CRÔNICAS

A noivinha Manaus e A Volta da Rai

Em: 28 de Março de 1995 Visualizações: 2456
A noivinha Manaus e A Volta da Rai

— Mamãe, fiz um checape. Estou muito bem de saúde. Mas o médico disse... espere lá, deixa eu ler aqui pra senhora o diagnóstico... Dudu, traz meus óculos aí em cima da mesa... — ah, taqui... o médico disse que tenho “mamas pendulares, hipertróficas, com irregularidades em ASS” e que estou “sem resistência abdominal muscular”. Ele me aconselhou a fazer uma operação plástica. O que a senhora acha? Faço ou não faço?

O diálogo acima foi entre a fisioterapeuta da minha sogra, que é – quanta coincidência! — amazonense e sua mãe. Casada, três filhos, dois netos, vive no Rio há alguns anos. Apesar de avó é jovem. Gatosa. Casou muito cedo. O que você acabou de ler no primeiro parágrafo é o papo dela numa ligação interurbana com sua mãe, em Manaus, que eu escutei. Ela me autorizou a publicá-lo, desde que omitisse o seu nome.

Mama pendular, leitor, é peito oscilante, meio caído, olhando pra baixo. Hipertrófico é que ele cresceu mais do que devia. E irregular em ASS, francamente, eu não sei. Quanto à falta de resistência abdominal muscular, é aquela dobrinha na barriga, o que se chama popularmente de “barriga de babado” ou “minissaia”. A fisioterapeuta da minha sogra está em dúvida sobre se opera ou não opera, sobretudo porque ela tem três “umbigos”, um de cada cesariana.

Raimunda

Égua! Por que estou contando essa história, einh! Ah, me lembrei. Talvez essa dúvida nos permita, leitor, a mim e a ti, equacionarmos juntos, de uma forma politicamente correta, “A volta da Rai”. Fortaleza não tem “A volta da Jurema”? Pois é! Manaus tem “A volta da Rai”. Da mesma forma que Jurema simboliza a cultura cearense, Raimunda resume a essência da alma manauara.

Nem toda Raimunda é feia de cara e boa de... coração, mas todas elas têm vergonha do seu nome, até minha tia, que aproveitou uma passagem pelo convento e, como freira, passou a chamar-se Conceição. Dou razão a ela, leitor. Raimunda é pior do que Ribamar. É um despautério. Rai é mais chique. Por isso, o calçadão da Ponta Negra, em vez de “A volta da Raimunda”, ficará conhecido simplesmente como “A volta da Rai”.

O nome está explicado. O difícil agora é saber como nós, sempre de oposição, vamos tratar o calçadão da Ponta Negra. Vamos frequentá-lo e aplaudi-lo? Vamos ignorá-lo ou atacá-lo? Acontece que ele é uma obra do “nosso grupo político” segundo terminologia usada por um vereador bem ressarcido (ainda que o Código Penal brasileiro possua outra denominação para esse tipo de formação junina). Se criticamos o calçadão e o achamos feio, não estamos sendo injustos? Se achamos bonito, não estaremos louvando cópia de Miami, apoiando a quem sempre combatemos?

Confesso publicamente que podem colocar meu nome entre os deslumbrados com “A volta de Rai”. A Ponta Negra ficou linda. O arquiteto que fez o projeto está de parabéns.

— É, bebê! A obra valorizou os imóveis e terrenos da área, beneficiando seus proprietários e, de quebra, a classe média, que tem carro, e pode passear por ali — me disse um amigo xiita (que é da classe média, tem carro e estava passeando por ali).

— E daí? A classe média também é filha de Deus — eu tentei tranquilizá-lo.

Peitinho empinado

Não podemos ser tão mesquinhos a ponto de negar "A Volta da Rai¨ e sua beleza”. No entanto, não podemos ser tão ingênuos a ponto de deixar de fazer, pelo menos, algumas perguntas e observações.

Olha só, leitor. O Josué Filho já comparou Manaus a uma “noivinha”, que espera ansiosa o seu príncipe encantado. Vamos supor que tu, cidadão manauara, és o príncipe encantado. Mandas fazer o diagnóstico da saúde da tua “noivinha”. O resultado é semelhante ao da fisioterapeuta da minha sogra, avó do Dudu: coração de atleta; pressão de neném; pulmões de mergulhador; apetite de filho de conselheiro do Tribulins. Peitinhos: pendulares e hipertróficos. Faz ou não faz a operação plástica?

— Se você tivesse alguma doença grave, minha filha, eu lhe diria: não faça. Use seu dinheirinho para tratar aquilo que é essencial. Mas não é o caso. Faça a plástica, minha filha, levante seus peitinhos.

Esse foi o conselho da mãe da fisioterapeuta, uma sábia vizinha do Gugu em frente à fabrica de guaraná Magistral.

Agora, supunhetemos, leitor, que a noivinha Manaus esteja com todas aquelas doenças graves que atacaram os vereadores ressarcidos, necessitados de muitas intervenções cirúrgicas. Coração enfartado; pulmões resfolegando com tuberculose galopante; fígado, com cirrose hepática; ovários com câncer; intestinos com úlceras. Enfim, pobre noivoca, toda arrebentada. Diante de um quadro desses, você — que não é um ressarcido — usaria seu dinheirinho para fazer uma operação plástica na mama? Ou estabeleceria prioridades?

Pois é. Foi o que “o nosso grupo político” (viche! viche!) fez com o calçadão da Ponta Negra. “A Volta da Rai” foi uma plástica nas mamas pendulares e hipertróficas de Manaus. Deixou a noivinha com os peitinhos empinadinhos, durinhos, olhando para o céu, mas com o coração, pulmões, fígado, ovário, intestinos, tudo apodrecendo.

Linda no caixão

Em vez de empinar os peitinhos da cidade, não teria sido melhor ampliar a rede de esgoto, investir em saneamento básico, água encanada para todo mundo, coleta de lixo regularizada, transporte coletivo bom e barato, escolas e hospitais decentes com salários justos para professores e médicos, tratamento solidário e efetivo aos moradores de rua? Aí, se sobrasse grana, se cuidava das mamas pendulares.

Os moradores dos bairros da periferia e dos conjuntos habitacionais se queixam, nos jornais, diariamente, da sujeira da cidade. Tem bairro que fica, às vezes, até duas semanas sem coleta de lixo, como o Alvorada I. Falta saneamento básico, os igarapés estão poluídos, a cidade está bombardeada.

Pensa bem, leitor! Faz como os filósofos gregos. Distingue a aparência das coisas de sua essência antes de fazer qualquer avaliação. A noivinha pode morrer, fedorenta e suja, mas de peitinho empinado. Vai ficar linda-linda no caixão. Vale a pena? Nessas condições, você faria a operação plástica?

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