CRÔNICAS

Carnaval: os destaques na ala dos ressarcidos

Em: 08 de Fevereiro de 1994 Visualizações: 2038
Carnaval: os destaques na ala dos ressarcidos

.Neste carnaval, um carro alegórico abre o desfile com um rato gigante de colarinho e gravata para simbolizar a maracutaia. O Grêmio Recreativo Escola de Samba Vereadores Ressarcidos de Manaus, já tem o seu samba-enredo. Começa assim:

"Foi na cidade de Manaus

onde com muito alarido

Praciano denunciou a orgia

dos edis ressarcidos.

Enfim César Bomfim (ai, bom fim!)"

Os carnavalescos da CPI da Câmara Municipal de Manaus, que investiga a emissão de recibos falsos para ressarcir vereadores e funcionários, botaram o bloco na rua e começamos a conhecer os integrantes de algumas alas.

A ala dos médicos-fantasmas, vestidos com lençóis brancos, estetoscópio pendurado no pescoço e termômetro debaixo do sovaco é seguida pelas alas dos doentes-fantasmas, esparadrapados, em cadeiras de roda, com perna engessada, sambando, apesar de tudo, com um vidro de soro ao lado.

A Comissão de Frente é integrada pelo ex-presidente da Câmara César Bomfim (codinome Cebo), e o ex-diretor-geral Fernando Demasi (Fede), e o irmão do César, Sílvio Bomfim. Vilson Castro, ex-chefe de gabinete do César, vem de mestre-sala e sua mulher Adelaide de porta-bandeira.

No entanto, no carnaval de corrupção da Câmara de Vereadores de Manaus, onde se praticou orgias com o dinheiro público, ainda não vimos desfilar alguns destaques. A CPI apertou o tumor e está saindo pus fedorento por todos os lados. Agora, é necessário espremer até sair o carnegão.

O carnegão ainda não saiu, leitor.

Refrescando a memória

Olha só. Vamos refrescar a memória. Em 1984, os vereadores, pagos com dinheiro do contribuinte para defender a cidade e os interesses coletivos, legislaram em causa própria e aprovaram uma lei garantindo que cada espirro dado por qualquer um deles seria custeado pelo povo. Uma lei tão imoral, que ninguém sabe quem a aprovou, porque a ata da reunião até hoje não foi encontrada.

A partir daí — e durante anos — os vereadores começaram a espirrar adoidado. Abriram o cofre com um pé de cabra e mergulharam dentro dele como numa piscina, tomando banho de dinheiro, tal qual o tio Patinhas. A grana era tanta, que daria para manter na UTI todos os vereadores ressarcidos durante uma legislatura.

Um vereador honesto e que não é leso, Francisco Praciano, descobriu a mutreta e botou a boca no trombone.

— Tão metendo a mão no bolso do povo — gritou Praciano.

O que é que nós — eu e tu, leitor (a) — ingenuamente pensávamos? Como os vereadores ressarcidos gozavam de boa saúde, apareciam em colunas sociais oferecendo banquetes ou fazendo viagens ao exterior, a gente pensava que eles inventavam algumas doenças, procuravam um médico amigo que lhes dava um recibo, e usavam o nosso dinheiro — meu e teu — em benefício próprio.

Se um médico safado com registro no CRM jurasse, por exemplo, que o Robério Braga e o Raimundo Furtado contraíram beribéri, escorbuto, malária, cólera e além disso padeciam de distúrbio de labirinto, bico-de-papagaio e outras doenças, tendo a carótida entupida, quem éramos nós, pobres mortais, para dizer que não era verdade?

Os ressarcidos não deixaram impressões digitais no cofre — nós pensávamos.

Erramos. Eles deixaram sim.

Em primeiro lugar, usaram recibos falsos, de médicos fantasmas, que não possuem registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) e, além disso, não constava nos recibos o endereço do consultório, o que contraria o regulamento do CRM.

Em segundo lugar, não contentes em inventar doenças para eles mesmos, contaminaram alguns funcionários subordinados, transmitindo-lhes os vírus fantasmas. Depois, os funcionários requeriam os ressarcimentos e endossavam o cheque para o vereador. Às vezes, rachavam a grana. Às vezes, nem isso.

Em terceiro lugar, não havia sequer assinatura do médico, apenas um rabisco que nem o mais genial grafólogo seria capaz de identificar.

Baile de máscara

Além do vereador César Bomfim, que está mais queimado que carvão, a CPI até agora só pegou funcionários. Agora, leitor (a), o que resta à CPI é continuar o desfile, puxando o cordão dos ressarcidos e colocando na avenida todos os que participaram dessa folia com o dinheiro público, para que a plateia — nós — possa vaiar, apupar e mandar para o xilindró aqueles que transformaram a Câmara num baile de máscaras.

O atual presidente da Câmara, Omar Aziz (PPR – viche! viche!) deu uma declaração bombástica:
— Não vou encobrir sacanagem. Os funcionários que estiverem implicados no escândalo dos ressarcimentos serão afastados. Maaaacho! Maaaacho pacas esse Omar Aziz.

É claro que tem funcionário corrupto, que mamou, e precisa ser punido. Adelaide Soares, por exemplo, lotada no gabinete do Cesar Bomfim. Não sabe nem mentir. Pegou milhões de cruzeiros e disse na CPI que foi para pagar um médico do Ipasea, onde as consultas são gratuitas. Até tu, Adelaide?

Alguns funcionários foram usados e não têm culpa no cartório. A Vilma Nascimento, por exemplo, estava gestante. O filho nasceu. Foi chamada no gabinete do Demazi para endossar um cheque de mais de um milhão e meio como ressarcimento de uma cesariana feita pelo médico Vitor Sanches. Vilma nunca viu o tal médico, nem a cor do dinheiro. Coagida, endossou o cheque.
— Não recebi nada. Nem um “muito obrigado”. Naquela diretoria era obrigada a fazer de tudo, inclusive comprar preservativos para o Demazi — declarou Vilma à CPI.

Praciano, que conhece bem a Casa, afirma com muita razão que a investigação não pode atingir só os servidores:
— É preciso ouvir todo mundo que está envolvido, do funcionário ao vereador. Muitos servidores foram coagidos a assinar requerimentos.
São pessoas simples, mal remuneradas, que foram usadas por esta quadrilha que desviava o dinheiro público — diz Praciano.

Quem aprovou a lei safada dos ressarcimentos? Não foram os funcionários. O próprio trio de ouro — Demazi, Sílvio Bomfim e Vilson Castro — armou a mutreta acionado por vereadores. E agora me vem o senhor Omar Aziz, ele também um ressarcido, ele também com recibos falsos até agora não explicados, cantar de galo e dizer que vai punir os funcionários. Cabra maacho, esse Aziz!

O que a gente quer saber é quando a CPI vai começar a ouvir os vereadores implicados, incluindo o próprio Aziz, o Raimundo Furtado, o Robério Braga e toda aquela lista enorme já publicada pelos jornais. Os mesmos médicos fantasmas que deram remédios aos servidores, deram também aos vereadores.

O carnegão precisa sair, senão o tumor volta a crescer. Os integrantes da CPI que se dispuserem ir fundo, independente do partido a que pertençam, certamente terão o reconhecimento da população. Você pode até ser PFL ou do PPR (viche! viche!) e ser honesto. Tá aí o Jarbas Passarinho e o Roberto Magalhães que não nos deixam mentir.

P.S. — O Dizque “Taqui pra ti” volta a funcionar. O leitor que tiver alguma informação ou documento sobre a corrupção da Câmara, pode escrever para José R. Bessa Freire/Caixa Postal 105094. CEP — 24231-970 — Niterói — RJ. Se for funcionário e temer perseguições, avise que a gente não publica o nome.

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