Já te contei, leitor, que a casa da dona Elisa, no Beco da Bosta, é separada da casa da Leonor apenas por uma tênue parede? Não? Então, conto agora. As duas vizinhas não podem ter segredos. Tudo o que se faz em uma casa repercute e ecoa de forma ampliada na outra. Cada vez que a Leonor puxa a descarga de seu banheiro, a cozinha de dona Elisa estremece toda e ameaça decolar, com o barulho ensurdecedor de um Boeing 767. Quando o relógio de parede da Zona Franca de dona Elisa toca “Oh, Suzana, não chores por mim”, a Leonor acompanha assoviando e diz:
— São 7:00 horas da manhã.
Já te contei, leitor, que a Leonor só gosta de ouvir rádio, televisão e toca-discos no último volume? Pois bem, neste domingo, 19 de dezembro, este que batuca essas mal traçadas linhas dormia o sono dos justos, quando um sonzão legal saiu da casa da Leonor, atravessou a parede e inundou o quarto. Parecia a telenovela Fera Ferida. Lá, o prefeito de Tubiacanga vivido por Edson Celulari contracena com o vereador Numa Pompílio de Castro protagonizado por Hugo Carvana, que é assessorado por um tal de Antenor Maxwell, o deslavado puxa-saco encarnado na pele do ator Giuseppe Oristânio. "O excesso de puxa-saquismo é proposital" - diz Aguinaldo Silva, autor do enredo baseado na obra do escritor carioca Lima Barreto (1881-1922)
Ainda semiacordado, ouvi uma voz açucarada que se derramava em elogios para um político ainda não identificado. Era uma rasgação de seda que não acabava mais. Meio inconsciente, jurei estar ouvindo a voz do puxa-saco Antenor Maxwell. Fragmentos de frases ecoavam aqui e ali, como num sonho:
— O povo tem acompanhado o excelente trabalho de tua administração... o maior político de todos os tempos... e patati-patatá, pererê-pão-duro, lero-lero, blablablá...
— Novela? Dia de domingo, nessa hora da manhã? Não pode ser — pensei.
Acordei de vez e descobri que não era novela, quando identifiquei a voz. Era do radialista Josué Filho. A Leonor havia sintonizado a Rádio Difusora do Amazonas.
Matutei cá com os meus botões:
— Vai ver, o Josué, que é secretário de Educação, está elogiando seu chefe, o governador Gilberto Mestrinho.
Não, não estava. Toda aquela rasgação de seda, para estarrecimento dos radiouvintes — entre eles, eu e o Gregório Dias — era para o prefeito de Manaus, Amazonino Mendes, em campanha para o governo do Estado.
Josué sapecou:
— Amazonino, o povo tem acompanhado o excelente trabalho da tua administração. Quais são os teus projetos imediatos para Manaus?
Depois de um pigarro, a resposta cruzou a parede, mas ninguém diria que vinha de um receptor de rádio da casa da Leonor, no Beco da Bosta. Parecia o primeiro-ministro britânico falando de Down Street para a BBC de Londres:
— Bom, meu querido irmão Josué. Você sabe perfeitamente o quanto é difícil administrar. Acontece que eu tenho um compromisso de campanha com o meu povo, este povo querido e sofrido da minha terra. Portanto, vou honrá-lo, realizando uma administração, quiçá, uma das maiores já acontecidas em Manaus. Quiçá.
- (Éguate! E os projetos imediatos? Ele não respondeu à pergunta, não disse bulhufas, pura palavrório vazio — eu pensei. Será que a Leonor percebeu?)
Mas aí o Josué já engatilhava a segunda pergunta:
— Prefeito, e quanto às insinuações de sua candidatura para o Governo do Estado?
Neste dia, Amazonino estava deslumbrado com a palavra “quiçá”:
— Olha aqui, meu irmão Josué. Não existe nada de concreto a esse respeito. Ainda não me defini, minha intenção é, quiçá, atingir as metas definidas no meu grande projeto para Manaus.
(Santa Periquita! Qual é esse grande projeto? — me pergunto outra vez. E quiçá fique sem resposta).
- No entretanto (ele continua falando “no entretanto”, assassinando a língua portuguesa, só para ver se o João Leda Praxedes se mexe na sua tumba), como você sabe, Josué, nós não somos donos do nosso destino. Se o povo querido da minha terra assim o desejar, eu estarei pronto para servi-lo mais uma vez, como um soldado que não foge das trincheiras do campo de batalha. (Macho pacas! E ainda por cima, generoso!!!)
— E como é que fica o seu grande projeto para Manaus? - indaga Josué outra vez (mesmo se todos nós continuamos sem saber que diabo de projeto grandioso é esse).
— Se o povo exigir minha presença em outra trincheira, se isso vier, nosso trabalho terá sequência, pois o meu vice, deputado Eduardo Braga, há dez anos vem sendo preparado por mim (Nossa mãe! Essa é maior queimação que ele podia fazer com o pobre do Eduardo; chamá-lo de seu discípulo) e se encontra apto a assumir a Prefeitura de Manaus. Quanto a isto, não tenho a menor dúvida, não tenho a menor dúvida, pois sei que ele saberá tocar em frente o grande projeto que juntos elaboramos.
(Caceta! Que grande projeto é esse? Por que ele não diz? Mistério total. Sigilo amplo. Será que tem a ver alguma coisa com as gravações sobre corrupção do PC Farias com o Onofre da Servaz — volto a pensar).
Josué retribui com o mesmo tratamento fraterno.
— Meu irmão Amazonino, e quanto às insinuações sobre o Prefeito-Rancho, com algumas pessoas insistindo que distribuir comida não resolve o problema do povo, como é que você vê?
Um amplo sorriso se abre, quase não passando pela janela da Leonor:
— Oh, meu irmão, isso não me incomoda, pois eu tenho a consciência tranquila. Josué, o que está faltando é amor, amor, amor. As pessoas precisam desarmar o espírito, pois só o amor constrói. Temos que deixar o ódio de lado, pois a fraternidade é o único caminho que nos leva aos grandes ideais de vida. Não. Eu não estou preocupado com isto e, enquanto pudermos, vamos continuar com este projeto de rancho. Aliás, veja você, meu irmão, só agora o Betinho descobriu o que nós há anos estamos praticando. (É, bebê? Mas o Betinho não usa dinheiro público para distribuir ranchos em proveito estritamente pessoal. O Betinho não troca feijão por voto).
Josué, com audácia desassombrada, faz a última pergunta carregada de corajosa babação:
— Meu prefeito e meu irmão Amazonino, sem sombra de dúvidas que o trabalho desenvolvido em tua administração é um trabalho de formiguinha, mas certamente o povo está atento e acompanha tua boa vontade em minorar o seu sofrimento. (Que o digam os professores e os médicos do município que ganham salário de “marajá”). Ainda em janeiro gostaria de contar com você, novamente, aqui em meu programa, para continuarmos este nosso bate-papo sobre os grandes projetos para Manaus (que o ouvinte ficou sem saber quais são).
— Josué, meu irmão, muito obrigado. Quero te dizer que você, dentro de dez anos, quiçá seja a maior liderança do Amazonas. (Ele não tem dúvidas de que, atualmente, ele próprio é a maior liderança).
O Festival de besteira termina. Nunca tanta bobagem foi dita com tanta solenidade em tão curto espaço de tempo. Nunca se falou tanto sem dizer nada. O Josué Filho... vou te contar! Será que cada Numa tem o puxa-saco que merece? E cada povo tem o Numa que merece?
P.S. Josué disputa o lugar de engraxate do poder com Ronaldo Lázaro Tiradentes que, coitado, não estudou porque teve, cedo, de trabalhar para educar os irmãos. Para compensar tamanha injustiça, com procedimentos nada ortodoxos, adquiriu diploma de segundo grau, da Escola Altair Severiano Nunes. Vai acabar, quiçá, quiçá, quiçá, fundando um “Cursinho Pré-Vestibular Rolarita”. (O delegado da Polícia Federal Rosinaldo Wanderley parece querer enquadrar o Tiradentes, o verdadeiro Antenor Maxwell do Numa manauara).,