.Acobertados, açulados ou justificados por políticos, empresários e até mesmo um escritor, dezenas de garimpeiros – armados com espingarda calibres 12 e 20, revólveres 38 e afiados facões – invadiram a aldeia Hoximu, tocaram fogo nas malocas, degolaram e esfaquearam com requintes de crueldade 35 crianças, 20 mulheres, 3 fetos e 15 homens indefesos, totalizando 73 mortos, segundo dados oficiais da Funai.
Depois dos atos de selvageria e das chacinas contra os presos de Carandiru em São Paulo e contra os menores da Candelária, no RJ, chegou a vez dos Yanomami da aldeia Hoximu, em Roraima.
Enquanto a consciência do mundo inteiro se indignava com a barbárie, uma série de pronunciamentos ocupou as páginas dos principais jornais, tentando minimizar o horror do massacre e, em alguns casos, justifica-lo.
Um dos primeiros a pontificar sobre o assunto foi o general Euclydes Figueiredo, irmão do João Batista. Com o brilho e a eloquência dos Figueiredos, ele foi correndinho declarar à Folha de São Paulo:
"Os Ianomâmis não têm inteligência nenhuma, são como animais que nascem e se reproduzem. O índio não anda nu porque quer, mas porque não tem roupa".
O quepe do general
Essa declaração seria mais uma “figueirada”, uma bobagem inconsequente – afinal, quem dá trela para o Euclydes? – não fosse pelos 73 mortos, nossos, para chorar. Nesse contexto, ela adquire um nível de cinismo insuportável e ofensivo, porque tripudia sobre cadáveres.
Leitores (as) poderiam muito bem objetar que quem não tem inteligência alguma é o autor de tal frase, que anda sem quepe não porque quer, mas porque está na reserva. Felizmente, ele não representa o pensamento dominante no Exército brasileiro, que teve em suas fileiras uma patente mais alta, um marechal como Rondon – esse sim, inteligente.
Formado na Escola Militar de Realengo, onde estiveram presos Gil e Caetano, o general Euclydes de Oliveira Figueiredo Filho tem dois irmãos generais: o ditador João Batista e Diogo Figueiredo, que comandou a Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. Euclydes foi Secretário da Comissão Sumário do Exército, que identificava potenciais subversivos e logo depois comandante Militar da Amazônia. Teve mandado de prisão expedido pela Justiça Italiana acusado, quando comandante da 1ª Divisão do Exército na Vila Militar, no Rio, de ter participado da Operação Condor responsável pela prisão e desaparecimento do argentino Horácio Domingos Campiglia no aeroporto do Galeão.
Com esse currículo, o que sabe o general Euclydes Figueiredo sobre as culturas indígenas? Nada. Absolutamente nada. No entanto, arrogante e prepotente, preenche esse vazio com o veneno do preconceito etnocêntrico, acreditando coitadinho que quem está nu não pode pensar.
Euclydes, o Ocrides Figueiredo – provavelmente nunca ouviu falar do etnólogo Claude Lévi-Strauss, que passou toda a sua vida estudando as comunidades indígenas. Seria demasiado pedir que o general lesse o livro de Lévi-Strauss, intitulado "O Pensamento Selvagem", onde o autor nos fala da inteligência sofisticada dos índios, cujas técnicas agrícolas são o resultado de séculos de observação ativa e metódica de hipóteses bem elaboradas e controladas, de experiências rigorosas.
Para elaborar técnicas frequentemente complexas, foi preciso – não duvidemos disso – uma atitude de espírito verdadeiramente científica, uma curiosidade permanente e sempre ativa, um apetite de conhecer pelo prazer de conhecer, diz Lévi-Strauss, demonstrando como as sociedades indígenas conseguiram elaborar um sistema de classificação bem fundamentado, comparável, do ponto de vista formal, àqueles usados atualmente pela botânica e a zoologia ocidental.
Nudez intelectual
O general Euclydes estabeleceu uma relação entre inteligência e nudez que ofende toda e qualquer regra de lógica e nos faz duvidar da sua própria inteligência. Por que um homem nu não pode pensar? Por que não pode meter a mão no bolso? O que é que tem a ver o cós com a calça?
Ocrides acha que a nudez do índio é sinal de atraso, de deficiência, inclusive mental. Não leu também as crônicas de Pedro Cieza de León, um soldado espanhol nascido em 1521, que participou da conquista do Peru e procurou entender as sociedades diferentes dentro da sua lógica interna, sem acreditar que os valores quinhentistas da Espanha eram universais.
Os cronistas do século XVI são unânimes em documentar como os índios Omágua, que habitavam o alto Solimões, antes da chegada do europeu já plantavam, colhiam e fiavam o algodão, fabricando mantas coloridas e com desenhos geométricos, usadas em cerimônias religiosas. As roupas masculinas eram tipo uma camiseta e a feminina uma túnica amarrada na cintura. Se andavam nus, não era por falta de roupa, mas por opção. Quem dá uma dica para explicar isso é o citado cronista Cieza de León.
Ele narra, em uma de suas crônicas, como Orellana “descobriu” o Amazonas, descendo o rio Napo em busca de comida e deixando mais de 300 espanhóis inutilmente à sua espera. Destes, apenas 80 conseguiram sobreviver e retornar a Quito, no Equador, entrando na cidade completamente nus, inclusive o chefe da expedição que era governador: Gonzalo Pizarro.
Diante dos moradores atônitos que cobriam os corpos desnudos dos expedicionários, Gonzalo Pizarro explicou que mais de 200 espanhóis morreram porque estavam vestidos. Mal alimentados, perdidos durante três meses na selva, numa época de chuvas constantes, os espanhóis desconfiaram que a roupa molhada podia ser, junto com outros fatores, responsável pelas mortes. Não tiveram dúvidas: tiraram a roupa e sobreviveram. Nus, como os índios. Usando a inteligência, como os índios.
A cueca do governador
Se a “hipótese” do general fosse correta, nós poderíamos afirmar, sem medo de errar, que o governador de Roraima, Ottomar Pinto e o próprio Euclydes nunca vestiram sequer uma cueca, porque incapazes de uma manifestação inteligente.
- “O massacre pode não passar de uma versão inventada por interessados em apressar a demarcação das terras indígenas”, declarou Ottomar à Folha de São Paulo, na maior cara-de-pau. Para justificar a sua afirmação de que não houve mortos, Ottomar desnudou o seu pensamento: “Até agora não se encontraram corpos em profusão” (é ótimo esse “em profusão”).
— Mas os Yanomami costumam cremar seus cadáveres — insistiu o repórter do Jornal do Brasil.
— Não é verdade — respondeu ligeirinho Ottomar, gesticulando os seus braços gordinhos e curtinhos. — Os Yanomami, em realidade, cozinham o corpo e os membros e os comem cozidos com banana, numa homenagem aos mortos”. Aliás, os braços do Ottomar, numa feijoada, fariam um bom complemento com a carne de porco.
No entanto, segundo a antropóloga Alcida Ramos, da Universidade de Brasília, que estuda a cultura Yanomami desde 1968 e já morou com eles por um ano e meio, os Yanomami têm o hábito de cremar seus mortos. Misturam as cinzas com mingau de banana e guardam os restos dos entes queridos no coração, o que parece ser mais higiênico e poético do que entregá-los aos vermes.
Mas o folclórico Ottomar não desiste. Depois da visita do ministro da Justiça Maurício Corrêa e do procurador Aristides Junqueira ao local do crime, onde constataram a chacina, Ottomar confessou:
“Bom, se houve massacre, o que é que tem a ver o governo de Roraima com isso. Isso é uma questão federal e não estadual.”
E esse homem, vestido, é governador de Roraima. Um estadista municipal. Que horror. Tão grave quanto a chacina são as declarações do general Euclydes e do brigadeiro Ottomar, que aliás estão em boa companhia. Antes do massacre, no dia 4 de julho, o escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que nos deu belas páginas de literatura, colocou pra fora seus preconceitos. Uma pena. Ninguém é perfeito. Seu artigo em O Globo, intitulado “Índio quer apito”, reafirma um conjunto de imbecilidades sobre os povos indígenas dominantes na sociedade brasileira, entre as quais, a de que os índios são selvagens, que vivem num estágio atrasado e que “não se pode fazer nada para evitar que as culturas tecnologicamente superiores dominem as inferiores”. E esse homem, também vestido, não é da arma de cavalaria. É escritor. Candidato a uma vaga de imortal na Academia Brasileira de Letras. E Viva o Povo Brasileiro.