Taki-Pra-Ti (TPT) – (entrando de sola como o deputado federal de Pernambuco, Roberto Magalhães, fez com o “anão” Cid Carvalho. Ele é o relator da CPI que investigou fraudes na Comissão de Orçamento do Congresso Nacional e pediu a cassação de 18 parlamentares envolvidos) - Dona Tonica, quantos cheques foram depositados em sua conta pelo empreiteiro Onofre Américo Vaz, dono da Servaz S.A Saneamento Construções e Dragagem? Quem é que manejava a sua conta bancária: o Amazonino ou o Ézio?
TONICA (T) – Pera lá, maninho! Deixa eu pensar...
TPT – (desesperado) Dona Tonica, isso é uma crônica. Tenho que escrever sua resposta. Não posso dizer ao leitor: “Espera aí que a dona Tonica está pensando”!
T – (zangada) Não me avexa! Não me avexa, senão eu não falo nada.
Bom, leitor, enquanto a dona Tonica fica aí em cima, pensando, aproveito para te explicar como surgiu a ideia de colher mais um depoimento na “CPI do TAKI-PRA-TI”!
Os depoimentos são de minha autoria, mas os fatos nos quais eles se baseiam são absolutamente verdadeiros.
Segundo o JB, em matéria intitulada “Governadores mentiram à CPI”, documentos divulgados pelo Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura confirmam que os últimos governadores do Amazonas contrataram seis obras da empreiteira Servaz, acusada de envolvimento na corrupção do Orçamento da União.
Transcrevo do JB, palavra por palavra:
“Os contratos foram feitos entre a Servaz e a Secretaria Estadual de Transportes e Obras entre outubro de 88 e outubro de 93. A mais polêmica das obras foi a urbanização do bairro Francisca Mendes, cuja concorrência foi vencida pela Servaz no final do governo Amazonino Mendes, por um preço superfaturado, segundo o Movimento pela Ética na Política”.
O JB de ontem, segunda-feira, informa também que em depoimento sigiloso prestado à Subcomissão de Assuntos Bancários da CPI, o dono da empreiteira, Onofre Vaz, comprometeu mais três deputados com a rede de corrupção: Ézio Ferreira (PFL-AM), Salatiel Carvalho (PP-PE) e José Luís Maia (PP-RJ), que apresentaram emendas para beneficiar a empreiteira Servaz. Ézio já havia sido citado anteriormente por José Carlos dos Santos.
— Isto é mais um caso para a “CPI do Taki-Pra-Ti” — eu pensei. Mas não tenho vergonha de te confessar, leitor, que não sabia por onde começar para proceder as averiguações. Falta experiência. Telefonei para o deputado Aloizio Mercadante em Brasília.
— Alô! Mercadante?
Uma voz feminina respondeu:— Não. Ele não está. Quem está falando é a empregada dele, a Ambrósia.
Resolvi explicar tudo para a Ambrósia. Políticos amazonenses estavam envolvidos no esquema de corrupção e eu precisava investigar, ir fundo, doa a quem doer. Ambrósia já serviu muito cafezinho em várias reuniões na casa do deputado, ouviu tudo o que os parlamentares falaram sobre estratégia de investigação e acumulou experiência. Era uma corruptóloga amadora. Deu uma dica:
— Você tem três alternativas: procurar a ex-mulher, a empregada ou o motorista de alguns dos envolvidos. São três categorias humilhadas, dispostas a tudo contar.
Minha fome pela informação é grande, minha sede de justiça é maior, mas ambas têm um limite ético: não acho legal entrevistar ex-mulher. Restava o motorista e a empregada. Aí me lembrei da dona Tonica que reunia numa só pessoa os dois atributos: era chofer-de-fogão.
Tu te lembras da dona Tonica, leitor? Não, não te lembras. É por isso que o Brasil não vai pra frente. A gente lê as coisas e não guarda na memória.
Antônia Nogueira da Silva — dona Tonica — em 1986 era cozinheira, de forno e fogão, do Gioto Santoro, dono da boate “Faces in the Grove”, que ficava ali na av. Djalma Batista. O Gioto registrou na Junta Comercial de Manaus a firma A. N. da Silva Ltda. (“A” de Antônia, “N” de Nogueira. Era a dona Tonica!)
Dona Tonica assinava, sem saber, as guias de importação da Suframa em nome da empresa, chegando a obter autorização e liberação de câmbio fechado de dois milhões de dólares (27 bilhões de cruzeiros na época), vendidos por Gioto no mercado paralelo, pelo escândalo que ficou conhecido como “o crime do colarinho verde”. (Aliás, em que deu o caso do crime do colarinho verde? Por que transferiram o delegado Gominho, que vinha fazendo um trabalho exemplar?)
Efetivamente a pessoa mais indicada para prestar esclarecimentos à nossa CPI era ela, dona Tonica. Depois da experiência de sócia involuntária de Gioto na empresa fantasma, ela, honestíssima, ficou sem um centavo. O Gioto era ruim de gorjeta. O João Alves, pelo menos, deu uma casa para sua empregada Noelma Neves, que lhe serviu de laranja para a lavagem de dólares.
Desempregada, dona Tonica teria sido contratada como cozinheira do deputado Ézio Ferreira. Existem algumas provas testemunhais, ainda que não documentais, de que foi ela quem preparou aquele banquete oferecido pelo Ézio para 80 parlamentares em Brasília, de apoio a Collor, antes da votação do impeachment, quando rolou champagne Moet & Chandon e uísque Royal Salut. Até hoje o Ézio lambe os beiços, quando lembra do sarapatel de tartaruga preparado pela dona Tonica.
— Cabocoo, ela é experiente no forno e fogão e um túmulo na questão de propinas oferecidas por empreiteiras e na constituição de empresas fantasmas” (Você acabou de ouvir, leitor, a voz do Ézio, falando por telefone com Amazonino, numa gravação feita pela CPI do Taki-Pra-Ti, em escuta autorizada por juiz federal. Ele só chama o Amazonino de “cabocoo”, para lembrar a origem comum dos dois).
— Ok, Baby, eu estava pensando em contratar a Inácia, mas parece que depois do atentado contra o Painho, o João Pedro comprou o passe dela. Então vou contratar mesmo a Tonica. Tanqui very mate. Câmbio, Baby, câmbio” (Agora, leitor, essa voz que você acaba de ouvir é do Amazonino. Na intimidade, ele chama o Ézio de “Baby” e adora fingir que fala em inglês para tirar o complexo de Eirunepé e humilhar o Ézio).
— Because you know, yeah, yeah, I’ve been watching you! (Essa é a voz da Madonna, cantando Everybody no Maracanã, gravada sem autorização do juiz federal, na mesma fita da escuta telefônica do papo Ézio–Amazonino).
Diante de todos os fatos aqui apresentados, está mais do que justificada a convocação de dona Tonica para prestar depoimentos à nossa CPI. Ela precisa nos explicar como é que funciona o esquema das empreiteiras e a lavagem de dinheiro na Lavanderia Esportiva do Amazonas. Como é que foi montado em Manaus o esquema de Filantropia, de uso de milhões de dólares para obras sociais filantrópicas fantasmas. Por isso, voltei à carga com a pergunta, direta como um soco:
TPT— Dona Tonica, o Ézio e o Amazonino são ou não são ladrões? Saquearam ou não os cofres públicos? Estão ou não comprometidos com o esquema de corrupção do orçamento da União? Afinal, dona Tonica, quem são os “anões” do Amazonas?
Acostumada a preparar e a servir banquetes para muitos vereadores ressarcidos - o Cézar Bonfim se amarra na caldeirada de tucunaré dela e o Robério Braga queria apresentá-la como sócia do IGHA — Antônia Nogueira da Silva, dona Tonica, me olhou com um sorriso irônico e disse:
T— Tudo o que tenho a falar não cabe no espaço de uma crônica. (Entrando em transe como a Inácia da novela “Renascer”, dona Tonica prosseguiu): — O povo paga imposto quando compra qualquer mercadoria, uma simples caixa de fósforo. O imposto arrecadado do dinheiro sofrido do povo vai para os cofres públicos. Deveriam ser destinados à educação, saúde, obras sociais. Mas alguns políticos e empreiteiros desonestos desviam o dinheiro para seu próprio bolso. Enriquecem. Usam — investem — uma pequena parte na campanha eleitoral, distribuindo ranchos, camisas, madeira e material de construção, dentadura, óculos. Enganado pela segunda vez, o povo vota neles, para que continuem roubando. Parece um ciclo que não termina nunca.
Suspendi a entrevista-interrogatório realizada neste domingo que passou. Vesti minha roupa branca com mais de 20 mil pessoas percorri os 8 km que ligam o Leme ao Leblon, no arrastão contra a corrupção. Andamos mais de quatro horas, cantando:
— “Explode, coração, na maior felicidade, o povo brasileiro está se unindo para acabar com a impunidade”.
