O Brasil inteiro chora a morte de Ayrton Senna. Neste domingo, 1º de maio, milhares de torcedores no Maracanã, no Morumbi e em outros estádios manifestaram sua dor e tristeza, saudando o grande piloto da Fórmula-1:
“Olê, Olê, Olê, Senna, Senna!”.
O grito em coro das massas, de tão emocionante, era capaz de arrepiar até os cabelos do Esperidião Amin. O presidente Itamar, ao decretar luto nacional, apenas oficializou um sentimento que já havia invadido cada lar, cada esquina de rua e cada beco do país.
Todos nós ficamos meio abobalhados, afetados com a perda, como se fosse de algum parente ou amigo querido. É como se o Brasil fosse uma grande família e Senna fosse o irmão mais novo, o caçula mimado, com quem encontramos em alguns domingos, quando “juntamos as panelas”, só pelo prazer de estarmos juntos. E de repente, ele — os “quindins” da Pátria mãe gentil — desaparece, nos deixando mergulhados na solidão.
Existe um fenômeno de identificação de 150 milhões de brasileiros, com o herói que tantas vezes subiu ao pódio, levantando a bandeira do Brasil. Da mesma forma que um pedacinho de cada um de nós subiu ao pódio com ele, compartilhando suas vitórias, e transformando-as em nossas vitórias, nós também, no domingo, rodopiamos com ele três vezes depois de bater contra o muro na curva Tamburello do circuito de Ímola. Com sua morte, morreu um pedaço de cada um de nós.
Essa foi a grande tragédia de domingo. As fraturas na base do crânio, o esmagamento da testa, o rompimento de centenas de veias que drenam o cérebro, a parada cardíaca sofrida ainda na pista, as quatro horas de agonia, não afetaram apenas o corpo físico de Ayrton Senna, mas, simbolicamente, todo o corpo social do Brasil.
Num país com 150 milhões de derrotados, Ayrton Senna era um vencedor.
Somos 150 milhões de derrotados, porque estamos perdendo a luta contra a inflação, o desemprego, a fome, a miséria, a corrupção, a delinquência. Não conseguimos sequer punir os anões do orçamento, os vereadores ressarcidos e os corruptos do Tribulins. E Senna, com sua ousadia, coragem e habilidade, obtinha sucessivas vitórias nos circuitos internacionais de Fórmula-1, compensando as nossas frustrações cotidianas, e realimentando os nossos sonhos.
Aliás, o próprio Ayrton Senna, em recente entrevista à revista Auto Zeitung, reproduzida parcialmente ontem pelo Jornal do Brasil, declarava:
“Enquanto alguns brasileiros levam vida de sonho, a maioria vive na miséria, sofrendo com a corrupção, a inflação e a delinquência”.
Sua morte, portanto, tem uma forte carga simbólica. Não é apenas Ayrton Senna que nos diz adeus, depois de nos ter proporcionado tantas alegrias domingueiras, que compensavam as nossas frustrações de segunda a sábado. Sua morte afeta também algumas esperanças fortemente arraigadas no imaginário popular, o épico em que o povo brasileiro se sente representado, aquilo que ele não conseguiu no cotidiano: uma vida curta, mas gloriosa, que o destino reserva aos heróis míticos.
Por isso, hoje queremos reverenciar a dor não apenas dos familiares e amigos íntimos que privaram da amizade do campeão da Fórmula-1, mas sobretudo as lágrimas do jornaleiro, os soluços da doméstica que não conseguiu falar ao ser entrevistada pelo canal de TV e o silêncio dos garis que se recusavam em acreditar na notícia. Quem sabe, juntos, conseguimos acelerar, ultrapassar a curva Tamburello, chegar lá e subir ao pódio com a bandeira do Brasil.
PS — Os moradores do bairro de Aparecida, além de comungarem com todo o povo brasileiro a dor da morte de Ayrton Senna, tiveram um sentimento de perda particular com o falecimento de dona Maria Amália Simões, moradora desde sempre da rua Xavier de Mendonça. Viúva de Adroaldo Alexandre, mãe de Suely, Suzany, Alberto, Paulo Ney, Marcos e Ricardo, dona Maria Amália era uma pessoa muito querida no bairro, conhecida por sua generosidade. Mãe de muitos filhos órfãos, além dos dela, dona Amália ajudou a criar filhos alheios. O bairro está duplamente de luto.

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