CRÔNICAS

Lili, olha os garimpeiros! Yanomami: Wa kiri nomai

Em: 31 de Agosto de 1993 Visualizações: 1597
Lili, olha os garimpeiros! Yanomami: Wa kiri nomai

Na semana passada, às 20h, o bairro da Cohab-AM do Parque Dez mergulhou na escuridão, devido a um corte de energia. Crianças brincavam na rua 3. O pai de uma delas, o sr. Jefferson, gritou:
— Lili, sai do sereno, menina. Passa pra dentro!
— Não vou não — protestou a criança, decidida a desobedecer.
O pai apelou:
— Lili, olha os garimpeiros!

Aí, a Lili entrou em casa, voando como uma flecha, com o coraçãozinho batendo tuc-tuc. A Lili não acredita em bicho-papão, velho-do-saco ou sapo cururu. Mas morre de medo dos garimpeiros depois do que viu na televisão. As freirinhas do posto Xideia tiveram o mesmo sentimento e escreveram na parede de sua casa em língua Yanomami: — Wa kiri nomai, que traduzido ao português quer dizer: “Não fique com medo”.

Os garimpeiros são trabalhadores sofridos e explorados que merecem nossa solidariedade, enquanto vítimas do sistema. Esse sentimento não pode, no entanto, ser extensivo a assassinos.

Todo mundo sabe — o mundo inteiro mesmo, a mídia internacional divulgou— que um grupo de garimpeiros – a mando de quem? - assassinou selvagemente índios. São criminosos que devem ser encontrados e punidos. Até a Lili, uma criança, sabe disso.

Eu escrevi “o mundo inteiro”? Retiro o que disse. Além do José Alves, atual presidente da Federação Nacional dos Garimpeiros (FNG), três pessoas no planeta Terra ignoram aquilo que a Lili sabe: Wilson Brandi Romão - diretor da Polícia Federal, Elton Rohnelt - presidente da Companhia Energética de Roraima, e Ottomar Pinto - governador de Roraima.

Coronel Romão

Enquanto o procurador-geral da República, Aristides Junqueira, que esteve no local da chacina, declarava tratar-se de um genocídio, o coronel Wilson Romão ponderava:
— Não posso acusar ninguém, sem antes comprovar os fatos. Até agora não foi encontrado nenhum corpo ou vestígio de sangue no local.

Quanta cautela, Deus meu! Quanto escrúpulo, minha Santa Etelvina! Valei-me, Santo Tomé! Como afirmou Cláudio Romero, presidente da Funai, no Programa do Jô Soares, o coronel Romão teria absolvido, há 50 anos, o próprio Adolpho Hitler, porque não foram encontrados os corpos dos milhares de judeus que ele mandou assassinar e queimar em fornos crematórios. Aliás, o Tomás Meirelles, militante amazonense assassinado pela ditadura militar, também não morreu, porque seu cadáver até hoje não foi encontrado.

O coronel Romão formado na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) parece legislar em causa própria, porque não quer ser criminalizado pela tortura e desaparecimento de 49 guerrilheiros do Araguaia, acusação que lhe foi feita quando era Secretário de Segurança Pública do Pará, entre maio de 1974 e março de 1975, durante a ditadura militar-empresarial. Tais crimes de lesa-humanidade não prescrevem.

A mesma lengalenga foi repetida pelo Zé Alves, presidente da Federação Nacional dos Garimpeiros (FENAG). Com um agravante: o Zé Alves diz que não existem provas do massacre conforme “informações repassadas pelo governador Ottomar”! Logo quem? O Ottomar! Pedimos emprestado a gargalhada do macaco Simão: rá, rá, rá! Mais dignidade teve o José Altino Machado que renunciou ao cargo de delegado da União Sindical dos Garimpeiros, argumentando que não podia defender criminosos.

Rambo da Amazônia

Agora, o prêmio do cinismo fica mesmo com o atual presidente da Companhia Energética de Roraima, o ex-paraquedista militar do Exército Elton Rohnelt, um ex-garimpeiro que na década de 1980 liderou uma invasão em território Yanomami. Conhecido em uma reportagem da “Veja” como o “Rambo da Amazônia”, teve uma arma apreendida pelo Exército Brasileiro, de uso exclusivo das Forças Armadas, o que lhe deu o apelido de o “Homem do Revólver de Ouro”. Dono de madeireira e de garimpo, gaúcho de nascimento, é filiado ao PDC (vixe vixe), partido pelo qual se candidatou em 1990 a deputado federal por Roraima, onde tem hoje os seus negócios. Obteve 428 votos e ficou como suplente. Defende desde sempre a exploração de minérios em terras indígenas. Já ocupou diversos cargos públicos, inclusive foi ministro interino da Agricultura no governo Itamar Franco.

O Rambo caboclo acha que estão fazendo tempestade num copo d’água:
— Até agora só foi encontrado o corpo de um índio, alguns dentes e cápsulas de balas. Onde estão os outros? — indaga ele. Será que os índios eram todos banguelas?

Taí! É mesmo, né, rapaz! Eu não tinha pensado nisso. Onde é que estão os outros? Boa pergunta a ser dirigida ao coronel Romão: onde estão os outros? Se não foram assassinados, é porque estão vivos. Se estão vivos, onde é que estão? Cadê a população da aldeia Hoximu?

Matar 10, 40 ou 73 Yanomami é igualmente um crime, o que torna ridícula a discussão sobre números.

Mas o Elton está feliz:
— Só encontraram um corpo, — diz ele, vitorioso.

Quem matou?

O Rambo de Roraima, que pensa que nós, leitor, somos lesos, têm três hipóteses:

  1. O massacre foi patrocinado pela África do Sul, que é o maior produtor de ouro do mundo e não quer o Brasil como concorrente no mercado internacional”. (Eu juro que ele disse isto. Está em A Crítica de domingo, pg. 12. Vai ver foi Nelson Mandela! Bem que a gente desconfiava do crioulo!)
  2. Pode ter sido também a Guarda Nacional da Venezuela. “Os militares venezuelanos já derrubaram um avião brasileiro e são violentos” — argumenta o Rambo. Vai ver, fizeram isso para se vingar da derrota que a seleção brasileira infligiu à seleção venezuelana.
  3. As mortes foram planejadas pelos grupos interessados em demarcar as terras dos índios”. Ou seja, a mesma tese do Ottomar. Aí, a gente fica imaginando Dom Aldo, o manso bispo de Roraima, que já foi acusado de guerrilheiro, o missionário Carlos Zaquine, a irmã Aléssia, a fotógrafa Cláudia Andujar e o antropólogo Bruce Albert degolando os Yanomami, depois de 20 anos de luta para demarcar suas terras.

Karl Marx, aquele sábio alemão do século passado, jurava que a ideologia não é uma mentira das classes dominantes para enganar as dominadas. É um autoengano. Os caras acreditam mesmo naquilo que afirmam.

Marx não conhecia o Rambo da Amazônia. Dê-u-du, vê-i-vi, dê-o-dô, macaxeira, mocotó, se o Elton efetivamente crê nestas bobagens. Nenhum débil mental pode levar a sério qualquer uma das três hipóteses. Houve mesmo uma chacina. O crime hediondo, planejado, foi cometido pela parte podre do Brasil. A parte sadia exige a punição dos assassinos, e requer, na oportunidade, a demarcação da área Raposa Serra do Sol, para evitar que novos crimes sejam cometidos. Quanto ao resto, só nos cabe advertir:

— Lili, passa pra dentro.
Olha o Elton, o Romão, o Otomar e o Zé Alves, Lili!

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