.O que-é, o que-é? Responde depressa esta adivinhação: o que-é o que-é que nós temos em comum: eu, tu — dileto leitor— e o Governo do Amazonas?
É fácil. Eu, Tu e Ele não entendemos bulhufas de economia. Chongas! Pitibiribas!
É verdade. Não estou brincando não. Vai ao Palácio Rio Negro e pergunta o que é banda cambial, choque de juro, alíquota, desaceleração da demanda, bolha de consumo, estagflação, âncora cambial e tantos outros babados do “economês”. Ninguém te responderá.
Quando a Lilian Bife-Quibe do telejornal da Globo, o Luís Nassif da Bandeirantes ou a Salete do SBT anunciam que o índice Bovespa baixou, não sabemos o que essa broxada significa para o Brasil ou para o nosso cotidiano.
A diferença é que tu e eu admitimos, com humildade, o nosso desconhecimento. Já Ele, o Governo do Amazonas, com muita lambança, procura arrotar um saber que não possui, quando decreta:
- “Este Governo será o Terceiro Ciclo de Desenvolvimento do Amazonas”.
Todo mundo se lembra da forma como o Terceiro Ciclo foi anunciado em plena campanha eleitoral:
— O bacalhau! O bacalhau é um processo. Pode-se fazer bacalhau com qualquer peixe. O caboclo amazonense vai aprender a fazer bacalhau de pacu, pirarucu, tucunaré e jaraqui para enfrentar os empresários paulistas. O bacalhau e a agricultura, isto é o Terceiro Ciclo.
Terceiro Ciclo de Desenvolvimento!!! Olha, amiga leitora, tu não sabes quantas noites sem dormir eu passei, tentando adivinhar o significado de fórmula tão pomposa: Terceiro Ciclo de Desenvolvimento... Que diabo vem a ser o Terceiro Ciclo de Desenvolvimento do Amazonas? Bacalhau de pacu com macaxeira? Deus meu, dai-me uma luz!
Pai de santo
Como sou leigo na matéria, decidi ir a uma sessão de umbanda para consultar quem entende do riscado, isto é, os grandes economistas. O pai-de-santo ou babalorixá me recebeu com carinho. Vestido de branco, com um charuto aceso, ele me cumprimentou com dois toques de ombros e aí aconteceu uma coisa extraordinária. Antes que eu abrisse a boca, ele foi logo dizendo:
— Izi-fio tá angustiado, tá querendo saber o que é o Terceiro Ciclo? Hum! Hum!
Olha só, leitora!!! Passa a mão aqui no meu braço e vê como estou com os cabelinhos arrepiadinhos! Como é que ele adivinhou? Impressionado, confirmei:
— É isso aí, meu pai.
Entre baforadas de charutos, o chefe do terreiro disse:
— Izi-fio — hum, hum! — vamos precisar de “cavalo” muito forte para incorporar os espíritos do alemão, do austríaco e do inglês, hum, hum.
O alemão era Karl Marx (1818-1883), cujo espírito desencarnou no ano em que nasceram dois outros economistas famosos: o austríaco J. Schumpeter (1883-1950) e o inglês J.M. Keynes (1883-1946). Os três, com perspectiva diferente, teorizaram sobre ciclo econômico.
A sessão começou. Os médiuns ou “cavalos” em volta de uma mesa, entraram em transe. No começo, eles incorporaram dois espíritos: o de Humberto Santanas e o de Maia Melo, os dois “fantasmas” contratados pelo Governo do Amazonas para as obras da BR-174. Mas depois que chamaram o espírito-de-porco do Eronildo e defumaram o terreiro, os três economistas puderam, enfim, baixar. Eis aqui suas conclusões:
Desenvolvimento
O Governo afirma estar abrindo — e jura que vai fechar — o Terceiro Ciclo de Desenvolvimento da Amazônia, assumindo que a Borracha foi o primeiro e a Zona Franca o segundo. Ora, aqui ele comete um erro primário em ciências econômicas: o de confundir crescimento com desenvolvimento, que não significam a mesma coisa.
O crescimento é um aumento meramente quantitativo de bens e serviços. É quando a economia vai bem, mas o povo vai mal, como no período da ditadura militar, com grande concentração de renda em poucas mãos. Já o desenvolvimento é uma transformação qualitativa da sociedade, com mudanças no campo social e político, com melhoria das condições de vida da população, medida por indicadores como a taxa de mortalidade infantil, número de habitantes por médico, percentagem da população alfabetizada, esperança de vida média, consumo de energia elétrica per capita, saneamento básico e outros relacionados à qualidade de vida.
O desenvolvimento econômico vem necessariamente acompanhado de crescimento, mas o crescimento nem sempre significa desenvolvimento. No período áureo da borracha, por exemplo, da mesma forma que na Zona Franca, o que houve foi crescimento e não desenvolvimento, porque a vida das pessoas não melhorou.
O ciclo — A noção de ciclo está associada à ideia de repetição periódica de determinados fenômenos ou fatos, como por exemplo, com o perdão da palavra, o ciclo menstrual. Mulher é bicho esquisito, todo mês sangra, canta Rita Lee.
Em Economia Política, o que sangra é outra coisa, pois a noção de ciclo é usada para mostrar que o desenvolvimento percorre fases ora de auge, ora de depressão e crise. Desta forma, um ciclo será o período compreendido entre o começo de duas crises sucessivas. Com esse enfoque, não é apropriado falar em ciclo da borracha ou da zona franca.
Aliás, essa forma de ver a história econômica do Brasil como uma sucessão de ciclos — do pau-brasil, do açúcar, do ouro, etc. — foi duramente criticada, entre outros, pela historiadora Maria Yedda Linhares, na década de 70, mostrando que esse tipo de enfoque acabou ocultando a pequena produção e a existência, mesmo incipiente, do mercado interno. Conclusão: esta noção de ciclo está para a Economia, como a alquimia está para a química, é velha, superada, ninguém mais usa, só o atual Governo do Amazonas que, com o perdão do trocadilho infame, precisa reciclar-se.
Terceiro? — Se considerarmos impropriamente a Borracha e a Zona Franca como ciclos, então a coleta das chamadas “drogas do sertão” no sec. XVII e o projeto agrícola de Pombal no sec. XVIII, também necessariamente o são. Logo, o que vem depois não é terceiro.
Fica, portanto, demonstrado que o bacalhau de pacu não é desenvolvimento, não é ciclo e nem sequer é terceiro. Para falar a verdade, como qualquer dona de casa sabe, não é nem bacalhau. Não é nada. É uma grande bobagem de retórica rimbombante e vazia. Trata-se apenas de delírios megalomaníacos e desatualizados de palanque eleitoral, destinados a enganar os bestas e a esconder os “fantasmas” que o comandante Eronildo Bezerra assustou. O Terceiro Ciclo acabou sem nunca ter começado. Como a viúva Porcina, foi sem nunca ter sido. Já vai tarde.