.Se eu quiser falar com Deus / Tenho que ficar a sós / Tenho que apagar a luz / Tenho que calar a voz. (Gilberto Gil. 1981)
- "Depois que eu deixei esse tal de Orçamento, Deus me ajudou e eu comecei a ganhar dinheiro".
Com essas palavras, o deputado João Alves (PPR-BA) explicou a origem de sua fabulosa fortuna e tentou se livrar das acusações do economista José Carlos dos Santos, que afirmava ter ele recebido propinas de empreiteiras, entidades privadas e prefeituras, quando controlava a Comissão de Orçamento do Congresso.
Segundo o deputado, a ajuda divina se manifestava em palpites certeiros para ganhar na Loteria — mais eficazes que os cálculos do matemático Oswald de Souza. João Alves disse ter acertado cerca de 200 vezes na Sena, sendo 54 apenas naquele ano. "Um verdadeiro milagre", afirmou.
O caso despertou a atenção da imprensa nacional e estrangeira, que buscava entrevistar o próprio Deus para confirmar a história. O único repórter a conseguir foi o titular desta coluna, que apresenta aqui um furo jornalístico sem precedentes.
O furo
A entrevista foi marcada graças a dicas do cantor Gilberto Gil e à intermediação de dona Elisa, agente da Pastoral de Saúde da paróquia de Aparecida, em Manaus. De Niterói, fizemos a ligação:
- Dona Elisa, eu queria falar com Deus.
– Logo você, meu filho, que vivia duvidando da existência DELE.
– É um lance profissional, dona Elisa. Preciso entrevista-lo. Está em jogo o destino do Brasil e a própria reputação de Deus, cujo santo nome parece ter sido invocado em vão.
Com a mesma naturalidade de quem anuncia para sua filha Preta de que vai à quitanda da Leonor comprar bananas, ela disse:
– Eu falo com Ele diariamente.
– Eu sei. Por isso, queria que a senhora descolasse a entrevista.
– Olha, José, eu não sei se Deus vai querer falar com você! Há quanto tempo você não vai à missa, não se confessa, não comunga? Vou ver o que posso fazer, mas não prometo nada.
O prestígio de dona Elisa é imenso. A entrevista exclusiva foi marcada com duas exigências divinas: sem fotos e sem gravação.
Às 23h, já me encontrava na igreja de Aparecida, em Manaus, após me deslocar do Rio de Janeiro. Sentia-me o próprio Roberto Cabrini da TV Globo, entrevistando PC Farias em Londres — apenas torcendo para que Deus não telefonasse antes para a Folha de S.Paulo.
Segui os conselhos de Gilberto Gil na música Se eu quiser falar com Deus: fui sozinho, apaguei a luz, afrouxei os nós dos sapatos e gravata, deixei de lado desejos e receios… e comi o pão que o diabo amassou.
Às 23h50, um raio riscou o céu vindo da baía do Rio Negro, seguido de um trovão. Deus apareceu. Pessoalmente, era mais afável que nos afrescos de Michelangelo na Capela Sistina. Grandes barbas brancas, sobrancelhas espessas como as de Darcy Ribeiro. Chegou protegido por um forte esquema de segurança, comandado por um ex-soldado chamado Paulo ou Saulo, e acompanhado por seus quatro assessores de imprensa: Mateus, Marcos, Lucas e João.
Justificou sua cautela: no fim do século XIX, o filósofo alemão Nietzsche havia proclamado Sua morte, o que Ele interpretou como um atentado. Desde então, só se deslocava protegido — com receio, inclusive, de que João Alves, temendo uma acareação, tentasse "apagá-lo".
A entrevista
Taquiprati (TPT) – Excelência, o deputado João Alves é mesmo um ladrão ou recebeu ajuda divina? Afinal, de onde veio a fortuna dele?
DEUS – Como está escrito em Eclesiastes: "Bens e males, vida e morte, pobreza e riqueza vêm de Deus".
TPT – (Estupefato) Não entendi. Vossa Excelência está confirmando a ajuda?
DEUS – Nesta questão do Orçamento, muita gente foi ajudada além do João Alves: ministros, ex-ministros, banqueiros, empreiteiras como Andrade Gutierrez, Norberto Odebrecht, Queiroz Galvão, OAS, CR Almeida e pelo menos 23 deputados. Entre eles, o Fiuzão (PFL-PE – Viche! Viche!), que em 1971 era dono de um táxi e hoje tem 12 fazendas, e o Ézio Ferreira (PFL-AM, Viche! Viche!).
TPT – Quem mais, além do Ézio, enriqueceu no Amazonas?
DEUS – O ex-presidente da Câmara Municipal Cezar Bonfim e 15 vereadores que, em nove meses, cobraram 120 mil dólares por ressarcimentos médicos. Tem também aquele menino pobre de Eirunepé que virou o homem mais rico do Amazonas, aquele que vive com sovaco suado...agora me deu um branco (O assessor Mateus cochicha o nome) Ah, é, Amazonino. Tem até história de loteria no meio...ele teria enganado um pedreiro que ganhou na loteria.
TPT – Vossa Excelência ajudou toda essa gente a enriquecer?
DEUS – Não ajudei. Apenas permiti, o que é diferente. No princípio, criei o homem e lhe dei livre arbítrio, mandamentos e preceitos. Coloquei diante dele a água e o fogo. O homem estende a mão para o que deseja. A vida e a morte estão diante dele — e o que escolher, isso lhe será dado. Não dei ordem a ninguém para fazer o mal e a ninguém dei licença para pecar.
TPT – Mas o João Alves jura que foi Vossa Excelência quem o ajudou.
DEUS – Como está na Epístola a Tiago: "Ninguém, ao ser tentado, diga: ‘É Deus quem me tenta’. Deus é inacessível ao mal e não tenta ninguém. Cada um é tentado pela própria concupiscência, que gera o pecado; e o pecado, a morte e a corrupção". Não! Deus não pode ser cúmplice nem do moço do sovaco suado, nem do João Alves, nem de quem até a cor do cabelo é falsa.
TPT – Desculpe, Excelência, mas estou sem o Aurélio. O que é concupiscência?
DEUS – É fome intensa pelo prazer e pelos bens materiais.
TPT – Quer dizer que todos — João Alves, vereadores ressarcidos, De Carli, Onaireves, Antônio Nobel de Moura e Amazonino — são concupiscentes?
DEUS – (Adotando um tom semelhante ao do saudoso pastor Benício Leão, o professor “Porquinho”) - Sim. Eles deixaram o caminho reto para se extraviarem no caminho de Balaão, filho de Bosor, e de PC Farias, cupincha de Collor de Mello, que amaram o salário da iniquidade. Tornaram-se escravos daquilo que os venceu — e foram vencidos pela corrupção.
TPT – (Provocador e legislando em causa própria) - Mas por que dona Elisa, que reza diariamente, não enriqueceu? Ela poderia distribuir a grana com os seus 4 filhos e 9 filhas.
DEUS – Não invejes a glória nem as riquezas do pecado, pois não sabes qual será sua ruína. Nada é mais iníquo que o dinheiro quando se vende a alma por ele. Não te inquietes em busca de riquezas injustas, de nada te servirão no dia do julgamento final, do castigo e da escuridão. Assim como sai um hálito fétido de um estômago estragado, assim também emana tal odor de um coração corrupto.
TPT – Vossa Excelência jura por Deus que os corruptos serão castigados?
DEUS – Ai daqueles que buscam lucros criminosos! Cobrirão de vergonha a família. O fogo acender-se-á na assembleia dos maus. A ruína virá de repente, e seus filhos serão objeto de abominação. Infeliz daqueles que buscam o ouro sem escrúpulos. O opróbio cobrirá todos os seus dependentes.
TPT – Então por que não impediu a corrupção?
DEUS – Para mantê-los afastados de mim, porque não quero essa gente comigo. Em verdade em verdade vos digo, é difícil um rico entrar no reino dos céus, é mais fácil um camelo, o Roberto Jefferson, o Aníbal Beça e o Geraldão da Preta passarem juntos pelo fundo de uma agulha do que um rico como Collor, PC Farias ou os Sete Anões entrarem no Reino de Deus.
TPT – Esse escândalo todo não compromete o bem-estar do povo pobre e sofrido?
DEUS – Ai do mundo por causa dos escândalos! Se tua mão ou teu pé te levam ao pecado, corta-os e lança-os longe de ti. Se teu olho te leva ao pecado, arranca-o e lança-o longe.
TPT – Dessa forma, João Alves e Amazonino ficariam cegos, De Carli e os ressarcidos ficariam coxos, e o Ézio ficaria maneta. Uma última pergunta: Se Vossa Excelência fosse convocado pela CPI, aceitaria acareação com João Alves?
DEUS – Nem que a dona Elisa e o papa juntos me pedissem de joelhos. É problema de vocês. São os próprios brasileiros que terão de resolver. Não esperem milagres. Ou o povo toma vergonha, se organiza, pinta a cara outra vez e sai às ruas para depurar a vida política, ou continuará gemendo e chorando neste vale de lágrimas.
Depois disso ele saiu acompanhado de Saulo ou Paulo e dos seguranças, com os aplausos dos quatro assessores de imprensa.