior farofa. Muitas pessoas já conheciam o trabalho dela. Todo mundo elogiou.

Pecados do Kapital

Aí, né, vem se aproximando da roda, né, o Ademar com um copinho de café na mão. Querendo compartilhar com ele o orgulho, tentei a cumplicidade:

- Ademar, você viu? A USP editou o álbum da Rita!!!

- Qual Rita? – ele perguntou com a maior tranquilidade.

- A Rita Loureiro.

- Não conheço não - respondeu ele com um olhar singelo, sorvendo ruidosamente o café. Espantado, tentei coçar a sua lembrança.

- Conhece sim, cara. A Rita Loureiro expôs em Londres, Paris, Berlim, Lisboa, São Paulo, Rio, mas também várias vezes em Manaus.

- Não vi e nem tomei conhecimento de nenhuma exposição – ele declarou com sinceridade, aumentando minha perplexidade.

- Ademar, pelo amor de Deus, A Crítica noticiou amplamente, o Manoel Galvão, professor da UA, entrou em delírio e escreveu Os Sete Pecados do Kapital. Outro professor da universidade que você dirige, o Renán Freitas Pinto publicou um artigo...

- Não li nenhum deles, confirmou o Ademar com a simplicidade de um bem-aventurado pobre de espírito (porque deles é o Reino dos Céus).

- Tentei ser o mais didático possível e implorei:

- A Rita é aquela artista que expressa o teu sentimento, o meu e o de todos os amazonenses, faz emergir a nossa visão de mundo, as nossas emoções e crenças, através das cores e das formas artísticas.

Mas eu não sei quem é – ele retrucou já um pouco incomodado.

Quem é Rita?

Nessa altura do campeonato, a galera se divertia com o meu desespero pelo desconhecimento do Ademar. O jornalista Álvaro Caldas, que fazia parte do grupo, piscou um olho pra mim, solidário. Decidi que o Ademar, por bem ou por mal, tinha de testemunhar a existência da Rita Loureiro, nem que eu tivesse de extrair o testemunho a fórceps.

- A Rita, rapaz, é a mulher do Alfredo.

- Que Alfredo?

- O Loureiro, patologista, professor da Universidade que você vice-reitora. Ele mora ali na Ferreira Pena, perto do necrotério – acrescentei em tom de súplica.

- A Universidade tem quase mil professores. Não dá para conhecer todos – ele justificou, com um sorriso vitorioso.

O meu desespero chegou ao clímax. Apelei então:

- O Alfredo é filho do T. Loureiro, o da loja de tintas, lembra? – especifiquei para não dar margem a dúvidas.

- Ah, sei.

Pela forma como a cara do Ademar se iluminou, eu tive a certeza de que ele estava lembrando daquela propaganda na TV, onde um portuga canta um fado e recebe um balde d´água no cocuruto. Enfim conseguiu arrancar do vice-reitor, por vias indiretas, através de galões de tinta, que a Rita existia, o que não é tão contraditório assim, em se tratando de uma artista que mexe com pincéis.

Leitor (a), conto o fato como o fato foi. Juro que o relatado aqui aconteceu exatamente assim. Quero que Santa Luzia me cegue se acrescentei uma vírgula, ou se fabriquei alguma crueldade. No final, o Álvaro Caldas, assessor como eu do reitor Ivo Barbieri, que viu e ouviu tudo, dava gargalhadas homéricas:

- Nossa mãe, que reitor o de vocês.

- Ele não é reitor não. Ele é vioce como o Sarney era do Tancredo. O reitor Roberto Vieira conhece e admira os trabalhos da Rita – eu disse.

A Rita e o reitor

Aí, leitor (a) a gente volta à indagação inicial: pode alguém ser reitor da UA ignorando a arte da Rita? No final de novembro, alunos, professores e funcionários da UA vão dar uma resposta concreta nas urnas. O Ademar é um dos candidatos.

Afinal, qual a importância de se conhecer a Rita ou os poemas do Bacellar? Provavelmente, muitos dos eleitores do novo reitor nunca viram um quadro dela, da mesma forma que inúmeros moradores da Compensa nunca comeram um iogurte e não sabem o que é uma coisa e nem a outra. Mas tanto uns como outros necessitam de leite, de seus derivados, de poesia e das artes visuais.

A crítica, evidentemente, não é menosprezo aos despossuídos da arte e do leite – eles não são culpados, nem mesmo o Ademar, mas se trata de condenar o sistema que os priva desse direito básico. Então, o sistema precisa ser mudado.

Se muitos amazonenses estão privados hoje do gozo estético proporcionado por uma obra de arte, se a sociedade amazonense não se apropria da produção artística e cultural, é porque a Universidade não está cumprindo o seu papel social e acadêmico.

A situação se torna mais grave ainda, quando a direção da Universidade é assumida por alguém quevai continuar perpetuando e reproduzindo tal situação, sem a menor angústia ou inquietação, sem sequer desconfiar de nada.

Reivindicar o conhecimento da obra de nossos artistas plásticos e poetas não é arrotar “falsa cultura” ou mostrar-se “in”. A Rita entra aqui como um símbolo. Ela representa o resgate daquilo que existe de mais profundo na cultura popular do Amazonas, que ela desfolcloriza e recria com uma nova linguagem. E é bonito, meu Deus! Como é bonito! E é inteligente. E faz a gente pensar sobre a condição humana.

Somos todos nós que fomos transplantados para as telas da Rita e para a poesia de Bacellar. Nós estamos presente no boi coberto de pano de chita estampada, nos chapéus com plumas dos vaqueiros, nos saiotes floridos, nos seringueiros espoliados, nas pinturas corporais indígenas, na cerâmica, na rede de tucum, na água, nos pássaros, nas canoas, nas festas populares, na floresta devastada com as toras abatidas sobre o solo, nas cenas de crítica social e política e até mesmo na versão pessoal dos episódios míticos milenares que a Rita recria.

Desta forma, Rita Loureiro faz com o pincel exatamente o que a UA devia fazer e pode fazer, com o verbo e com o saber, se elegemos um reitor e uma equipe capaz de transformar a Universidade de uma repartição pública morta em um polo vivo dinamizador da nossa cultura.

Tem um candidato que conhece os trabalhos de Rita. Ele reuniu uma equipe capaz de realizar essa mudança radical que a Universidade precisa, colocando-a a serviço da população. O nome dele eu não revelo, mas as letras iniciais do seu nome são MB, ele é médico e pesquisador do Instituto de Medicina Tropical do Amazonas. A sua vice foi minha professora, com-pe-tem-tís-sima, é podre de charmosa. O resto você vai ler no próximo artigo O Vestibular para Reitor”.  

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1 Comentário(s)

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Francisco Christo comentou:
08/09/2025
Sensacional! Essa crônica é histórica, todo mundo riu do Ademar, principalmente nós que éramos do Instituto de Ciências Exatas da UA, unidade a qual o Ademar pertencia. Essa crônica mexeu com toda a universidade. Fico muito agradecido por você ter digitalizado. Lembro que na época comprávamos A Crítica, só pra ler as tuas crônicas , lembro que tinha um dia da semana que saia as tuas crônicas. Simplesmente genial.
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