Transcrevo a seguinte carta que recebi via fax do vereador de Manaus, João Torres
Manaus, 08 de agosto de 1995,
Meu prezado amigo, mestre e ex-diretor do nosso tradicional Colégio Estadual D. Pedro II, professor José Ribamar Bessa Freire.
Não me contive, mestre querido, ao ler sua tão respeitada coluna “Taqui Pra Ti” no jornal A Crítica de 08.08.95 do nosso saudoso Umberto Calderaro.
Não viesse do meu professor e ex-diretor do Colégio Estadual do Amazonas (CEA) tão significativa citação a meu respeito como vereador mais atuante de nossa Manaus, por certo eu estaria surpreso.
Devo dizer ao meu mestre, que essa minha atuação muito se deve aos ensinamentos que recebi dos meus pais e do ilustre professor, que puderam transmitir a mim os conhecimentos que hoje detenho, embora sem uma assessoria de gabinete à altura do tão ilustre professor.
Quero sim, ao contrário, receber suas valiosas ideias para poder desempenhar a contento o mandato que o povo me outorgou.
Um abraço do aluno João Torres, vereador”.
Depois de quatro semanas, só agora surge a oportunidade da resposta. Lá vai:
Nobre vereador João Torres,
Pelas informações que disponho, você não é corrupto, nem ressarcido. Não concluiu seus estudos na Escola Altair Severiano Nunes. Nunca comeu a merenda escolar dos outros. Ao contrário, está empenhado numa campanha para acabar com os ratos e as catitas gulosas da Câmara Municipal. Também, você não é arrogante. É manso e humilde de coração.
Por todas essas razões, seria eu a última pessoa do mundo a debochar do nobre vereador. O que não me impede, em absoluto, de convidá-lo para, junto com os leitores, rirmos um pouco de todos nós: de você, de mim, do mundo e da lusitanidade, é claro.
Começo por aquela velha piada. O Joaquim estava na Praça XV, no Rio de Janeiro, quando alguém gritou para ele:
— Corre, Manoel! Tua casa em Niterói está pegando fogo, tua mulher e tua filha estão com queimaduras de segundo grau e tua sogra desmaiou.
O portuga, desesperado, saiu numa carreira desabalada. Entrou na barca para ir a Niterói. Meia hora de angústia e sofrimento. Só ao desembarcar, ele descobriu o equívoco:
— Não me chamo Manoel, não sou casado, não tenho filha, não tenho sogra e não moro em Niterói. Então, não é comigo!
Pois é, rapaz! Ao receber sua carta, me assustei mais do que o português da piada, porque no meu caso particular, encontro-me enquadrado em quase todos os itens citados. Moro, efetivamente, em Niterói. Sou casado. Tenho filha e sogra. Mas — ufa! — não me chamo Manoel. Quem atende por esse nome é meu tio Manoel Bessa Filho, esse sim, ex-diretor do Colégio Estadual do Amazonas (CEA), “já lá vão 40 anos”.
Quanto a mim, nunca fui professor do CEA, muito menos diretor de coisa alguma. O nobre edil, seguramente, confundiu-nos, o que para mim é uma honra, considerando a inteligência e o humor do tio Manoel. No entanto, não é justo que esteja eu a aproveitar-me do mérito alheio. É a ele, João, ao Manoel Bessa, a quem você deve agradecer pelos ensinamentos recebidos. Como cunhado do finado Barboza, um gozador, O Manezinho vai ficar muito contente com essa história.
Você é inteligente, João Torres! Com seu fax, você acabou me desarmando. Confesso que inicialmente havia pensado em escrever uma crônica, explorando o aspecto “folclórico” de certos projetos de sua autoria. Depois, desisti. No entanto, já que você termina sua carta manifestando disposição para receber minhas — ou do Manoel? — valiosas ideias, aproveito para oferecer algumas, sem maldades e com o espírito alegre de camaradagem. Fale com o Manoel, que ele oferecerá outras mais interessantes ainda.
Com relação ao trânsito, por exemplo, tenho um projeto que acabaria definitivamente com o engarrafamento na Constantino Nery, nas horas de pique. Bastaria aprová-lo na Câmara Municipal. Ele tem apenas dois artigos:
Art. 1 — A partir de hoje, mudar-se-á o nome da av. Constantino Nery para Alameda João Barboza.
Art. 2 — Revogam-se as disposições em contrário.
Pronto! Resolvido o problema. Nunca mais haveria engarrafamento na Constantino Nery.
O trânsito de Manaus, aliás, será outro, depois de uma campanha de educação, ensinando os motoristas amazonenses a respeitarem o sinal vermelho. A Câmara votará um projeto, obrigando a Prefeitura a construir quebra-molas retráteis sincronizados com os semáforos. Cada vez que o sinal ficar vermelho, o quebra-molas sobe, formando uma pequena mureta para impedir o avanço dos carros. Sinal verde, a mureta desce, permitindo a passagem de qualquer veículo.
O calor infernal, que transforma Manaus num forno, melhoraria com a aprovação do seguinte projeto, menos mirabolante que muitos outros já apresentados:
Art. 1 — Ficam isentos do pagamento do IPTU os imóveis residenciais que instalarem ventiladores nas portas e janelas, soprando para fora, de modo a amenizar o calor das ruas.
O grande problema dos camelôs, enfrentado sem êxito por todos os prefeitos, será solucionado com um projeto obrigando cada vendedor ambulante a ficar permanentemente em circulação, como a própria denominação ambulante sugere. Será estabelecida uma quota diária, por quilômetros, para cada camelô.
Como você pode ver, caro João Torres, ideias não faltam. Você está nessa luta difícil contra os ratos da Câmara Municipal, armando ratoeiras, dedetizando, quando podemos matar dois coelhos — digo ratos — com uma só paulada. Os salários de fome pagos pelo Governo e pela Prefeitura nos permitem sugerir um projeto: a Câmara Municipal gratificará médicos e professores com um real por cada rato morto que eles trouxerem aos gabinetes do Amazonino e do Eduardo Braga. Não tenho dúvidas que esse projeto acabará com os ratos de Manaus, permitindo aumentar a renda mensal dessas duas sofridas categorias.
P.S. — O túmulo de Darwin, no cemitério de Londres, tremeu. Observadores acreditam que o fenômeno se deve à prova de Biologia do exame supletivo de Humaitá. O Alferes Ronaldo Tiradentes conseguiu aprender em um mês aquilo que o pai do evolucionismo não produziu em toda sua vida de pesquisador.
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