CRÔNICAS

"A próxima vítima": a telenovela do caboco suburucu

Em: 16 de Maio de 1995 Visualizações: 2421
"A próxima vítima": a telenovela do caboco suburucu

.Nunca se matou tanto como na telenovela A próxima vítima exibida agora pela TV Globo. Nem na Guerra da Croácia.  Em cada um dos seus 203 capítulos alguém é inexplicavelmente assassinado. O próximo crime será cometido amanhã. Júlia Glória Menezes decide viajar para Paris e é baleada no caminho para o aeroporto. Quem a matou? Ninguém sabe, mas pode ter sido qualquer um dos telespectadores que não su-por-ta-vam mais as caras, bocas e bicos da falsa grã-fina. Já vai tarde. Qualquer dia, telespectador de saco cheio matará Kleber, o falso crioulo, personagem representado por Antônio Pitanga. Os personagens deles dois são canastrões.

Parece que a Júlia sofreu uma operação plástica e passou todos os capítulos da novela comendo abiu. O gesto que ela faz com a boca, dobrando os lábios superiores para cima e os inferiores para baixo é de quem está tentando desgrudar aquele leite pegajoso da casca do abiu. Que coisa! É impressionante! Se não for o grude do abiu, então ela está tentando desvencilhar-se da farinha láctea colada na gengiva como o faz permanentemente o ministro da Agricultura, José Bamerindus Andrade Vieira, aquele que quer ressuscitar o IPMF para a gente pagar a dívida dos latifundiários com o Banco do Brasil. Ele também comeu abiu, mas só com um lado da boca, ligeiramente torta. Um beijo do Andrade na Júlia, nem pensar! Ficariam grudados.

Os atores são excelentes: Susana Vieira, Aracy Balabanian, Cláudia Ohana, Natália do Vale, Lima Duarte, Cecil Thiré, Gianfresco Guarnieri, Tony Ramos, além dos extraordinários Glória Menezes e Pitanga.

O intrigante é que são tantos os crimes e até agora nenhum culpado na cadeia. É a própria imagem do Brasil. Por isso, decidimos introduzir na narrativa da telenovela cenário e personagens amazônicos, com fatos da vida real, especialmente do mundo político das negociatas.  Um dos personagens seguiu os passos do suplente de senador Gilberto Miranda, o Mirandinha, empresário do ramo de exportação e importação, que se transferiu de São Paulo para Manaus, com o objetivo de ganhar dinheiro nem sempre de forma honesta. Ele acaba arrastado todo o elenco atrás dele. Em primeiríssima mão, informamos aos nossos leitores o que vai acontecer nos capítulos a partir de próxima semana.

X Caboquinho

Depois da surra que deu na sua noiva Isabela Cláudia Ohana, o Diego Marcos Frota compra uma fazenda de gado do “doutor” e vai morar no Careiro (AM).  A Isabela vai atrás dele. Seu amante Marcelo José Wilker segue-lhe os passos e consegue emprego na Escada, empresa escolhida para gerenciar o Sistema de Fiscalização da Amazônia (SIFAM), onde descobre alguns trambiques dados na Previdência Social. O inescrupuloso Marcelo faz chantagem com a empresa e descola dinheiro para comprar um belo apartamento na Ponta Negra, onde vai viver com Isabela, que recebe visitas escondidas frequentes de Diego.

Isabela sente tonturas, procura um médico, faz exames e descobre que está grávida. Pede os recibos do pagamento da consulta e dos laboratórios, superfaturados, no nome de um vereador amigo e encaminha para a Câmara Municipal para ressarcimento. Decepcionada, é informada que os processos imorais e ilegais de ressarcimento foram suspensos, devido à campanha movida pela imprensa.

Algum tempo depois, Isabela morre de parto – ela era “a próxima vítima” e não sabia – dando à luz os trigêmeos. Um deles tem a cara do Marcelo. Os outros dois, os cornos do Diego. As crianças são batizadas com os nomes de Átila, Nissim-Ninão e Mustafinha. O pai convida para padrinhos Belarmino e Conceição Lins e pede deles que os três afilhados, ao completarem seis meses de idade, sejam empregados no Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) um como conselheiro, o outro como auditor e o terceiro como fiscal. É informado que crianças não são mais contratadas pelo TCM, que foi extinto, graças à campanha da imprensa. “Quem comeu, comeu, quem não comeu, não come mais”.

Enquanto isso, Ana Suzana Vieira, apaixonada ainda por Marcelo Wilker, viaja com os seus três filhos para Manaus, onde monta um restaurante especializado em caldeirada de tucunaré, com o dinheiro da venda de sua pizzaria da Moóca. Juca Tony Ramos eternamente enamorado por Ana, não resiste, vende também sua barraca no Mercado Central de São Paulo e instala uma banca de tacacá no Mercadão Adolpho Lisboa. onde vende também  “X Caboquinho”, o sanduba com lascas de tucumã, croquete de pirarucu e tapioca.  Helena Natália do Valle, que não pode viver sem Juca, se pica também para Manaus, onde pouco a pouco se instalam todos os personagens.  

Cabaré Chinelo

Hoje, terça-feira, depois do Jornal Nacional, a Helena Natália do Vale vai atrás do Tony Ramos – o Juca – no mercado, pespega-lhe um beijo e leva-o para um motel. Tudo isso acontece em São Paulo. Em Manaus, o desdobramento será bastante diferente nas próximas semanas.

O caminhoneiro Zé Bolacha – Lima Duarte – pai de Juca, se mete na concorrência para asfaltar a estrada Manaus-Boa Vista e antes que o resultado seja divulgado, ele aparece misteriosamente morto, com a boca cheia de formiga, num terreno baldio do Coroado III. Deixa muita grana, de origem duvidosa, para Quitéria Vera Holtz, que compra as ruínas do Cabaré Chinelo, reforma-o e coloca-o em pleno funcionamento.

Marcelo, metido no crime do colarinho branco e na venda de quotas de importação da Suframa, é a próxima vítima. Morre dormindo, por coincidência, no mesmo dia em que Diego morre afogado, quando tentava adicionar água do rio no leite que trazia do Cambixe para vendê-lo adulterado em Manaus.

Os trigêmeos, na orfandade, são adotados por uma professora universitária aposentada, casada com um americano de origem japonesa, que vive na av. Vale do Pó, no Conjunto da Cophasa. Desta forma, Ana fica livre para dar em cima de Juca, que aceita casar com ela. Aí, a Helena Natália do Valle fica boiando.

Solitária, mas faminta, Helena Natália do Valle, apesar da grande diferença de idade, acaba se apaixonando por um jovem publicitário, recém-chegado do Rio de Janeiro. O amor é correspondido. Os dois se encontram no restaurante de Ana, para um jantar à luz de velas. Entre a caldeirada de tucunaré e a sobremesa de creme de cupuaçu, Helena confessa a Mauro Roberto — este é o nome do jovem publicitário — que só pode casar-se com ele, se resolver o problema de seus dois filhos: o maconheirozinho Lucas Pedro Vasconcelos e a detetive Irene Vivianne Pasmenter.

Lucas, na verdade, é a “próxima vítima”, come aquele pastel popularmente conhecido como “Jesus me espera”, numa “lanchonete do Zumbi” e morre envenenado. Já Irene, sensual e fanhosa, apesar também da diferença de idade, está perdidamente apaixonada pelo tio do jovem publicitário, que vive em Niterói (RJ). O publicitário resolve promover uma festa para levantar o astral da cidade de Manaus e convida Irene e seu tio. Quando os dois estão dançando, de rosto colado, dona Elisa pega o controle remoto — e clic — muda de canal.

— Vamos acabar com essa pouca-vergonha.

Que pena! Acabou a pouca-vergonha!

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