CRÔNICAS

O bairro, as oblatas, os redentoristas

Em: 27 de Julho de 1993 Visualizações: 2549
O bairro, as oblatas, os redentoristas

“Mangueira de minha rua / de velho tronco enrugado / que serves de alcoviteira / ao casal de namorados!”.

(Luiz Bacellar. Ciranda à roda de um tronco. 1959)

Tua mãe é oblata? Psiu! Não te faz de leso não, é contigo mesmo que estou falando, leitor.  Me diz: a santa que te pariu é oblata? Não? Desculpa, mas a minha é. Dona Elisa tem um diploma, garantindo que ela pertence à Congregação Redentorista, na condição de oblata. É um diploma quente, conferido por autoridades eclesiásticas competentes, mesmo sem estar reconhecido e carimbado, como exigem os burocratas.
- E daí? — pergunta o leitor invejoso. — Oblata não adoece e morre como todo mundo?

- Adoece. Morre — respondo eu. Mas olha só: quando chegar a nossa vez de subir o boulevard Amazonas, o máximo que pode acontecer é a família mandar rezar uma missa de sétimo dia. Paga. Já a dona Elisa, terá milhares de missas celebradas em todo o mundo na intenção de sua alma. Grátis. Essa é a mordomia das oblatas.

Milhares de missas podem mandar pro céu, disparadas como foguetes, até mesmo almas de pecadores renitentes como o PC Farias ou o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes. Isto quer dizer que a vaga da dona Elisa, cujas mãos estão imaculadas, está garantida no céu, onde já estão as outras três oblatas da Paróquia de Aparecida: dona Quinú, Lili Azevedo e Rosa Feitoza.

- Ora, então isso quer dizer que, para fugir do inferno ou purgatório, basta comprar um diploma de oblata, com cheque fantasma, para poder cantar “no céu, no céu, com minha mãe estarei”.

-Ah, é aí que te enganas, meu caro PC Farias! Te equivocas, Mendes! Um diploma da Congregação de Oblatas Redentoristas não se compra. Conquista-se. E pra isso, é preciso “ralar” muito, saber doar-se.

O que é oblata

Como diria o professor Agenorum, oblata vem do latim e é plural de oblatum, que significa donativo, dádiva. Daí deriva a palavra oblação, que é súplica, oferenda, sacrifício a Deus. Na Idade Média, oblata era a criança entregue pelos pais a um convento para servir a uma ordem religiosa. No entanto, o bispo de Milão depois canonizado santo,  Carlos Borromeu (1538-1584), ampliou o sentido da palavra, quando fundou a Congregação dos Oblatas, que passou a ser a reunião de leigos capazes de entregar-se a uma comunidade.

— Quem é esse cara pra ficar pontificando sobre um assunto que não entende? — pergunta-se  leitor (a) desavisado (a).

Calma, maninho! Sabes com quem estás falando? Escrevo com a autoridade de quem um dia já foi oblatado pela dona Elisa. Ela vivia suspirando que seu maior sonho era ter um filho padre. Em suas orações, ela sempre pedia a Deus: Quero um padre na família.

Vai daí, fui internado no seminário redentorista em Coari. Num certo sentido, fui oblata. Não deu certo. Até que eu queria ficar, mas a Congregação rejeitou a “dádiva”: eu era danado demais, um capirotinho.

— Quero um padre na família — continuava rezando dona Elisa. Nova tentativa foi feita com meu irmão Ricardo, que entrou no seminário redentorista em Belém. Foi outro oblata que não deu certo. Saiu meses depois. “Polacou” como diziam os seminaristas, referindo-se aos desertores.

Dona Elisa não desistia. Dedilhando o seu rosário, aumentava a pressão com suas preces, colocando Deus contra a parede, porque a vocação do filho que restava, o Tuta, era de artista. Como vender o peixe de uma família tão dedicada, se não havia mais filho homem a oferecer?

Ora, Deus que se virasse. Ele não é onipotente? Não pode tudo? Dona Elisa continuava martelando: “Quero um padre na família. Oh, Senhor, escutai as nossas preces!”

 Até que, finalmente, Ele escutou: um padre redentorista, o então vigário da Paróquia, deixou a batina para casar com a filha primogênita de dona Elisa, que desta forma passou a ter um padre na família. Ela e Deus se entendem.

O bairro dos Tocos

Mas por que é que estou relembrando tudo isto? Ah, já sei. É porque este ano os redentoristas completam 50 anos de presença na Amazônia. Para comemorar o fato, domingo, 1º de agosto, às 9h30, vai ter uma missa do-arromba, festiva e alegre, reunindo inclusive ex-alunos do Colégio de Aparecida, fundado pela Congregação do Santíssimo Redentor (CSSR). Recebi convite da atual diretora, Regina Cabral Freire.

A festa, além da missa, terá um desfile especial dos padres da velha-guarda, vindos especialmente dos Estados Unidos: Tiago, Normando, Eduardo, Francisco e outros.

Quando os padres americanos da Província de Chicago aceitaram, em 1943, o convite do bispo D. João da Mata para fundar uma paróquia em Manaus, em plena 2ª Guerra Mundial, o bairro dos Tocos estava desassistido e desarborizado. As árvores haviam sido todas podadas, deixando à mostra os troncos cobertos de sal grosso. As mangueiras de troncos enrugados já não serviam de alcoviteiras aos namorados.  Os padres chegaram trazendo assistência espiritual, mas ocupando também um espaço que tradicionalmente cabia ao Estado, oferecendo serviços na área de saúde, educação, lazer, esporte e atividades sociais. O bairro mudou de nome: de Tocos para Aparecida.

Foram criados vários movimentos de leigos. Em 1945, o Apostolado da Oração, Secção Masculina e Feminina, para pais e mães de família, com todo o ritual: fita vermelha fina para os membros e vermelha larga para os zeladores e zeladoras. Toda primeira sexta-feira do mês, na madrugada, havia uma missa, assistida pelos homens, que entoavam o “Queremos Deus, homens ingratos”. Depois, distribuição de nescau e pão-doce.

A Pia União da Filhas de Maria, destinada às moças, tinha o patrocínio de Santa Inês. Seu primeiro diretor foi o padre Bernardo. As moças vestiam um uniforme branco, com uma fita verde fina para as pretendentes, verde larga para as aspirantes, azul fina para as filhas de Maria e larga para as conselheiras. Perdeu parte importante da vida, quem nunca ouviu o trinado das irmãs Dagmar, Cleomar, Dulcimar e Lucimar Feitosa, entoando como pássaros celestiais:

-“A fita azuuul, será nossa bandeeeeira. Viemos nosso amor te consagrar. Somos filhas devotas de Maria...”.

A Cruzada Infantil veio trazer ao Brasil, “um vigor novo e forte, dos pampas, ao norte”, como dizia o hino cantado no final das missas de domingo, às 7h, pelas crianças que traziam uma fita branca amarrada na cabeça. Seu diretor foi o padre Cristóvão. A presidente era a Marieta Cinque, a secretária a Marlene Bandeira, uma líder nata em jogos de “queimada” e nas brincadeiras aos sábados depois da aula de catecismo. O hino de abertura dizia:

- “Eia! Sus! Cruzadinhos amigos, a marchar nos impele o dever, sem temor afrontando os perigos, pois lutar por Jesus é vencer.”

Apostolado da Oração, Pia União e Cruzadinha Infantil faziam um verdadeiro arrastão nas festas religiosas, em procissões célebres pelas ruas e becos esburacados do bairro. Missas, novenas, terços, rosário, catecismo, oferta de flores no mês de maio, procissões — era essa a nova atmosfera da comunidade do antigo bairro dos Tocos.

A comunidade 

Mas não se limitou apenas ao espiritual a ação dos redentoristas. Numa comunidade tão carente de assistência e serviços básicos, eles tiveram um papel fundamental. Abriram um ambulatório médico-odontológico, onde o Pedrinho Torrado e depois o Luis Nunes de Mello, o dr. Lulu, atendiam grátis, arrancando dentes numa improvisada cadeira de barbeiro, com um penico embaixo para cuspir o sangue. Na época em que não havia ainda pastoral da saúde, nem Inamps, as filhas de Maria, Waldemarina, Redenção Araújo e Noêmia serviam de enfermeiras, ajudando o padre Frederico e as irmãs Joana Francisca e Celeste.

Na área de educação, foi construído o Colégio de Aparecida, sendo os seus alicerces cavados com trabalho voluntário dos homens do Apostolado, entre os quais se destacaram Brígido Nogueira, Zecafonso, João Barboza (meu pai, leitor (a), meu pai), Cangalhas, Antônio Lisboa, Zé Teixeira, Zé Oliveira, João Toledo, Francisco Rebelo, Pedro Silvestre, Américo Loureiro, Manuel Paraguai, Oswaldo Lima, Rodolfinho, entre outros, e essa figura fantástica do Alberto Greijal, vivinho e íntegro ainda hoje, com seus 90 anos de idade.

Um dos diretores do Colégio foi o inesquecível padre Tiago Springer, responsável pela educação de muitas gerações, juntamente com as professoras, freiras do Preciosíssimo Sangue.

Cursos de mecânica e eletricidade para os homens, aulas de bordado, corte e costura, confecção de flores e ornatos para mulheres, onde pontificavam as filhas de Maria, Amazonina e Regina Costa Lima.

A Sociedade Atlética Guarda de Aparecida (SAGA) desenvolveu um conjunto de atividades: futsal, basquete, luta de boxe e jogos de salão, entre os quais o dominó e o bingo. Era a única opção de lazer para os jovens e crianças do bairro, substituindo à altura a Sociedade Recreativa Católica de Aparecida, fundada pelo P. João McCormick.

Os arraiais e quermesses de Aparecida, realizadas sempre em setembro, ficaram famosas na cidade, com seus concursos de “bonecas-vivas”, o bingo do Brígido e Moacir Fortes, o serviço de alto-falante do Zecafonso, as “pescarias” e outros jogos. Fim de semana, pic-nic no balneário das Pedreiras, no igarapé do Mindu.

A construção da paróquia e do bairro foi uma obra coletiva. Os redentoristas souberam muito bem canalizar e ampliar essa coisa que a Aparecida ainda hoje tem, esse sentimento de solidariedade, de união, de entrega dos moradores a tarefas coletivas.

Estão de parabéns os padres redentoristas, os já citados e outros como Leão, Daniel, Jorge Joly, Agostinho, André, Eugênio, Mário, Thomaz, João Maria, Noé, Mateus, Antônio, Geraldinho Pigmeu já falecido, Rafael, Leonardo e tantos outros. Especialmente os dois que ficaram, o padre Clemente, 50 anos de sacerdócio e o Marcos, esse cabocão amazonense nascido nos Estados Unidos, dotado de extraordinária capacidade de compreensão e de convivência com o outro.

O bairro todo celebra aquelas mulheres anônimas que com seu trabalho silencioso ajudaram a construir a paróquia, entre as quais, além das já citadas, é preciso nomear: Pepita, Quinú, Gertrudes Rebelo, Lili, Lucinda Azevedo, Glória Nogueira, Chiquinha Correia, Francisca Tabosa, Maria Arnaud, Angélica Arruda, Erotildes, Odaíza Martins, Ligia Pacheco, Tereza Paixão, Izabel Greijal, Zilda Palmeira, Edina, Diva Palheta, Maria do Carmo Feitosa, Georgina Brito, Benigna Garcia, Amélia Sanches, entre outras. E Dona Delcídia, cujas mãos de artista, ainda hoje enfeitam o altar de igreja. Não é só a dona Elisa. A Aparecida inteira é um bairro de oblatas.

P.S. — Depois de três semanas sem poder escrever com o pescoço engessado, queria comentar o crime do camelódromo e me solidarizar com a luta do Jefferson Péres. No entanto, como ex-seminarista, não podia deixar passar em branco a data. Pedi emprestado o Baú Velho do Zamith. Three cheers for CSSR. Tenho dito. Amém.

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3 Comentário(s)

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Maria de Jesus Nogueira comentou:
16/08/2025
Perguntas se minha mãe era oblata. Não, minha mãe não era oblata, mas meu pai sim. Será que isso ajuda??? (rs)
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Nonato Souza comentou:
16/08/2025
Saudades da tua mãe, meu primo.
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Nelson Peixoto comentou:
16/08/2025
Lembro com o coração e com os olhos aqueles cabelos brancos que viveram a fidelidade do amor a Jesus!
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