.- A Adelaide foi meu anjo-da-guarda – costumava dizer sua irmã, dona Elisa.
Tia Dedé, coração-de-ouro, ajudou a educar toda a sobrinhada pobre. Cadernos, livros, sapatos, farda de normalista do IEA, nunca nos faltaram. Esse que batuca essas mal traçadas comeu a mandioca comprada e amassada por ela com seu minguado salário de professora. Creio que muita gente deve ter tido uma tia como a Dedé. A minha faz aniversário hoje, 15 de março, junto com minha irmã Teca, também muito generosa. Aproveito esse espaço para homenageá-las.
- Quer dizer que a coluna Taquiprati agora virou coluna social para jogar confete na tiazinha querida? — dirá, com ironia, algum leitor mais intolerante.
Pera lá, maninho. Me dá uma folga. Mãe é mãe, paca é paca e tia é tia. Hoje, o aniversário dela serve de gancho para falar do nosso tema preferido: os ressarcidos.
Os ressarcidos
Fico comovido, leitor (a), com a minha e com a tua tia Dedé, ela anonimamente está construindo esse Brasil com um salário de fome. Esta emoção se transforma em indignação, quando vejo o contrário: um grupo de ladrãozinhos safados, de paletó-e-gravata, metendo a mão no dinheiro público em benefício próprio. Tiram dos outros, do coletivo, para o seu próprio usufruto. Roubaram quase dois milhões de dólares. É dinheiro pra dedéu. Quanto sofrimento coletivo poderia ser minorado com essa grana? Um crime desses é como tirar leite da boca de criança faminta. Clama aos céus e pede a Deus vingança.
Mas o prejuízo que os vereadores ressarcidos dão à sociedade não é só econômico. O rombo ideológico é ainda maior, porque eles sujam e deformam uma atividade tão nobre e bonita como a política, que pela sua natureza está destinada ao bem-estar comum. É um mau exemplo para a juventude. Os jovens vão pensar que política é a arte de se locupletar.
Depois do relatório do Ari Moutinho, lido à luz de vela, não se trata mais de uma opinião pessoal. Agora é oficial. Havia uma quadrilha instalada na Câmara Municipal, saqueando os cofres públicos.
O relatório aponta os irmãos Metralha César e Sílvio Bomfim, o Fernando Demasi, alguns funcionários e inclui ainda o nome do vereador que ficou grávido, Robério Braga. O relator pede à Receita Federal e ao CRM que averiguem a natureza do atendimento médico e os valores por eles declarados.
Este é um aspecto positivo. Tão positivo que o César Bomfim tentou dar um pau no Ari Moutinho. E o ressarcido Leonel Feitosa quis obstaculizar a leitura, encrencou com o Moutinho e, querendo ofendê-lo, exclamou:
— Teu pai te ajudou a redigir o relatório.
Grandes berdas! Bobinho, esse Leonel. Isto não é ofensa, é elogio. Quantos vereadores gostariam de ter um pai tecnicamente competente e eticamente responsável com quem pudessem trocar ideias!
Então, a reação do Bomfim e do Leonel indicam que o relatório não é pra ser jogado no lixo. No entanto, a vereadora Vanessa Grazziotin e padre Humberto Guidotti - profeta dos Direitos Humanos - têm razão quando denunciam que o resultado da CPI foi insatisfatório.
Vou te pedir um favor, leitor (a). Interrompe a leitura aqui. A crônica acabou. Agora, me deixa sozinho com o Ari Moutinho, que quero ter um particular com ele.
Taqui Pra Ti — Moutinho, o relatório tá fraco, Moutinho. Como é que vocês deixaram de fora o Raimundo Furtado, o “Boquinha-de-ouro”, com suas três carreiras de dentes? O Moacir Marques Filho é um caso escandaloso: além de escovar o dente com Kaol, porque também tem boca-de-ouro, o Moacir é outro grávido que pariu três vezes no espaço de seis meses! E o Omar Abdel Aziz não tem recibos falsos em seu processo? O próprio Leonel não se ressarciu? E os outros, Moutinho? Onde estão os outros?
Ari Moutinho — A pressão foi muito forte. Se eu colocasse todo mundo, quem iria desapartar a briga? Eles me quebrariam todo.
TPT — Que nada, rapaz. A gente te defendia. Os vereadores Jefferson Péres, Aloysio Nogueira, Serafim Correa e a Vanessa.
AM — O Jefferson? Com aquele físico?
TPT — A força moral do Jefferson é maior do que a força do Mike Tysson.
AM — Força moral não ganha luta de boxe. Os ressarcidos queriam sair pra porrada.
TPT — Moutinho, tu és jovem, Moutinho. Não te deixa contaminar com a lama desses caras. Preserva a tua integridade. O povo amazonense está tão sofrido, tão lascado. Ele precisa de representantes políticos sérios e com coragem. Se tu tivesses ido fundo, disponível a varrer toda sujeira, em nove meses serias o mais jovem deputado federal do país. Assumirias todo esparadrapado e engessado, serias capa da “VEJA”. A gente vai continuar te observando, Moutinho. A tia Dedé está de olho em ti e na Câmara de Vereadores. Quanto aos conselhos do teu pai, não dá trela pro Leonel. Se o conselho for bom, não é vergonha nenhuma segui-lo. O Leonel tá morreeeeeedo de inveja.
PS — A tia Dedé e os ressarcidos não me deixaram comentar os livros “Arqueologia do Prazer” do João Bosco Botelho, que será lançado na próxima sexta-feira no Museu Amazônico, e “Pitombas e Biribás”, do Áureo Nonato. Também me impediram de comentar as cartas que recebi de Pedro Missioneiro e o dossiê do ressarcido Moacir Marques, enviado por essa formiguinha pertinaz que é o Jelder Picanço. Fica pra próxima. A CPI do Takiprati sobre os ressarcidos continua. Enviem documentos para José R. Bessa, Caixa Postal 105.094, Niterói — RJ, CEP 24231-970.
Ver também: o contra-cheque da tia Dedé - https://www.taquiprati.com.br/cronica/385-o-contracheque-da-tia-dede-