CRÔNICAS

"Explode Foguetão": Uatumã, a nossa Fuenteovejuna

Em: 26 de Abril de 1994 Visualizações: 2255
"Explode Foguetão": Uatumã, a nossa Fuenteovejuna

“Quem matou o Comendador? Foi Fuenteovejuna, Senhor” (Lope de Vega. 1619)

Morro de vergonha em confessar publicamente que não conheço São Sebastião de Uatumã, onde recentemente foi executada a famosa “Operação Explode Foguetão”. Procuro localizá-la num mapa pequeno e já ultrapassado. Saio de Manaus, desço o rio Amazonas, passo pelo rio Urubu, na margem esquerda. Mais abaixo, vejo o rio Uatumã, meu dedo vai acompanhando o seu curso pelo mapa, atravesso a boca do seu afluente Jatapu e tento adivinhar onde vivem aquelas 3.000 pessoas que no último dia 18 de abril depredaram os prédios da Prefeitura e da Câmara Municipal.

A notícia ganhou as páginas dos principais jornais do Brasil. O prefeito de São Sebastião de Uatumã, o militar reformado Carlos Barroso (PTB – viche! viche!), seguindo o exemplo dos vereadores ressarcidos de Manaus e de conselheiros do Tribulins, parece que andou metendo a mão nas verbas públicas e usando-as em benefício próprio.

A Associação de Moradores, presidida por um cidadão com nome de poeta – João Cabral – diante das provas de corrupção, exigiu a cassação do prefeito, conhecido pelo apelido de “Foguetão”. O presidente da Câmara Municipal, Waldenir Braga (PTB – viche! viche!) enrolou, enrolou, parecia até o Omar José Abdel Aziz tentando abafar o escândalo dos ressarcimentos. Pela quarta vez consecutiva, Braga recusou a colocar em votação no plenário a cassação do prefeito. Aí, a população revoltada, decidiu fazer justiça com suas próprias mãos. Invadiu os prédios da Prefeitura e da Câmara Municipal e botou pra quebrar. Deram um pontapé nos fundilhos do “Foguetão”, que fugiu de barco para Manaus.

A CRÍTICA publicou a foto do “pinta”: camisa aberta, cordão de ouro balançando sobre o peito, vai ver com medalhinha de Nossa Senhora Aparecida, de fazer inveja ao Castor de Andrade.

Não conheço São Sebastião de Uatumã, mas admiro os seus habitantes. Povo guerreiro, como o santo padroeiro da cidade. Bravo e decidido. Não se trata, evidentemente, de fazer aqui a apologia do quebra-quebra, mas de reconhecer e louvar a determinação coletiva de uma população que não se deixou enganar e soube lutar por sua dignidade, tal como em Fuenteovejuna, uma das 426 peças escritas por Lope de Veja (1562-1635), o pai da comédia espanhola. Ele se baseou em fatos verídicos ocorridos em um vilarejo da Espanha para contar a rebelião de seus moradores que, indignados pela omissão da Justiça, invadem o palácio do tirano estuprador e fazem justiça com as próprias mãos.

O juiz enviado pelo rei tortura cada um deles perguntando: - “Quem matou o Comendador?” Cada um deles responde: “Foi Fuenteovejuna, Senhor”. O juiz insiste: -“Quem matou o Comendador”? Eles respondem: - “Fuente Ovejuna, um por todos, todos por um”. Ninguém delata os autores da ação coletiva.

Se a População de Manaus tivesse o mesmo grau de consciência e de mobilização, o César Bomfim e o Omar Aziz – dois vereadores ressarcidos com recibos falsos – não estariam rindo da nossa cara. E as gordas mesadas que os papais do Tribulins pagavam aos seus filhos com dinheiro público seriam devolvidas em cada centavo.

Preciso falar com o João Cabral, presidente da Associação dos Moradores para entrevistá-lo e saber dele os detalhes da “Operação Explode Foguetão”. Consulto a Lista Telefônica do Amazonas, de 1989, e encontro 13 assinantes residentes em São Sebastião de Uatumã, nenhum Cabral. Procuro na letra “B”, mas também não consta nenhum Barroso ou Braga. Quem sabe na letra “F”? Será que Barroso está registrado com o nome de “Foguetão”? Nada.

Impossibilitado de entrevistar por telefone os envolvidos na “Operação Explode Foguetão”, decido procurar o padre Serafim Leite, autor da História da Companhia de Jesus no Brasil, publicada em dez tomos.

Nos tomos II e III, dedicados às missões na Amazônia, aparece farta documentação, dando conta que a região do Uatumã era habitada no século XVII pelos povos indígenas Aruaquis, Perequis e Banuaris, contatados pela primeira vez em 1657-1658 pelos jesuítas Francisco Veloso, Manuel Pires e Francisco Gonçalves.

Em 1663, uma tropa portuguesa comandada pelo cabo de tropa Antônio de Arnau Vilela invadiu as aldeias indígenas dos rios Urubu, Uatumã e Jatapu, com o objetivo de prender índios e levá-los como escravos para Belém. Os índios resistiram e o cabo Arnau foi morto com uma bordunada nos cornos.

Os tempos mudaram. Hoje não é correto fazer justiça com as próprias mãos, existem canais democráticos para o exercício da cidadania, para a luta contra a opressão e pela defesa da liberdade. De qualquer forma, a “Operação Explode Foguetão” não é o primeiro gesto histórico de resistência na região do Uatumã.

P.S. — No dia 28 de março, Jelter Picanço me enviou de Manaus uma volumosa papelada, contendo cópias de documentos do escândalo dos ressarcidos. O pacote extraviou-se e somente ontem me foi entregue pelo Correio. Passaremos a semana estudando o dossiê, que será comentado aqui na coluna, na próxima terça-feira.

(Correspondência para José R. Bessa, Caixa Postal 105.094, Niterói, RJ, CEP — 24231-970)

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