CRÔNICAS

Massacre dos Yanomami: o ceguinho de Roraima

Em: 14 de Setembro de 1993 Visualizações: 2056
Massacre dos Yanomami: o ceguinho de Roraima

Era uma vez um rico fazendeiro de Roraima, dono de gado e de muitas terras que sua família havia expropriado dos índios. Apesar de rico, era infeliz, pois não podia contemplar a imensidão de seu latifúndio. Ele era cego de nascença.

Uma manhã, estava ele a beber leite da “Garimpeira”, sua vaca preferida, quando foi picado pela curiosidade de saber como era o leite que todos os dias o alimentava. Chamou sua netinha:

— Minha filha, nunca vi o leite, me diga, como é o leite?  

— O leite é branco — respondeu a neta.

— Branco? Branco como? Eu não sei o que é branco?

— Branco é como o cisne branco em noite de lua.

— Mas eu não sei como é o cisne? — choramingou o fazendeiro.

Aí né, a neta dobrou o braço e falou:

— O cisne tem o pescoço longo e curvo, assim ó!

O fazendeiro passou a mão pelo braço da neta, apalpou-o longamente e exclamou feliz:

— Ah, agora sim, eu já sei o que é o leite

Rambo da Amazônia

O presidente da Companhia Energética de Roraima, Elton Rohnelt, conhecido como o Rambo da Amazônia, também já sabe como é o leite. Ceguetinha, ele leu de revés a minha última crônica, apalpou a matéria publicada pelo Orlando Farias e suspirou feliz.

— Ah, agora sim, eu já sei o que aconteceu com os Yanomami.

Afinal de contas, o que aconteceu mesmo com os Yanomami?

Para responder a esta pergunta, a Universidade do Amazonas organizou um debate, presidido pelo seu próprio reitor Nelson Fraiji, com a participação dos antropólogos Sílvio Coelho e Alcida Ramos, que desde 1968 trabalham com os índios. Tudo bem, leitor, já sei o que estás pensando: é exigir demais ao Elton e Ottomar pedir que acompanhem um debate acadêmico.

Mas olha só: o tema foi abordado até mesmo na novela “Renascer”. Concordo contigo, leitor (a). O padre Lívio interpretado pelo ator Jackson Costa é um chato de galocha e barba. Mas sábado passado ele deixou de lado seu amor pela mulher do Tião Galinha e falou didaticamente sobre o massacre dos Yanomami, com uma clareza que todo mundo compreendeu. Até o Tião Galinha. Só o cegueta Elton, o Rambo da Amazônia, finge que não vê.

Vamos recapitular. Um crime hediondo foi cometido. Um grupo de garimpeiros planejou e executou um massacre, assassinando — hoje sabemos de certeza certa — 16 índios Yanomami indefesos e desarmados, a maioria dos quais eram crianças. Funcionários da Funai, preocupados com a ausência dos moradores da Aldeia Haximu, calcularam inicialmente em 73 o número hipotético de mortos.

A Funai acertou plenamente ao denunciar o fato: o massacre. Não acertou no número de mortos, o que não altera em nada a gravidade do fato. Mas os inimigos dos índios — o trio Ottomar Pinto, Elton Rohnelt e o coronel Wilson Romão - além de outros do mesmo calibre intelectual e moral, se aproveitaram do equívoco para tentarem negar o crime.

A carta do Elton

O Elton escreveu uma carta, publicada aqui neste local, na terça-feira passada, dizendo que essa história de massacre era uma baboseira, que daqui de Niterói eu não tinha legitimidade para falar sobre o assunto e, exultante, como quem acaba de descobrir o que é o leite, puxou o seu revólver de ouro (é, gente, o Elton tem mesmo um revólver de ouro que foi apreendido pela Polícia Federal) e disparou em sua missiva:

— Aquela coisa que você chama de genocídio praticado pelo lado podre do Brasil não foi no Brasil, mas na Venezuela.

E daí, ó Rambo? Se garimpeiros brasileiros invadiram o território venezuelano para chacinar os Yanomami, isso não significa que não houve genocídio, mas simplesmente que o genocídio cometido pelo lado podre do Brasil foi duplamente hediondo, porque implicou a invasão de um estado — venezuelano, e de uma nação — Yanomami. (Depois te explico a diferença entre os conceitos de estado e nação.)

Há cinco anos um piloto, apelidado de “Polaco” e conhecido de Elton, foi assassinado. Que importa se o crime tenha sido em Letícia, na Colômbia, ou em Tabatinga, no Brasil? O fato é que o cara está morto. O crime foi cometido.

Mas o Elton puxa sua pistola de ouro pela segunda vez e dispara, dizendo contraditoriamente que o massacre (que ele jurou antes não passar de baboseira) foi inspirado de fora para dentro, que tem muitos falsos brasileiros fazendo o jogo da estrangeirada, enfim, que eu sou um deles porque daqui de Niterói insulto brasileiros que defendem a Amazônia como o brigadeiro Ottomar, fazendo uma aliança direta com a mídia internacional para denegrir a Amazônia e o Brasil.

Aqui, o deputado Rohnelt (PFL vixe vixe), ceguetinha, acabou derramando o leite que pensa conhecer, martelando a desmoralizada “tese” de que existe uma conspiração contra a Amazônia.

A Amazônia e o Brasil estariam lascados se dependessem da defesa dos Ottomar, dos Elton, dos Átila Lins e do Euler Ribeiro. Quem conferiu a essa corriola o monopólio da defesa da Amazônia? Há 120 anos, os donos de escravos no Brasil usavam o mesmo argumento contra os brasileiros que lutavam contra a ignomínia da escravidão e denunciavam os abolicionistas como aliados da Inglaterra e dos Estados Unidos, países onde associações de natureza política e humanitária combatiam pela mesma finalidade. Como Elton, Ottomar, Átila e Euler, os donos de escravos não estavam defendendo o Brasil coisa nenhuma. Estavam defendendo seus interesses pessoais.

Besteirol

O vereador Jefferson Peres escreveu artigo primoroso em A Crítica (29 de agosto de 1993), intitulado “Amazônia, conspiração e besteirol”. De uma lucidez que não deixa lugar à contra-argumentação. Confesso que fiquei morrendo de sagrada inveja. Sabe como é que é? O cara consegue dizer aquilo que tu estavas pensando e não conseguias expressar, organizando teu pensamento.

Segundo Jefferson Peres, esta “tese conspiratória” contra a Amazônia lhe provoca tédio, pela mediocridade da retórica vazia. E espanto, pelo grau de desinformação. Essas bobagens padecem de três vícios letais à capacidade analítica: o provincianismo, que não permite enxergar além dos limites paroquiais; o passionalismo, que impede o julgamento sereno e o logicismo, que não permite um raciocínio capaz de estabelecer uma simples relação de causa e efeito.

Como para dar razão ao Jefferson Peres, no mesmo dia, no mesmo jornal (A Crítica, p.11), o deputado Euler Ribeiro aparece declarando que não houve massacre dos Yanomami, que se trata de uma conspiração internacional para — (te senta leitor, senão vais cair) — preparar uma intervenção da ONU na Amazônia.

É muita besteira junta!
Elton, Euler, Otomar e Átila unidos, jamais serão vencidos?

Socooorro, mamãezinha! Pelo amor de Deus, dona Elisa, reze para que o Amazonas na próxima legislatura tenha representantes como o Jefferson Peres. A gente morre de vergonha do Euler e do Átila. (Os roraimenses que cuidem do Elton e do Ottomar).

Comente esta crônica



Serviço integrado ao Gravatar.com para exibir sua foto (avatar).

Nenhum Comentário